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Carta aberta à monarquia

sábado, 12 de setembro de 2015

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Egoísmo é amor exagerado aos próprios valores e interesses a despeito dos de outrem.
Não é de Kant (submissão do dever ao interesse particular, em detrimento da obediência à lei moral).
Não é de Nietzsche (sentimento cuja plenitude está restrita ao homem nobre e incomum, capaz de compreender o mundo do ponto de vista exclusivo de seu próprio interesse).
É um sentimentinho baixo mesmo.
Eu.
Eu.
Eu.
E a vida passa e você se concentra no eu.
No que pode ter.
No que pode te favorecer materialmente.
Numa falsa segurança material.

Egoísmo é um amor que te deixa sem o ser.
Ele é TER no estado puro.

Ser é algo imaterial.
É se doar.
É pensar no outro e, depois, em ti.
É se abrir no pensamento e na completude de que o mundo é grande e SOMOS todos um organismo vivo, somos únicos e somos um.
É saber que o material é bom, mas não vive sem o SER.

Querido egoísmo, primo da covardia, eu te dispenso.
Te coloco na geladeira.
Te desprezo.

Eu nasci para me doar.
Para me jogar em águas salgadas
Eu nasci para ir fundo.

E eu sou tinhosa.
Não mexa comigo.
Uma vez sacada a faca da bota, a história chega ao fim.
Que pena.
Lá no fundinho, eu sempre acredito.

Mas o meu melhor lado é o tal otimista.
Amanhã, primo Pessoa, já é outro dia.

A cesta

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Na minha sexta, tudo cabe na cesta.
Meditação, yoga, trabalho, pagamento de conta, você.
Eu preciso fazer mil coisas ao mesmo tempo – e isto me completa.
Mas quando eu penso, eu sou objetiva, penso em um alvo.
E isto me revela.
Eu tenho muito energia, não, não sou hiperativa, deprimida, bipolar, nada.
Sou assim, mesmo, em voltagem acelerada.
Eu amo.
Abraço, afago, carinho.
Não erotize o texto.
Eu penso nos doentes.
Nos tristes.
Nos confusos.
E vou até eles.
E dou colo.
Ainda não inventaram trabalho bem remunerado para quem só faz o que eu faço – por isto faço tudo ao mesmo tempo.
Preciso de uns bicos para pagar a conta.
E de uma sexta-feira para lembrar que eu não sou santa.

Quando faz frio

Quando faz frio

Cannolis

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

 

doce açúcar café

doce açúcar café

Siciliano, puro açúcar.
Doce com ricota, limão, chocolate ou baunilha…
A Itália tem sotaque bem mais doce no Bixiga.

Tomo café turco a seco.
Muitos projetos interessantes para quebrar paredes e derrubar muros.
Direto, sem rodeios.
O cacife é sempre alto e restritivo.
Como eu gosto do perigo.

Dias de pouco sono, muitas idéias e um turbilhão de coisas.
De Converse verde, salto ou tênis para praticar esportes.
Meias, malhas, vestidos justos ou de pernas nuas.
O calor deixa o frio em São Paulo.

E eu sinto a primavera chegando.
Com todas as flores num ramalhete único.
Uma delas deve durar mais que as outras.

Indomável

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A wild being from birth
My spirit spurns control
Wondering the wide earth searching for my soul

(Lou Reed)

Comecei este post em 2013.
E ele ficou aqui adormecido.
Hora de terminar porque não gosto de nada pela metade.

Ser ou ter, eis a grande e verdadeira questão.
Ter é maravilhoso – cada vez que recebo a conta meu condomínio penso em consultar um cardiologista…
Mas o ser tem sido a minha grande descoberta dos últimos tempos.
Ser tudo e com intensidade.
Sem vergonha.
Faladeira.
Começando o caminho da espiritualidade – justo a mais cética. Ou uma das mais.

Não jogar.
Não brincar com o outro.
A não ser que o jogo seja aberto, com regras sobre a mesa.

