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Agora é que não são Elas

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Que coisa mais cafona achar que as mulheres agora se mobilizaram.
As mulheres, queridos, sempre estiveram na luta.
“Agora” é marketing masculino para vender revista e papel higiênico.
E, mesmo mobilizadas, e ralando feito malucas, elas continuam neuróticas com a magreza, inseguras com os peitos, desesperadas para agradarem as amigas e para encontrarem um “homem”.
Sempre achei que o paraíso seria nascer de novo na versão 2.0: sapatão.
Tenho repensado: sapatão, não.
O paraíso é nascer do jeitinho que nascemos e surdas.
Surdinhas.
Porque o defeito é ouvir demais a opinião alheia.

Recentemente, não sem dor no coração, fiz uma limpa na minha timeline pessoal.
Tirei gente por quem tinha apreço.
Gente que saiu ferida. E cuspindo marimbondo.

Mas não dá para ter 40 anos e andar na gangue que praticava bullying com 12, né?
Não dá para maltratar todo aquele que não concorda com as suas asneiras…

Ai, 40, venham felizes grudar em mim.
Que delícia ver as veias saltarem na mão.
Ter um bração de Madonna sem bomba – pura natureza.
Perder os peitões – com tristeza – mas olhar os pernões ainda firmes.
Pensar que um botox pode valer a pena antes do fatídico bisturi.
Ralar a semana toda para compensar os biscoitinhos de chocolate do domingo.
Mas não deixar de lado o chopp na casa dos amigos.
A feijuca do sábado.

E saber que 3 kg num fim de semana não vão te deixar mais ou menos feia.
E que, infelizmente, são muita coisa.
E dão trabalho para perder.
Mas você topou o risco.
Agora sua, gata, para tirar os 3 danados de você… rala!

E la nave va.

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Domingo de sol

domingo, 20 de setembro de 2015

Confúcio disse que a vida é simples, a gente é que complica.
Camus cravou que não há que se ter vergonha de preferir a felicidade.
Deleuze explicou que escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga.

Linha de fuga.
Eu sei o que eu quero.
O mais difícil.
O complicado.
A minha criação.

Ao mesmo tempo, o que me faz rir.
O que me leva para o infinito.
O que me revela porque me dá medo.

Mas, sobretudo, o que eu quero é me encostar em você e te curar.
Como pode, num mundo deste tamanho, não se permitir desalinhar os cabelos?
Não sair do roteiro.
Pensar em dinheiro.
Quando ainda falta um caminho inteiro?

Eu puxei o freio de mão com o carro andando.
Resolvi suar a camisa.
Parar com o álcool por uns tempos.
Ficar em casa.
Escrever.

E dizer não para gentes, empresas, coisas.
Este negócio de dizer não é tão novo.
Eu me movo, comovo, eu estremeço.

O que eu quero?
Pode ser o que você quer.
Pode ser uma coisa qualquer.
Pode ser apenas um música.
Um abraço.
Um olá.

Eu quero isto e o intenso.
Denso.
Penso.
Penso demais.
Falo mais do que isto.

Eu quero a descoberta honesta.
A vida, enfim.

Ouverture d’une âme meurtrie

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Je pense toujours que le verbe aimer en français est plus dense.
Je pense trop.
Viens avec moi à jouer dans mon abîme.
Profonde, sans fin, dangereux.
Venez rouler dans l’herbe.
Venez lâcher son âme. Votre pulsation cardiaque.
Permettez-moi de vous emmener.
Vous me faites glisser fermement.
Vous me attirent.
Et je suis impuissant.

Où avez-vous été tout ce temps?
Je ne sais toujours pas où je suis.

———–

Cheiro.
Olho.
Tudo dando certo e errado.
Fico me segurando.
E provoco sempre que posso.
Geladinho na barriga.
Nenhuma, nenhuma briga.
(Ainda?)
Tudo para dar errado.
Idade, filho, medo.
Posse.
Posso?
Cansaço.
História.
Memória.
Dúvida.
Certeza.
Fome.
Sede.
Telefone.
Ai, tecnologia, que saco.
Se fosse anos atrás iria ser mais ao vivo e menos na tela de cristal.
Seu número?
Tem certeza…
Eu sei que vai ser dureza.
Moleza.
Pela primeira vez na história, domada.
Saudade.

