Arquivo da Categoria ‘Pessoas’

Para Lelê

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sobre a falta que você me faz.
Nunca fomos amigas.
Nem trocamos confidências.

Certo: uma vez fomos juntas ao salão.
Levei a vira-lata junto.
Eu fiquei com pés e mãos brancos e vermelhos – como a rainha de Copas.
A cachorra levou um pisão de salto 15.

Viajamos para a praia.
Eu te produzindo com uma havaiana meio índia, meio sertaneja… Linda.
Com cabelos lisos e marrons escorridos.
Grande e forte e decidida.

Falava tudo e sem economia.
Coração de urso panda.
Sempre ali, ao lado dos velhos.
Eu ficava tranquila por eles porque você estava lá.

Não sei por que, mas ando sentindo um aperto no peito.
Saudades finas de você.

Olhos

terça-feira, 3 de abril de 2012

Nan Goldin vê a luz

Da pseudocelebridade que expõe a filha disforme em revistas de fofoca e diz que “é tudo normal”.

(nor.mal)
2. Que é segundo a norma ou padrão

Das gentes que fecham os olhos, viram a cara, reclamam quando vêem um peito de fora para amamentar, quando ouvem um escândalo de criança.

(es.cân.da.lo)
1. Fato, situação ou acontecimento que causa perplexidade, indignação e censura públicas por serem contrários às convenções morais, éticas, sociais, religiosas etc.:

Das coisas que viram notícia e que todos passaram ou passarão. Uma compra que você não fez e que vai ser debitada em seu cartão. Um novo objeto que chega estragado e não querem devolver o que você pagou por ele.
Do que dizem pelas costas.
Do que dizem pela frente.

(hi. pó.cri.ta)
1. Que simula ter uma qualidade ou sentimento que não tem, ou finge ser verdadeira alguma coisa (sabendo que não o é); FINGIDO; FALSO

De tudo o que as fotos de Nan Goldin não falam, não mostram, tudo o que não as interessa.
De tudo o que vivo e que ela tão bem poderia flagrar.

Da nudez, da falta de medo, da beleza descarada e imperfeita, da inteligência, da coragem de sempre errar com fé.

(es.can.ca.rar)
1. Abrir totalmente

http://apps.facebook.com/theguardian/artanddesign/2011/jul/24/photograph-nan-goldin-best-shots?fb_source=other_multiline&fb_action_types=news.reads

Povo da madrugada

sábado, 31 de março de 2012

Vôo cego


Sim.
Cá estamos.
Aqui, frio.
Aí, não sei.
Aqui, testes com a sua ingenuidade.
Aí, busca do impossível.
Sim, madrugamos.
Eu, você, e, quem sabe, alguns bilhões.
Giramundo e todos nadando em cabos de fibra ótica.
Para você me ver aí, vou e volto por três américas.
Na areia do oceano.
Quase sem atraso.
Sem sair daqui.
Sim.
Estamos separados por um fio de cabelo.
Nossas idéias não batem.
Mas tudo bem.

Isto é só um teste.
Um.
Dois.
Três.

Testando.

Aquecimento

quinta-feira, 15 de março de 2012

ratatá

Sair por aí com pressa e a cabeça voando.
Recitando baixinho os velhos versos.
Sem a menor perspectiva e com mil coisas imaginadas.
Acreditando que tudo vai dar certo.

Disse meu guru de banca de jornal que as coisas não vão mudar sozinhas, pois, apesar de eu receber uma boa onda do destino, também vou ter de tomar iniciativas.
Não diga, amado mestre.
Eu quero é substância.
Porque partir para cima sempre foi a minha.

O fato é que ando contando com o incerto.
Tudo bem.

Uma viagem sem rumo.
Uma pessoa.
Um esbarrão.

Hoje olhei no espelho e me (re)conheci.
Por isso estou assim, meio besta.

Gostei do que vi.

Casa nova

quarta-feira, 14 de março de 2012

Carlos

A Companhia das Letras promove hoje o lançamento de quatro novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).
“A Rosa do Povo”, “Claro Enigma”, “Contos de Aprendiz” e “Fala, Amendoeira” são os primeiros dos mais de 40 livros que a nova editora do poeta pretende publicar nos próximos quatro anos.
O evento “Drummond e o Mundo” terá direção e apresentação do compositor e crítico José Miguel Wisnik.
Drummond também será o homenageado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Curiosamente o assunto não foi manchete hoje.
Manchete é bandido que explode caixa eletrônico, é assassino em jet ski, é senador que “rompe” com presidenta.
Brasil, sil, sil, sil, sil.