Deixar-se ir com o rio.
Com a água salgada do mar.
Simplesmente pegar o carro e dirigir duas horas para passar mais duas horas com os pés na areia molhada.
E voltar atrasada.

O ser que te faz objeto.
O que te devora.
O que te venera.
O que te pede calma.
O que chega sem licença.

Este lado de quem beijou o túmulo de Oscar Wilde segurando em uma das mãos uma taça de puro Absyntho.
Este lado que te quer inteiro.
Sem performance.
Sem sucesso.
Sem capa protetora de super-herói.

A Ana artista, cantora, malabarista.
A Ana, antes raivosa, agora cheia de mantras e mandingas.
A Ana que ainda estende a mão para quem morde.

Ser mordida.
Com força.
Ficar roxa por dias e dias.

Voltar a erguer o corpo inteiro em um só braço.
Pernas para o lado.
Respiração e força no períneo.

Este ser indomável.
Que se afunda nos bares da Praça Roosevelt.
Que te dá tudo até tesão.
Que carrega o anel de 75 anos de um pedido.
Que se despe sem vergonha e sem preconceito.

Que resolve passar uma quinta-feira inteira na cama.
Que te dissolve.
Que te resolve.

E que, no fim, volta sozinha de táxi.
Sim, sou eu.
Eu não tenho medo – nunca tive.
Mas já caí no abismo – não foi culpa minha, foi um acidente de carro.
E, talvez, por isto mesmo, eu não tenha medo.
Minha hora não era aquela.
E quando for, será.

Eu quero apenas o abraço sincero.
O eu te amo de quem verdadeiramente abre a alma.
Não quero seu dinheiro.
Seu sucesso.
Seu desprezo.
Sua inveja.

Quero o sapo.
Aquele que, depois do beijo, continua sapo.
E eu te beijo sem parar.

Mas continuo indomável.
E te assusto.

 

Academia

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Ontem voltei a malhar.
Peguei leve: duas aulinhas de mocinha.
Alongamento com as vovós e localizada com aquelas que um dia juram que vão ter bumbum empinado.
Fui na hora do almoço.
Fui de bike.
Já saí pronta, de malha, para não perder muito tempo.
Olhei para o meu corpo no espelho.
Há dois meses, parei de correr e de fazer toda e qualquer atividade física.

O corpo é algo espetacular.
Olhei para minhas colegas – malhadoras de plantão.
E eu lá: a anti-academia em Pessoa Ana.
Eu com minha malha de dez anos atrás.
Body de yoga de algodão com elastano. Pochete de neoprene velha.
Elas todas uniformizadas – o que é legal. Olhei os tênis da moda: coloridos.
Os tons de turquesa.
Os tecidos tecnológicos que vestem bem e secam rápido.

E eu.
Meu pernão de Romário campeão de 1994.
Meu tríceps saltadão de ashtanga.
Minha saboneteira que carrega um sabonete Granado de um lado e flûte à champagne no outro.
Minha barriga – que é uma barriga. Nem inha nem ão. Ela não faz feio.
Pensei nas estrias: minhas listras que amo e que adquiri num estirão de crescimento, muito antes de ser mãe.
Lembrei da colega maldosa em Cuba me perguntando o que eram estas cicatrizes e eu, com um bikini minúsculo, explicando que são fruto da destruição de fibras elásticas e colágenas na pele.
Fruto do crescimento. É o corpo dizendo que quem manda é ele.
E eu tinha um corpo sarado quando a maldosa tentou achar um defeito na piscina olímpica do Fidel.
Eu me diverti – este tipo de jogo feminino nunca me pega na curva.

As minhas estrias são alinhadas e grandes, 4 ao todo – duas de cada lado.
As do meu irmão são iguais.
Olhei minhas ancas largas, ossudas, e minha bunda inexistente.
Tem gente que tem barriga chapada, eu tenho bumbum reto.

E minha força de Bruce Lee.
As colegas levantando 2,5kg, pegando anilha de 5kg para colocar na barra.
E eu testando 2,5; 5, 7, 10kg.
Eu sou forte para caramba.
Sempre fui.