É muita coisa boa ao mesmo tempo.
Fico guardando os minutos na bolsa para durar mais.

Je ne sais toujours

Je ne sais toujours

There she goes again

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Quando eu cheguei, estava escrito que eu não iria me conformar.
Eu andava por aí com um caminhãozinho que tem nariz de palhaço.
No acampamento da escola, fui eleita Miss sei lá o quê.
Desfilei de fio dental e com flores de bougainville no cabelo.
No meio da “passarela”, saí correndo e me atirei de faixa e tudo na piscina.
A turma toda me acompanhou e ferramos com o evento.
Miss Take – here I am.

Larguei a natação e do alto de 1,62m (ou 1,64m dependendo da corcunda), resolvi jogar vôlei e basquete.
Adivinha quem fazia mais pontos no time?
Pulei a janela da escola em Curitiba. A mesma escola onde estudou o Leminski.
O diretor foi convencido a não contar para a minha mãe que eu havia me abrigado no internato masculino.
Haja lábia e cabeça aberta do Irmão Lino.

E veio o vestibular em Belo Horizonte.
Comunicação, “claro”.
Passei na melhor faculdade.
Tudo escrito.
E resolvi só usar roupa preta.
Comprei uma bateria com a grana da bolsa do CNPq.
Fui gentilmente convidada a não completar o período da bolsa.
Imagina que eu levava a minha baqueta para a biblioteca e tirava som de tudo – das mesas, livros, estantes, gaveteiros, ficheiros.
Tudo menos ralar para receber a grana da bolsa.
Eu fui representante da turma, presidente do CEC (D.A. para os íntimos).
E comprei uma briga do caramba: cortei a palhaçada de comprar maconha com o dinheiro público dado para a manutenção de nossa sala.
Não fui popular.
Foda-se.

Escrevi o discurso de formatura (que foi votado democraticamente – pois eu não seria a pessoa escolhida se fosse pelo rostinho bonito – e eu li vestida de Emília do Sítio do Pica-Pau).
Completamente fora de esquadro, iconoclasta, engraçada, mandona, mal-criada, amiga, perdida, avant garde.
Eu simplesmente não me encaixava – encaixo.
Então eu não grilo com a falta de peças, com o encaixe de cubo mágico – você precisa tentar mais de uma vez para acertar a seqüência.
Comigo, pelo menos.

Aí veio o mundo.
Escrevi na Veja.
Trabalhei na Globo.
Pesquisei livro do Jabor.
Conheci muita gente “famosa”.
E a música foi ficando para trás.
Larguei minha câmera fotográfica.
Dei o pé no fotógrafo, no designer.
O cabelo ruivo voltou ao natural.
Troquei as calças Vision por tailleurs.
Cuba por Paris.
Buenos Aires por Nova York.
Comprei casa, carro, fiz filho, descolei cachorro.
E virei gente grande.
Fiquei modesta, adorei um cartão de visitas, aprendi a me enfeiar para ser mais respeitada.
“She’s down on her knees, my friend”

Aí fiz 40.
E dizem que vem uma crise junto com esta idade.
Crise boa do caramba.
O passado veio voltando e cobrando a conta.
O presente foi se transformando.
Comecei a me redescobrir.
Rueira.
Sem vergonha.
Magra? Forte feito o Hulk.
Bonita sem pudor nenhum – não, não sou Giselão, mas sei te enfeitiçar feito nenhuma outra.
Yogini.
Destemida.
Descobri que creio em tudo, não sou atéia.
Descobri a fé.
Descobri que amo ajudar.
Não é dinheiro que me move.
Foda-se.

Descobri que sou um traveco mesmo.
Nasci torta, um hominho de saias.
E uma menininha escondida – às vezes.
Conheci uma penca de gente linda.
Falei tudo o que que me veio à cabeça.
E não parei mais.

Falo, abraço, beijo, ajudo, ajudo, ajudo.
Não durmo.
Não ligo.
Eu escrevo.
E eu descobri que ser feliz é isto.
Vim ao mundo para tomar todas as porradas e transformar.

Sou feliz de fato.

She’s gonna bawl and shout
She’s gonna work it
She’s gonna work it out, bye bye

Velvet Underground

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Sobre ser você mesmo

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

 

O dia mais triste de nossas vidas

Hoje é sexta-feira.

