No Rio, pó e pedra.
Não quis saber, ver, ouvir.
É como ir ao velório de um desconhecido e levar flores.
Por aqui, quedas d’água.
Eu abri o jogo em rede.
Muita gente se solidariza.
Outros apontam o dedo.
Louca.
Agora entendo porque, em São Paulo, o calor avisa que a chuva vai fazer a rua virar rio.
Fumo, nervosa, um cigarro imaginário.
Rio.
Dia de sol.
Acordo cedo, vejo a Vila com seus tipos bizarros, divertidos, muitos cachorros e terra vermelha.
Não, não me falta mar.
Museus, deck sem piscina.
Água de bica estilizada.
Pó de asfalto.
Pele é diamante negro.
Horizonte cor de laranja.
Pausa no frege do trabalho.
Cidade dura em festa.
Cortesia ensinada.
Adestramento do encanto.
Pausa para um clericot.
Nasceu na Índia faz mais de cem anos.
Ingleses no Punjab, mortos (como eu) de calor, gelaram vinho claret (Bordeaux para britânicos) e misturaram a ele pedaços de abacaxi.
Claret up!
A idéia rodou o mundo, ganhou branco ou espumante no lugar do tinto e acabou-se em total clericot.
Clericot tropical para uma São Paulo em chamas
1 garrafa de champagne
50 ml de grenadine
12 morangos cortados ao meio
2 maçãs picadas
¼ de abacaxi em cubinhos
½ manga ou laranja picada
8 linchias
Misture tudo, acrescente gelo.
Beba logo, aproveite o resto do dia.
Por aqui, tempo louco de verão.
Chuva, sol, sol e chuva e, assim, sucessivamente.
Eu, sem tempo e sem nada fazer, vou olhando a vida pela janela do carro.
Quando dá, desço e me esbaldo.
Hoje, fugi.
Fugi para o parque, para a coruja buraqueira que, com sol a pino, dormia.
Fugi de tudo o que é sério e certo e caí na gandaia matinal.
No meio do caminho não tinha pedra.
Tinha telefone, Carlos.
E vinha gente inocente me chamar para o sul.
E gente sem jeito me dizer que tomei um pé.
Eu, agradecida, desliguei.
E tomei sol.
Com pé, sem norte.
Sol de janeiro.
Feliz e acelerado.
Dizendo que, em fevereiro, é carnaval.
(re.sig.na.ção)
sf.
1. Ação ou resultado de resignar(-se).
2. Demissão voluntária do cargo exercido ou da graça recebida; renúncia [+ de (... em favor de) : a resignação do ministro em favor do chefe de gabinete]
3. Fig. Submissão aliada à constância e paciência face aos infortúnios; paciência no sofrimento, coragem para suportar os rigores dos infortúnios, constância em uma situação sem que se reaja contra ela, ou sem que o paciente se lamente dela; paciência: “A expressão do rosto não era propriamente de tristeza ou de resignação, mas de constrangimento, e pode ser também que de ansiedade…” (Machado de Assis, Casa velha)) [+ a, com, em, (per)ante : resignação ao sofrimento:resignação com os reveses: resignação na dor: resignação (per)ante a morte]
Houve um tempo em que minhas insônias eram pura empolgação.
Dia agitado.
Hoje é mesmo cansaço.
Antes, lutava com isso.
Hoje, ando resignada.
Será a idade?
Ah! Os anos que passam e a gente que não vai se acalmando.
Vira aquele bicho meio acuado, meio preparando o bote.
O agito externo vira interno.
Tendo paciência para a hora certa.
Sabendo que certo ou errado variam de acordo com a temperatura.
Ah. A idade.
Querido, todos vamos passar desta.
Uns com menos, outros com mais.
Poucos com a cabeça erguida.
Da moça que não quis fazer exame de corpo de delito ao comandante que bateu o navio em uma noite escura e fria, não trabalhou nos resgates e fugiu.
Vamos todos passar.
Ser você é mesmo, lindo, louro e ainda quer ter opinião…
Só se for em filme mudo gravado no leste europeu pouco antes da Segunda Guerra.
Enfrentar fila porque é o certo.
Devolver a carteira perdida.
Ajudar uma velhinha a atravessar a rua.
Pagar todos os impostos – mesmo que eles sejam desviados de seu destino.
Ser uma pessoa boa.
Eu sou uma menina má.
Mas é em outro sentido.
Eu também vou passar.
Em tempos de realidade em inglês, o que é um coitado de um blog?
Não, você não entra em meu quarto, não me acompanha quando escovo os dentes.
E, mesmo assim, você vê tanto de mim.
Você está aqui.
Do lado de lá…
Nem o navio que bateu na pedra, tombou e matou gente ganhou tanto espaço.
No Brasil, o assunto que domina os pontos de ônibus, calçadas, botequins, recepções de médico e baias de escritórios é o estupro ao vivo, na sua sala de visitas, no seu quarto.
Sim.
Os dois beberam, a moça apagou e, pelo que circula em twitter e facebook, o moço continuou a história sem o consentimento dela.
E a TV?
A TV entrou para a turma do “deixa disso”.
Como assumir que deu guarida para um crime?
Como assumir que o lixo, a escória, o vil e o feio em suas mãos são puro ouro?
Rapidamente as imagens sumiram.
A máquina trabalhou para encobrir tudo.
Nas redes sociais, rastros do crime.
E que é certo? O que é feio e sujo em terras sem lei?
Não sei se quero entender o que se passa.
Como diria meu amigo Ely, “aqui só se fala em outra coisa”…
Eu não sei qual é a sensação de um caminhão passando por cima.
Mas eu sei o que é ser nocauteado todos os dias por dois anos seguidos.
A primeira vez, inconseqüentemente, você se levanta assim que abre os olhos.
As pernas, pura manteiga.
O sangue escorrendo e formando rios pelo nariz, entre os lábios, descendo pelo pescoço.
Os cabelos sujos e colados nas têmporas.
No dia seguinte, você se levanta mais rápido.
Urra por dentro, mas ainda se segura em pé.
Ao final de um mês…
Você nem abre os olhos mais.
Fica ali, deitado, esperando o zumbido no ouvido deixar de ser um iiiiiiiiiiiiiiiih contínuo.
Depois de um ano.
Você sabe que vai acordar e POW!
Um soco vai te derrubar, você vai ficar estendido no chão meio zonzo, vai sentir um gosto metálico de sangue na boca…
Uma ducha, um band aid, e dia que segue.
Hoje, pouco mais de dois anos se passaram. Você escova os dentes, coloca um pijama velho que anda meio apertado…
Escovando os dentes antes de dormir, surpresa: o supercílio ferido denuncia o golpe.
E você percebe, pela última vez, que um dia acordou e foi a nocaute.
Indolor.
Apenas mais um dia.
(A partir de amanhã, nem os socos te acordarão. Muito menos a memória)
Pois é – a vida continua.
E não é que me cai do céu uma história linda para quem é leve e solto?
E eu, com espírito livrérrimo, corpo enraizado, não comprei logo de cara.
(É que mudei.)
E o lado de lá tem que estar ciente da minha mudança.
Eu topo, mas preciso de um tempinho para o meu pequeno.
(Eu sempre soube que isso iria acontecer e, agora, de prima, fiquei espantada com minha firmeza.)
O pacote mudou, mas sou eu ainda de fato.
(Creia. Aposte.)
E com mais pique, mais gana, menos dispersa.
Livre (pero no mucho), leve (de mentirinha) e soltinha na marola para fazer coisas bacanas.
Eu voltei.










