17 mai

Acordou virada.
A empregada veio com as mesmas perguntas: cardápio do almoço, dinheiro para tal coisa.
Nem respondeu.
Beijou o filho, vestiu aquela roupa que teimava em não caber – e que, milagrosamente, coube – e saiu.
Sem direção…
Rodou pelos arredores.
Pompéia, Lapa, Vila Romana.
Olhava as caras sem face dos trabalhadores que saem todos os dias a caminho de um escritório com divisórias de PVC, paredes brancas, porteiro de terno azul marinho.
Viu os pontos de ônibus cheios.
Gente carregando sacolas aposentadas de supermercado.
Parou no farol de uma rua movimentada.
O carro chamou atenção de um grupo de bolivianos que tomava chá do lado de fora de um botequim.
Entrou.
Pediu um café e uma branquinha.
Misturou tudo, tomou sem fazer cara feia.
O sinal abriu.
Deixou dois reais sobre o balcão.
Nervosos, motoristas buzinavam.
Nem olhou para as caras sem nariz, sem olhos, sem boca.
Rodou mais um pouco.
Uma loja improvisada em uma casa velha, quintal com pomar.
Pediu pão de mel.
Comeu com calma.
Fechou os olhos.

Animada com a fuga, escolheu um caminho.
Correu no parque até que os pés ficaram cheios de bolhas de sangue.
Voltou para casa sem fome.

Escrito por anapessoa
16 mai

Fazia compras sempre que o estresse apertava.
E seguia um ritual: abandonava o que comprava pela cidade.
Jóias deixadas num guichê de metrô.
Sapatos na banca de jornal.
Flores na porta de entrada da padaria.
Camisas no museu de arte contemporânea.
Livros na Igreja Evangélica.

Em casa, o armário estava vazio.
Tinha 2 mudas de roupa.
Não havia margem para acidentes.

Não comia muito – gostava da sensação de quase delirar sem combustível no corpo.
A casa não tinha cores.
Plantas.
Móveis.
Havia um tapete na sala.
Ali fazia as refeições.
Deitava para ler.

Eletrodomésticos, utensílios?
Um fogão de duas bocas, um aquecedor, um chuveiro elétrico.
Não havia geladeira, TV, telefone.
Um celular era sua conexão com o além.

Escrito por anapessoa
15 mai

ssssssssssss...

Necessidade de fazer um casulo vestida com mil camadas de roupa.
Vontade de sair de casa mesmo assim.

Saber que hoje é o que apenas há.
E gostar.

Uma sensação de calor apesar do gelo que te pede calma.
Uma corrida longa sem pensar no caminho que vai ficando sob os pés.

Terça feira com tudo novo.
São Paulo.

Escrito por anapessoa
14 mai

Bam-ba-la-lão.

Então o negócio é tocar para frente.
O corpo nem esfriou e você já quer discutir grana, divisão de bens, problema.
Na sociedade materialista, para quê reflexão?
Você tem que ser realista, prático, direto.
No hard feelings, babe.

Aliás, hard? Soft power, não?
Feelings ou notas de 10?

E eu, aqui, achando tudo isso uma pândega.
Afinal de contas: não existe caixa 24h no além.

Bora lutar contra o sistema.
Sonhar com poesia e prosa.
Trocar concreto por balão de gás.
Misturar soda com água de rosa.
Tomar parati de manhã.

Escrito por anapessoa
10 mai

Começava logo cedo.
Quando queria panquecas e caramelo, mas tomava apenas café preto.
A caminho do trabalho, com os saltos jogados no carona.
Subia elevador com a coluna ereta, sentindo dor na sola do pé.
Dava bom dia – forçado.
Passava o dia concentrada, em frente ao computador.
Sua mesa era bem posicionada.
Ninguém notava que ela escrevia sempre uma mesma palavra em um documento de word.
Almoçava bife com salada – mas queria cremes, molhos de manteiga.
Nunca pedia sobremesa.
Queria comer uma caixa de chocolates sortidos.
Voltava apressada – para nada.
Não havia ninguém em casa esperando por ela.
Passava a noite em frente ao computador.
Insone.
Brincando sempre de ser outra coisa.

Escrito por anapessoa
Tags: Ensaio
9 mai

A casa no fim do mundo

Em seu sono profundo, não sabia que não estava mais aqui.
Trabalhava sem parar, corria de um lado para outro, nunca pronta.
Os cabelos, lisos, permaneciam presos na nuca. Impecáveis.
Via jogos de futebol, tomava picolé – embora o frio fosse intenso.
Vez ou outra, sentia pequenos espasmos.
Nada que remetesse ao passado.
Nada que avisasse: “- Ei, hora de acordar.”
Em dois dias, viveu 10.
Era como se tivesse pouco tempo.
Mas não acertava contas, não mandava recado, não fechava ciclos.
Só trabalhava, trabalhava, trabalhava.
Não sentia sono, fome, não tomava banho.
Corria de jaleco branco resolvendo escalas, refazia planilhas, treinava gente, arrumava tudo em prateleiras.
Em volta da Bela Adormecida, um agito com pés de pantufas.
Amigas, colegas de trabalho, todos arrumavam seus cabelos, apertavam suas mãos.
O marido, meigo, enxugava pequenas lágrimas que brotavam de tempos em tempos de seus olhos.
Longe dali, fios de ouro iam crescendo, crescendo e construindo pontes que chegassem até ela.
Maçãs vermelhas da Branca de Neve se espalhavam pelo chão como numa foto de LaChapelle.
Em São Paulo, um cacto brotou em minhas costas.