Dia internacional de um monte de coisas.
Entre elas de começar uma vida nova
E de ser você novamente.

Sexta-feira é dia em que os fracos saem por aí se achando fortes.
E dia em que os fortes se recolhem para enfrentar a segunda-feira sem máscara e sem armas.

I’m a real rebel with a cause.
Nina Simone

O Brasil pelos brasileiros gaiatos. E a França… deixa para lá.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Aqui são umas das minhas observações, as vezes um pouco exageradas, sobre os franceses e outros estrangeiros no Brasil.
Nada sério.
E um adendo: todo o meu amor e respeito aos gays do mundo.

1 – Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas ja bastam para constituir uma fila.
Na França a fila também não falha: é a juventude desesperada para tomar café gelado no Starbucks (americano sempre fatura com francês) ou então fila de gente no último trem do metrô. Porque taxi, fio, ninguém está podendo. Já vi até fila de rato na entrada do metrô Sèvres-Babylone, aquele que sai na porta do Le Bon Marché.

2 – Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”.
Lá na França começa sempre depois dos protestos dos jovens que não querem trabalhar mais do que 4 horas por semana. Imagina o absurdo.

3 – Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No MacDonalds, hamburger se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.
Lá na França, confirmando a lenda, o povo acha uma loucura lavar qualquer coisa. Prato, bumbum, pé. Experimente dar uma volta pelo Bassin de la Villete numa noite quente e você verá a maior concentração por metro quadrado de sandálias finérrimas tipo Roger Vivier em pés absolutamente imundos. É uma coisa tão impressionante que, só de lembrar, perco o sono e corro para um dos meus 5 banheiros para lavar os minhas patinhas de tupi-guarany.

4 – Aqui no Brasil todo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: e gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo e gay : também é gay.
Na França, todo mundo é gay mesmo. Gay de pé sujo.
Fazer o que? O mundo é dos gays e adoro todos eles.

5- Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem concertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…
Eu também, talvez tenha sido criada em Marte.
Aí a francesada chega no Brasil, contrata uma babá e empregada e esquece rapidinho tudo o que aprendeu.

6 – Aqui no Brasil, sinais exterior de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.
Ué, minha gente, lá é até mais fácil de achar a riqueza. Pegue o mapa dos bairros e siga a renda média anual das famílias abastadas.
75007 – 380.959 euros
75006 – 341.639 euros
75008 – 307.710 euros
75004 – 280.526 euros
Em primeiro lugar no 7ème arrondissement, o bairro da Torre Eiffel. Morar em apartamentos situados ao longo dos jardins da Torre Eiffel, ao longo da Esplanada des Invalides, ou nas belas avenidas no interior deste bairro é um privilégio. Ele é considerado como o bairro mais elitista da capital.
Em seguida vem o 6ème, cortado pelo boulevard Saint Germain, região onde se encontra o Jardin du Luxembourg, o boulevard Raspail e o Hotel des Monnaies.
O 8ème arrondissement é a região da Avenue Champs Elysées, do Parc Monceau, da avenue Montaigne e da Place de la Madeleine.
Para ser bandido em Paris nem precisa conhecer o mapa da cidade. É só seguir a pé pelo caracol parisiense.
Mas, é claro, pobre de lá anda de metrô, mas não esquece sua bolsinha Céline made in China.

7 – Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.
Em Paris, nego entra num copo sujo e pede um “Cosmo”. Bicha fina é outra coisa. Opa: gay fina francesa.

8 – Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camiseta qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay.
Na França, a juventude dourada faz fila nas Galeries Lafayette para comprar Havaianas.
Vai entender o conceito de vestir bem.

9 – Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja pro garção, o garção traz a cerveja de qualquer jeito.
Na França você pede e o garçon não traz. Você gasta horrores o o garçon continua fazendo carão.
Penso que deve ser bacana entrar num bar e já ser servido logo de cara. Ah, os trópicos!

10 – Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.
Lá na França todo mundo torce o nariz. Pas Mal é o que mais se ouve. No lugar de: bacana, genial, fantástico – pas mal.

11 – Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.
Em Paris, vejam só: programa de TV de sucesso tem bingo e jogatina no ar.
Cada qual com seu cada qual – gay ou não.