Não vou me esquecer daquele reveillon na pós-adolescência em que o cara pegou 3 vezes no meu braço para conferir o músculo.
Na época eu fazia karatê.
Olhei para ele e fiz: “-Bu!”.
Ele se apaixonou e começou o ano novo segurando nos meus dois braços.
Não largou do meu tríceps nem um segundo.

Olhei para o espelho e gostei do que vi.
Este corpo tem história.
Não é feio.
Não é capa de revista de malhação.
Mas ele é meu e está lá, inteiro, apesar do meu descuido.

Vi meus braços fortes.
Olhei minha canela mais fina do que o normal – mas as coxas grandes.
Dei um sorriso para mim mesma.
Eu sorrio com todos os dentes.
Em volta da minha boca, nas laterais, surgem umas dobras bonitas.

Pensei comigo: como é bom ter 40 anos.

Quando sou Joan e Debbie ao mesmo tempo

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Autorretrato em branco e preto

Digamos que passei uns 6 anos adormecida numa cápsula de Propofol.
Nego, o soninho era bom demais.
Eu era uma dona de casa meio gordinha, que fazia o café nespresso, a torrada integral e o queijo da Canastra.
Bolo de carne, bobó de camarão, muffins recheados e pão de banana com amêndoas.
Mas Michael exagerou na dose e achei melhor dar um tempo no agente anestésico intravenoso de curta ação.

Quando acordei, eu era eu de novo.
Que loucura!

Com os cabelos pintados, mais curtos.
Com a mesma piração randômica na cabeça.
O mesmo peso dos 23 anos.
A fada da dor me deixou assim.
Mas com 17 anos de experiência nas costas.
Eu era praticamente a mulher maravilha de patins.

O toque do meu celular ainda é “I Love Rock ‘n Roll”
E “I’m a natural ma’am
Doin’ all I can”
Você sabe.

Mas você não sabe que Debbie tem Ana no nome, gato.
Eu e ela temos uma história em comum.
“Once I had a love and it was gas
Soon turned out, it was a pain in the ass
Seemed like the real thing, only to find
Mucho mistrust, love’s gone behind”

Em meio a passeatas e muito cartão de visita, eu continuo tocando minha batera.
E tingindo o cabelo de branco, cada vez mais branco.
Com meu batom vermelho.
E minha cara de pau infernal.
Fingindo que eu não sei o problema que eu vou te causar.

Eu ainda falo: “cuidado comigo”.
Ah, mas vocês são mesmo todos iguais.
E eu acordei.
Fazer o que?

Propofol nunca mais.

Manual de sobrevivência

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Jazz, guayabera e um silêncio

Meia vida se encerra em nove folhas de papel.
Quem paga o jornal?
O banho da cachorra?
IPTU, Condomínio?
A vida, o dinheiro, os bens, as coisas?

Quem fica com o espremedor de laranja?
O toca-discos?
A máquina de waffle. A panela.

Dois meses de jogo duro.
De viradas dignas de Nina Simone.
Do ceticismo se fez luz.
Das certezas se fez a solidão.
Das dúvidas se fez de tudo e mais um pouco.
E eu comecei a recitar vários mantras.

Um dia na estrada, um banho de mar.
Discussões, como sempre, sal no carro.
Um impresso.
Rubricas em 8 páginas.

E assim começa a nova vida.
Passando em branco todas as coisas.
Mas deveria conter coisas este papel?

Aqui jaz Parati numa noite de amor vendo os telhados.
A varanda com rede do Jardim Botânico.
Os exus no jardim.
O carro novo amassado em uma escada de qualquer ladeira em Santa Tereza.

Aqui jaz Cuba.
O carnaval de Olinda.
Jamaica de red or white wine, champagne?
Aqui jaz o prédio da Bela Vista com bela vista para Masp.
Aqui jaz o fantasma de dona Bibiana.
Jaz o apartamento da João Lira.
Bibi, Leleco, Mafalda, Marmelo, Bo Ba (de Lina).
A praia do Leblon.
O posto 9.
A banda de Ipanema e as Carmelitas.