O fim da era das certezas.

Escrito por anapessoa
Tags: Ensaio
8 mai

espaço sideral

E uma artéria se rompe em outra cidade.
Os olhos se fecham e, assim, sem planos, tudo se apaga.
Não há mais pressa, não falta tempo, a empregada que não resolve, o chefe acovardado, o colega desleal, o trabalho que não te completa.
Outra galáxia.
Sem sons.
Sem cor.
Sem relógio.
Sem dor.
Sem memória.

O mundo inteiro espera.
Velas acesas.
Choro de avô.
Família e torcida do Flamengo.

Nada mais.
O universo se expande na velocidade da luz.
Sem começo nem fim, sem grito, sem angústia.
Sem prateleira, sem livro, sem TV, sem Google para entender.

Você não partiu.
Você não está mais aqui.

Assim.
Simples: pá-pum.

Escrito por anapessoa
7 mai

so so

Começou com um espumante barato no hotel – tudo bem, qualquer coisa servia.
Mais tarde, um casal perguntou se os assentos estavam livres.
Meia-idade, sem filhos.
Outro casal se sentou ao lado deles.
Chamaram uma dupla de amigos.
Os copos não ficaram vazios.
As histórias virando tranças.
Ela, no Rio.
Ele, Florianópolis.
Com uma filha de nove anos.
Sem filhos.
Mudar de vida.
Segundo casamento.
Uisque.
A seleção de futebol alta de maconha em plena Jamaica nos anos 80.
Teve aquela da festa na Locanda della Mimosa.
De repente, todos no salão.
New York, New York.
De lá até chegar ao Rap das Armas foram camisas amassadas, alguns cacos de vidro no chão.
Aquele casal de gringos não saiu da pista.
MC Hammer.
Docinhos caseiros.
Café.
Remédio para proteger o estômago.
Meu Louboutin fico preso no pier.
Lá se foram 800 dólares.
Espumante.
Uma lua absurda.
No dia seguinte, todos muito comportados na areia.
Abraços protocolares no aeroporto.
Como se o mundo não existisse fora do salão.
Florianópolis.
Rio.
Nova York.
São Paulo.

Escrito por anapessoa
3 mai

Com os pés presos, uma carreira semi-acabada por ter ido nu ao escritório, resolveu soltar a última corda que prendia a alma.
Meio dia, frio de 9°C no país tropical.
Ameaça de chuva.
Parou num bar.

Começou com um chopp garoto.
Mas o corpo, gelado, pedia por algo mais forte.
Um uísque.
O garçon sugeriu um negroni.
Tomou também.
Trocou o almoço por mais um drinque colorido.
E voltou para o escritório com as idéias embaralhadas.

Conseguia andar em linha reta, mas sentia a cabeça pesada.
Respondeu emails com humor.
Decidiu deletar os provocativos – que eram tantos e sobre questões banais.

Pediu uma jarra de água para a secretária.
Chocolates.

Passou a tarde com a mente variando, rindo das bobagens que viravam grandes dramas corporativos discutidos com agressividade por email. Alguém, hoje, enfrentava problema cara a cara?
Comeu chocolates sem parar.
Lambuzou os dedos. Sujou o terno.
Encheu-se de água para curar o fogo.

Decidiu se levar menos a sério.

Escrito por anapessoa
2 mai

Acordou cedo – nunca passava das 7h.
Fazia frio e chovia.
Era bom sair com calça, blusa, colete, malha, sobretudo, meias de lã, sapato com sola emborrachada.
Com tanta roupa, a individualidade quase desaparecia.

Decidiu deixar o carro em casa.
O trânsito estaria caótico.
Enfrentar o transporte público com o olhar de quem não é passageiro cotidiano.
Ver as pessoas apressadas.
Tentar adivinhar a música que toca no iPod da vizinha de cadeira.
Dar lugar para uma moça cheia de sacolas.
Sentir o vagão tremer a cada curva.

Começou a olhar os sapatos.
Trabalhadores têm sapatos gastos.
Olhou para as próprias pernas.
A calça preta de tecido tecnológico.
Não molha, não amassa, não perde a cor.
Distraiu-se…

Foi quando tentou levantar a perna que notou.
Os dois pés estavam presos no solo.
Fincados, cimentados.
Quando queria se movimentar, era o chão que mexia.
A calçada toda corria para a frente ou para trás, como as esteiras quilométricas do aeroporto de Frankfurt.

Estava no meio da Avenida Paulista.
Olhava para os pés.
Os sapatos de sola de borracha (em casa usava chinelos).
Quando caminhava para frente.
A calçada ia para trás – e seu corpo continuava parado.
Tentou andar de costas.
Um movimento de ré desajeitado.
A calçada correu para frente.
Tirou os sapatos.
Com os pés descalços, nada mudava.

Riu um riso nervoso.
Ficou alguns minutos tentando arrancar os pés da calçada.
Os termômetros marcavam 12°C.
O suor escorria por seu rosto, ensopava as costas.
Alguns pedestres que viam seu agito esquizofrênico viravam o rosto.

Todos presos.
Todos sendo levados pelas ruas, calçadas, avenidas.
Ninguém notava?
Se sabiam, por que ninguém tentava soltar os pés?
Não havia bebido, não comera nada diferente. Isso não era alucinação.
Teria enlouquecido?

Mais uma vez, tentou tirar os pés.
Queria comprar uma picareta.
Quebrar tudo, libertar-se.

Olhou em volta.
Indiferentes.
Todos presos.

Pausa

Escrito por anapessoa