12 – Aqui no Brasil, a vida vai devagar. E normal estar preso no transito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair ate antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa da caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de credito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”.
Quanto a isto, tenho minhas dúvidas. Penso que na França é igualzinho e um pouco mais mal educado. Nunca se viu num país tantos caixas relaxados e confusos. Nas tenebrosas liquidações de verão – soldes d’ete – as fia do caixa ficam loucas. Fora que têm que trabalhar mais de 4 horas por semana. Aí já sentiu o humor francês das bichas. Oooops – dos gays e atendentes em geral.

13 – Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.
Bom, aqui no Brasil a gente têm um curso muito bom de história geral – e em qualquer escola pública de fundo de quintal. E rapidamente descobrimos que, no Brasil, está situada a maior colônia japonesa do mundo.
Talvez por isto, os chineses de lá – maltratados feito o cão e morando longe, nos banlieues, junto com os africanos, turcos e muçulmanos que são franceses de pai e mãe, mas continuam sendo chamados de estrangeiros – talvez por isto a gente não confunda chinês com japonês. E viado, bicha, gay e outros tipos comuns e bem aceitos em nossa fauna tropical.

14 – Aqui no Brasil, a música faz parte da vida. Qualquer lugar tem musica ao vivo. Muitos brasileiros sabem tocar violão embora “que” (sic) não consideram que toquem se perguntar pra eles. Tem músicos talentosos, mas não tantos tocam as musicas deles. Bares estão cheios de bandas de cover.
Sorte a nossa que, no Brasil, não tem ninguém fazendo cover de Non, je ne regrette rien da Edith Piaf, ou Douce France do Charles Trenet nos ônibus ou estações de metrô. No primeiro acorde de Le moribond do Jacques Brel iria ter gay e neguinho rindo alto…

15 – Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia pra outro quase sem aviso. Tem uma diferencia enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario minimo é bastante comum, e ganhar o salario minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões politicas. E de outro lado, existe um sistema de saúde publico, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.
Lá na França a coisa é bem mais simples: tem a Liliane Bettencourt e os políticos que ela compra para ter isenção fiscal. O Gérard Depardieu, que deixou seu país natal para escapar do aumento de impostos para os ricos, tem todo o nosso apoio – sendo ele gay ou não. Viado também.

16 – Aqui no Brasil, é comum de conhecer alguem, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.
Em Paris, se alguém falar com você, pode saber que não é francês.

17 – Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.
Lá na França quem aparece mesmo é o Karl Lagerfeld que é alemão. O resto tenta.

18 – Aqui no Brasil, o clima é muito bom. Tem bastante sol, não esta frio, todas as condicões estão reunidas para poder curtir atividades fora. Porem, os domingos, se quiser encontrar uma alma viva no meio da tarde, tem que ir pro shopping. As ruas estão as moscas, mas os shopping estão lotados. Shopping é a coisa mais sem graça do Brasil.
Lá em Paris, o povo também enlouquece no shopping. Adora um tricó no Le Bon Marché, ou nas Galleries Lafayette.
Agora, calor humano mesmo é no metrô em julho. O povo francês adora um bodum coladinho no cavaco.

19 – Aqui no Brasil, novela é mais importante do que cinema. Mas o cinema nacional é bom.
Em Paris, cinema americano arrasa. Filme francês, como eles dizem, é coisa de viado.

20 – Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o pais tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?
Em Paris não tem garagem. Ficam aqueles carros parados, todos batidos e amassados enfeiando o Quartier Latin. Não dava para fazer um estacionamento no Jardin du Luxembourg e jogar um tapete do século XV por cima?

21 – Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Ate comida é muita comida.
Na França come-se pouco porque toda refeição é para levantar bandeira. O povo não tem pena nem do ganso. O coitado vive doente e entalado para garantir o foie gras da população.

22 – Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.
Você veja bem que gosto é algo que não se discute. Fazer fila no Starbucks é para os ousados.

23 – Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porem, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.
Engraçado é ver que Saint Tropez, Marseille estão sempre lotadas – deve ser a brasileirada que enricou e adora fazer farofa na praia com seus amigos gays.
Agora, meu amigo gay ou não, praia na beira do Sena, é que é churrasco na laje. O resto é brincadeira de pagodeiro.