Um ou outro forró mal-dançado.
Uma festa de arromba no Humaitá.
Alguns festivais de cinema.
Um carro novo, importado.
Nova York.
Punta Del Leste.
Um reveillon em Itatiaia.

Aqui termina a festa de arromba para 400 pessoas.
Com muito espumante brasileiro e uísque estrangeiro.
Os amigos de todas as partes.
Aqui jaz meu vegetarianismo.
Meus quilos a mais – contados e recontados e perdidos como que para mostrar que a vida pode nascer das cinzas.
E eu estou de novo como eu era quando tinha 23 anos.
E nao me pareço em nada com aquela menina.

Aqui jazz.
Ali samba.
Aqui fidelidade eterna.
Ali confusão que custou caro.

Algumas raves.
Gafieiras.
Mochilões.
E, que engraçado, nunca fomos juntos para a Europa.
Paris, Praga, Amsterdã.
Cada um a seu tempo.
E por sua conta.

Em nove páginas, não existe nem um capítulo de histórias.
Só coisas.
E coisas são mudas.
Inanimadas.

Que o juiz faça uma graça, cite Oscar Wilde.
Ou, ao menos, Vinícius.
Se ele nada fizer, prometo queimar todas as nove páginas ao som de John Coltrane.

Aí, sim, tudo o que jazz.
E segunda-feira eu sairei pela calçada, com cara e alma lavada.
Pronta para qualquer parada.
Ou andada.

Porque eu sou Pessoa.
E amo tudo o que já não é.

 

Sobre ser você mesmo

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

 

O dia mais triste de nossas vidas

Hoje é sexta-feira.

Dia internacional de um monte de coisas.
Entre elas de começar uma vida nova
E de ser você novamente.

Sexta-feira é dia em que os fracos saem por aí se achando fortes.
E dia em que os fortes se recolhem para enfrentar a segunda-feira sem máscara e sem armas.

I’m a real rebel with a cause.
Nina Simone

Bipolaridade

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Uniforme

Há algum tempo foram-se os anéis.

Os últimos dias têm sido de um futuro incrível com sol, academia e novas viagens  – fiquei enferrujada neste quesito. Travada no presente.

Intervalos de “e agora, José?”.

Revisão de arquivos da memória – grande parte deles preenchidos com participações especiais e que não deveriam ser memoráveis.

Sozinha no meu quarto de hotel, penso em como começar – sabendo que já começou, a despeito do meu planejamento tardio.

As questões de grana nunca afetam meus planos. Sejam eles de morar em Paris ou de me acabar em algum restaurante.

E agora o sonho é fácil. Retomar as rédeas do pangaré.

A casa, os gatos, cachorro, a vida.

Eu sempre estive pronta para transformar o esquema.

Isto não me aflige.

Me aflige apenas a divisão, a negociação que, a partir de agora, deverá ser feita. Hoje e sempre.

Ainda sou dona do meu nariz, mas nunca fui do dos outros.

Paciência, Ana.

Isto eu não tenho.

Então sossega, mas como?

Lá na frente eu vejo até mais gente.

Hoje só esta impessoalidade com assinatura Blue Tree.

Viagem sem volta

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Quem sabe?

Estou aqui fazendo a lista.
Ucrânia, fora.
Somália, fora.
Paquistão, Síria, Líbia.
Rússia.
Venezuela.
Argentina.
Nem batendo panela.
O mundo anda mesmo chato.
Nem Brasil não dá mais para ficar.
Peguei bode.
Fiquei de bico.
Não tem carnaval, não tem São João, tem FIFA e milico.
Daí que passei a semana me entupindo de porcaria.
Pizza, chocolate, arroz doce, bolo de iogurte, macarrão, pão; vinho, não.
Tudo o que me entupa..
Tudo o que me faça dormir de barriga para cima.
Assim não penso.
Incho, inflo, viro um balão.
E vou de vez para o espaço.
Dizem que lá não tem som.
Não tem como segurar a respiração.
Porque o mundo, aqui, agora, sufoca.
Por isto, nem vinho nem cachaça.
Já estamos loucos o suficiente.