24 – Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.
Tem que fazer doutorado em Antropologia para explicar esta frase. Como parei no mestrado, não ouso questionar tanta sabedoria estrangeira.

25 – Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter transito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num pais onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!
Você é gay ou francês?! Ou todas as anteriores?

26 – Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.
Na França esporte é fazer xixi na piscina pública.

27 – Aqui no Brasil, existe (sic) três padrões de tomadas. Vai entender porque…
Um provérbio francês diz que há um tipo diferente de queijo francês para cada um dos dias do ano, e Charles de Gaulle uma vez perguntou: “como você pode governar um país no qual existem 246 tipos de queijo?” Vai entender…

28 – Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.
A festa de debutantes, uma tradição que parece tão ultrapassada, ainda faz muitas meninas sonharem na França. As garotas bem nascidas, entre 16 e 20 anos, participam do tradicional baile de debutantes do Hotel Crillon, em Paris.
Festa de criança no Brasil perde para tanta bobagem.

29 – Aqui no Brasil, não tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comer uma mistura de todo.
E desde quando o conceito de entrada, prato principal, queijo e sobremesa é um conceito?
Oiê?

30 – Aqui no Brasil, o Deus esta muito presente… pelo menos na linguagem: ‘vai com o Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘Deus me livre’, ‘ai meu Deus’, ‘graças a Deus’, ‘pelo amor de Deus’. Ainda bem que ele é Brasileiro.
Je suis désolée, les affaires sont les affaires. E um francês sabe bem o que isto significa.

31 – Aqui no Brasil, cada vez que ouço a palavra ‘Blitz’, tenho a impressão que a Alemanha vai invadir de novo. Reminiscência da consciência coletiva francesa…
Fique tranquilo, a Alemanha, com sua economia em velocidade de cruzeiro, não iria jamais invadir um endividado e na rabeira. Dá azar… No máximo, os alemães podem comprar umas vinícolas e trocar La Grande Dame por  “Glückliche kaiser”!

32 – Aqui no Brasil, pais com muita ascendência italiana, tem uma lei que se chama ‘lei do silencio’. Que mau gosto! Parece que esqueceram que la na Itália, a lei do silencio (também chamada de “omerta”) se refere a uma pratica da mafia que se vinga das pessoas que denunciam suas atividades criminais.
Fica um ditado francês: Plus le singe monte haut, plus on voit son derrière. (Lit. Quanto mais o macaco sobe, mais enxergamos sua bunda.)

33 – Aqui no Brasil, se acha tudo (sic) tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.
Frontin, Garret, Haydée, Aimée, Arkell. Oiê?

34 – Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.
Na França, você paga caro logo de cara. Vai entender a lógica…

35 – Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.
36 – Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.
Sem noção, sem comentários.

37 – Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.
Você deve ser francês ou americano para ficar tanto tempo na frente da TV. Tanta coisa para fazer lá fora…

38 – Aqui no Brasil, tem um jeito estranho de falar coisas muito comuns. Por exemplo, quando encontrar uma pessoa, pode falar “bom dia”, mas também se fala “e ai?”. E ai o que? Parece uma frase abortada. Uma resposta correta e comum a “obrigado” e “imagina”. Imagina o que? Talvez eu quem falte de imaginação.
A expressão mor francesa e nenhum comentário:
“Pas Mal.”
E, claro, salve simpatia.

39 – Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.
Oiê? Queria que todo mundo gostasse de cassoulé e ratatouille?

40 – Aqui no Brasil, quando você tem algo pra falar, é bom avisar que vai falar antes de falar. Assim, se ouvi muito: “vou te falar uma coisa”, “deixa te falar uma coisa”, “é o seguinte”, e até o meu preferido: “olha só pra você ver”. Obrigado por me avisar, já tinha esquecido para que tinha olhos.
Sem comentários. A educação não me permite nem fazer graça com isto.

41 – Aqui no Brasil, as lojas, o negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da América latina’. Não costa nada e ninguém vai ir conferir.
Queria que o povo desse um tiro na cabeça por que perdeu uma estrela do Guia Michelin? A gente tem chopp para beber…

42 – Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil as vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.
Será que é porque falamos português e eles espanhol?
Ou será que é porque temos geografia e história em todas as escolas – mesmo as piores do Enem?

43 – Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.
Já leu Jorge Amado ou quer que a gente desenhe? Pede ajuda ao Caribé…

44 – Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.
Na Franças, comida é boa e a gente gosta. Aqui, especialmente em Minas, também.

45 – Aqui no Brasil, o povo é muito receptivo. E natural acolher alguem novo no seu grupo de amigos. Isso faz a maior diferencia do mundo. Obrigado brasileiros.
E o Francês ainda cospe no prato…

46 – Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.
Neste dia vocês estará na fila do Starbucks num calor de 40oC. E usando óculos escuros chineses.

47 – Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido mas não deixa de ser esquisito.
Releia seu próprio texto que você vai entender melhor de sotaque esquisito. Você bateu a cabeça no bidê quando era pequeno?

48 – Aqui no Brasil, tem um organismo chamado o DETRAN. Nem quero falar disso não, não saberia por onde começar…
Mal chegou e já foi comprar um carro. Louco para largar o metrô e le vélo!

49 – Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.
E os franceses fazem o quê? Jogam o lixo no chão do veículo? Oh! Ah! Que horror!

50 – Aqui no Brasil, os brasileiros se escovam os dentes no escritório depois do almoço.
Na França não?
Désolée. E compra um chiclé, pelo menos.

51 – Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.
Na França não se limpa, e disto sou prova. Nem com gel nem com líquido.

52 – Aqui no Brasil, a versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar codigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos pra pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre tem que errar um pelo menos. Demora. Aqui no Brasil, o sistema sempre ta “fora do ar”. Qualquer sistema, principalmente os terminais de pagamento de cartão de credito.
O TI é francês – é por isto.

53- Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar), o conferir que sua firma é sua firma.
Casar na prefeitura do bairro é que é ser fino.
Experimenta ir aos correios na França…

54 – Aqui no Brasil, parece que a profissão onde as pessoas são mais felizes é coletor de lixo. Eles estão sempre empolgados, correndo atrás do caminhão como se fosse um trilho do carnaval. Eles também são atletas. Tens a energia de correr, jogar as sacolas, gritar, e ainda falar com as mulheres passando na rua.
55 – Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.
Que observações de gênio. Realmente, não vale o comentário. Chama o Pierre Verger!

56 – Aqui no Brasil, nao tem agua quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a agua. Só tem um porem. Ou tem agua quente ou tem um débito bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.
Lá vem desculpa para não tomar banho…

57 – Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.
Três meses após a entrada em vigor da lei que autorizou o casamento homossexual na França, um primeiro balanço indicou que quase 600 casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram celebrados nas 50 maiores cidades do país. O número corresponde a apenas 1% das cerimônias no período.O jornal Le Monde acha que os homossexuais franceses estão esperando passar a polêmica criada pelas grandes manifestações contra o casamento gay para poder realizar as cerimônias com simplicidade e discrição.
Protesto por casamento gay? Tsc tsc tsc.

58 – Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. La na franca nem existe mandioca.
Désolée.

59 – Aqui no Brasil, tem o numero de telefone tem um DDD e também um numero de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.
Ah! Oh! Que confusão!

60 – Aqui no Brasil, quando encontrar com uma pessoa, se fala: “Beleza?” e a resposta pode ser “Jóia”. Traduzindo numa outra língua, parece que faz pouco sentido, ou parece um dialogo entre o Dalai-Lama e um discípulo dele. Por exemplo em inglês: “The beauty? – The joy”. Como se fosse um duelo filosófico de conceitos abstratos.
Aqui no Brasil, a torneira sempre pinga. Aqui no Brasil, no taxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima pra cima ou pra baixo. Aqui no Brasil, marcar um encontro as 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.
Gente, o fofo veio trabalhar e até agora não se situou? Ele morava onde na França? Em Rennes? Manda o moço para o escritório do Google em Barão de Cocais.

61 – Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro.
Frito ficou o francês que falou bobagem.
Frito e queimado.

 

(Este texto é uma resposta às bobagens que li em: sou francês e não fiz o dever de casa.)

R$200,00

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Então hoje, em meio ao caos, percebi.
Além da sua partida, o que mais me fere.
Me corta todo dia e o dia todo.
É ver seus pêlos, seus cabelos
espalhados pela casa.
É ouvir seus passos ausentes.
Seu chiado.
Seu coração acelerado.

O fantasma da sua presença
ainda me assombra.

Gritos e sussurros na multidão

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dos meus (ainda) curtos 18 anos de carreira, 15 foram como jornalista, 11 dentro de uma redação.
Quando escolhi a profissão, tinha 17 anos e experiência zero de vida.

Meu primeiro dia numa redação foi uma tortura: escrever um texto curto enquanto pessoas falavam a minha volta, telefones tocavam, televisão ligada.
Sim, eu achei que iria derrotar o sistema estando dentro dele.
E peguei a onça pelo rabo.

Fui repórter da Veja, fui repórter da TV Globo.
Cresci e virei editora.
Não, nas empresas em que trabalhei, nunca recebi pedidos ou ordens para favorecer uma empresa em detrimento de outra.
Nunca me pediram para esconder os fatos.
Mas, com 17, 20 anos, é difícil entender as entrelinhas.

Em minha primeira e última entrevista com uma personalidade para as Páginas Amarelas, fui parabenizada pelos chefes: a edição ficou tão “boa” que eu chamava Demi Moore de imbecil sem talento, que eu tirava onda com o cérebro diminuto do Stallone entre outras sacanagens com as estrelas de Hollywood.
Choveram cartas – sim, naquela época as pessoas indignadas compravam papel, caneta, selos e despejavam seu ódio em uma carta – me chamando de idiota para baixo.
Uma, que me doeu com força, questionava se eu era formada e, se era, qual universidade eu pagara para obter um diploma.
Formada: colocada dentro da forma.

Veio uma outra matéria sobre o novo Código Civil e eu, depois de ralar duas semanas em cima do tema, decidi, ao ler a versão final, que não iria assinar a matéria.
A resposta veio a galope: ou assina ou rua.
Assinei.

Pouco tempo depois, bati à porta da Globo.
Foram quase dez anos dentro desta casa que me recebeu sem nem me conhecer direito.
Na Globo, jornalista é profissional que recebe um bom plano de saúde, que tem um computador bacana, que tem verba para fazer uma produção de qualidade.
A hierarquia é respeitada e os profissionais trabalham duro.
Falem o que queiram, como empresa e como patroa, a Globo foi o meu melhor empregador.

Fiz matérias com câmera escondida e tomei muito café com meu saudoso amigo Tim Lopes.
Subi morro, vi cabeça rolar – cabeça mesmo.

Um dia, fazendo a cobertura das eleições presidenciais para o JN em São Paulo, eu tive uma revelação.
Meu trabalho era pegar as imagens da agenda do dia de um candidato e montar uma matéria.
Checava a agenda do outro candidato e montava outra matéria que, obrigatoriamente, deveria ter o mesmo tempo de duração da do outro candidato.
Explico: 50 segundos de texto descrevendo o dia do candidato e 10 segundos de “sonora” / entrevista com o mesmo.
Se um candidato não fazia nada num dia e o outro se encontrava com o Elvis Presley… A-ha!
As duas matérias viravam uma nota – um texto na boca do apresentador, sem imagens.
Mas, veja bem: um encontrou o Elvis Presley que, claro, não morreu.
E o outro ficou em casa.
Para manter a “imparcialidade”, para não favorecer ninguém e nem correr o risco de ser acusado disto, o “certo” era dar a tal nota seca, sem imagens.

“O candidato carequinha passou o dia em casa, reunido com sua equipe de campanha.
O candidato barbudinho esteve com Elvis Presley e, juntos, dançaram um iê-iê-iê.
Amanhã, ambos devem participar de uma carreata na periferia da cidade.”
Ponto final, boa noite.

Confesso: demorou muito a cair a ficha.
Afinal, ganhar direitinho, conhecer todos os famosos do plim-plim e ter ótimos companheiros de trabalho desequilibram a balança.
Mas a gente não veio a passeio e peguei meu banquinho.
Fui enlouquecer com a internet, tomar na cabeça com a construção civil, fui aprender que um blog é público e que você deve ter todo cuidado com o que escreve. Hoje, vivo no mundo louco das artes.
Não sei se me encontrei, porque sou assim de virada, mas fui procurar meu espaço, meu lugar – aquele que não existe.
Fui gritar para quatro ou cinco malucos que querem me escutar.

Pois este texto é para vocês, meus cinco leitores.
Amigos, hoje, acordei com ressaca de passeata.
Hoje li que uns vândalos (provavelmente pagos) atacaram a prefeitura.
Incendiaram um carro de reportagem.
Roubaram Banco.
Apedrejaram lanchonete.

Meus ex-colegas, muito queridos e estimados, não entendem por que alguns membros da turba ensandecida que tomou São Paulo, por que parte da turba se virou contra a imprensa.
Estes colegas bradam, indignados, contra a violência que jornalistas estão sofrendo.
Uns lembram que só foram “calados” na época da ditadura.

Meus amigos, é com respeito que escrevo porque comi muito e me lambuzei neste prato.
Eu sei por que a turba grita e bate.
Eu sei.
Você, mesmo revoltado, deveria suspeitar.
Ou então, realmente, você não entendeu nada.
E o resultado está publicado.

Letras, apenas letras

Peggy oh!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

óculos de autor para ela

A história quis que Peggy ganhasse um sobrenome e tanto: Guggenheim.
E mais: que ela ficasse milionária ainda adolescente.
É que o pai de Peggy – junto com vários bacanas – afundou no mar junto com o Titanic.
Imagine se fosse hoje: Silvio Santos, Eike, Jorge Paulo Lemann, Carlos Slim, Bill Gates e outros sobem num barco e viram isca de peixe.
Penso o que Thor, He-man ou diabo que o valha…
Se ele já não sabe o que fazer com uma Mercedes-Benz SLR McLaren, o que faria com o império de vapor do pai? Mistério para outras gerações.
Voltando ao caso, rica, jovem e com um senhor nariz de batata que foi ainda mais estragado por uma plástica que deu errado… Peggy foi à luta.
Ela viveu uma vida de sexo, privilégios e dinheiro -, mas – dizem – tudo o que ela queria era credibilidade dentro do mundo da arte dominada por homens.
Irônica, esperta e danada, Peggy dava festas de arromba e sempre servia, entre outros quitutes, whiskey e batata-frita.
American rich crazy girrrrrrrrl.
Aos 21 anos, depois de viver no aperto – mas não necessariamente na pior – , ela finalmente herdou 450 mil dólares do espólio de seu pai. Isso, mais a herança 500,000 dólares que ela recebeu com a morte de sua mãe, em 1937, permitiu-lhe reunir uma extraordinária coleção antes que Paris caisse para os alemães.
Klees, Gris, Léger, Kandinsky, Braque, assim como pinturas de Miró, Picasso, De Chirico e Magritte.
Peggy teve tudo.
E, sinceramente, não há do que reclamar…

Armando

sábado, 13 de abril de 2013

Em seus braços eu parecia uma dramática do Tango.
Em toda e qualquer gafieira.

Fui para dar um bote no filho, colega de faculdade, pedindo uma fita cassete dos Mutantes.
E ele roubou meu coração.
Veio com Lígia, uma carioca incrível, fora de qualquer padrão mineiro de montanha que consome.
Lígia carioca, mãe aos 40, prima do Ezequiel Neves – o cara que descobriu Cazuza.
Quantas vezes fiz um DDI só para ouvir a mensagem louca e escrachada do Ezequiel na secretária eletrônica…

As melhores festas.
Os melhores pós-Natal.
Tudo o que era ilicitamente de família.
Os namorados.
As fotos.
Os papos-cabeça de quem tem vinte.
As bebedeiras intermináveis.
Em casa de Armando nunca faltou bom uísque e um tiragosto para deixar qualquer boteco com inveja.

Armandinho nunca foi um namorado.
Um comparsa no crime.
Uisques enxugados.
Vodkas sem fim.
Armandão dando força para toda e qualquer maluquice.

Passaram-se 20 anos.
Vieram filhos, novos namorados, casamentos, separações.
Armando sempre com uma cabeleira bonita.
Um sorriso enorme.
Um novo boteco.
Causos.

Armando que foi a minha formatura, com quem dancei a noite toda.
Armando em meu casamento.
Em minha festa de despedida.
Armando em batizado.
Armando em separação.
Armando e meu Imposto de Renda.

Armando.
Só agora que me dói fundo a falta é que me dei conta.
Eu não sei dançar.

1996