Drummond de capa nova, sem cheirinho de naftalina – como todos os do meu acervo?
Vamos ao primeiro livro, com 55 poemas, escrito na década de 1940.
Uma rosa nasce para o povo, será a poesia para o coletivo?
O poeta escrevia sob a luz dos duros acontecimentos da 2a Grande Guerra.
Nas páginas, escancaradas “sua indignação e tristeza melancólica com o mundo, com a violência e com a necessidade de se ter uma ideologia…” (por Márcia Lígia Guidin)

No primeiro (e, talvez, mais famoso) poema do livro, “Consideração do poema”, o poeta declara:

“Não rimarei a palavra sono
Com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
Ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
Elas saltam, se beijam, se dissolvem,
No céu livre por vezes um desenho,
São puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Uma pedra no meio do caminho
Ou apenas um rastro, não importa.
(…)”

O fato é que, diferentemente do humor de outros livros, nestes poemas CDA tem um tom solene, grave e triste. Vejamos um trecho de outro famoso poema, “Procura da poesia”:

“Não faça versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. (…)”

E como o poeta se via no cotidiano da cidade, em outro famoso poema, “A flor e a náusea”:

“Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me? (…)”
(Leia a reportagem completa em http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u120.jhtm)

Ah, mundo vasto mundo, no dia em que o poeta ganha nova edição, para mim nada é mais importante.
Celebrar Drummond, a poesia, a arte até quando política.

Numa quarta com cara morna de segunda atôa, deixei meus afazeres de lado, misturei Wilde com o poeta mineiro de minha preferência e esqueci de contas, de emprego, de pés no chão.
Voei, voei.
E ainda estou no alto.
Feito balão de gás.
Uma hora esvazio e ninguém vai saber onde fui parar.

Brutalista

quarta-feira, 7 de março de 2012

Quand le monde sera réduit en un seul bois noir pour nos quatre yeux étonnés, – en une plage pour deux enfants fidèles, – en une maison musicale pour notre claire sympathie, – je vous trouverai.

Arthur Rimbaud

É inevitável passar noites em claro em fases como esta.

E ficar menos produtiva pois a cabeça voa…
E o que seria de mentes interessantes se não tivessem um curto circuito vez ou outra?

Hoje madruguei e acordei com Paulo Mendes da Rocha.
Brutalista na alma.
Querendo mergulhar numa piscina negra modernista e sair mais Ana Pessoa.

Vamos mudar tudo?
Marretar paredes, excluir portas, abrir janelas?
Sair com terno de linho para tomar uma branquinha antes do meio dia?

Atolar-nos em dívidas ricas.
Vamos virar tudo do avesso só para ver o que acontece?

Intenso nas profundezas.
Duro como concreto.
Sem medo.
Sem nada.

Será que o blog vai mudar de nome?
Afinal, queridos, eu tenho quase 37.
Quem sabe: “Passei dos 30 a 200km/h?”

Enquanto isso, na Sala de Justiça…

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Achei as chaves!

A Coréia do Norte topa negociar e nem todo mundo da imprensa deu bola.
O jornalista inglês que saiu são e salvo do Irã? Opa, 13 pessoas morreram para tirá-lo da zona de guerra civil.
Mas o gringo foi salvo.
E esta é a manchete.

Mundo virado.
Quando ouço mães comentando que o filho nasceu antes da hora, que não tiveram leite…
Sei lá.

O mundo anda mesmo chato, previsível.
Poesia, gritos, quadros tortos na parede.
Por favor, uma Rebecca Horn, um Hélio Oiticica.
Te fazer sair de esquadro nem que seja só um pouquinho.
Marina Abramovic.

Hoje me vesti de onça e fui tomar sorvete de chá verde.
Procurei locais com ar condicionado.
Fiz escalda pés.
Pensei num grande jardim que poderá virar jaboticaba.

Andei arrastando sandálias e pensando:
foi uma idéia supimpa jogar tudo para o alto.

Se Inês é morta, resta-nos o Leite

domingo, 11 de dezembro de 2011

Pedro e Inês

Doida mesmo foi Inês que, de aia da primeira dama, acabou virando amante do infante que viria a ser rei.
A crítica ácida da plebe hipócrita, o rei que não aprovava, o exílio – nada foi capaz de acabar com a história.

D. Inês, que era belíssima, foi tendo filhos de D. Pedro I: Afonso em 1346, João em 1349, Dinis em 1354 e Beatriz em 1347.
O amor era profundo e a publicidade tão descarada que, em 1355, o rei D. Afonso IV mandou que cortassem a cabeça da mãe de seus próprios netos.
Segundo a lenda, as lágrimas derramadas no rio Mondego pela morte de Inês formaram a Fonte dos Amores da Quinta das Lágrimas.

D. Pedro I tornou-se o oitavo rei de Portugal em 1357.
Três anos depois assinou a declaração de Cantanhede, legitimando os filhos ao afirmar que se tinha casado secretamente com D. Inês.
Mandou matar os algozes de seu amor  (arrancaram o coração de um deles pelo peito e do outro, pelas costas) e fez com que o povo beijasse a mão do cadáver da rainha.
Quando morreu, foi enterrado ao lado de Inês.

E eis que o Leite, antigo e cheio de histórias, criou uma sobremesa bem luso-brasileira: queijo (de coalho) com goiabada (derretida). O restaurante batizou a deliciosa combinação de Pedro e Inês.

Eu, vampira tropical, fugindo do sol em dia que é quase carnaval, entendi de cara que amor é assim: quase impossível e absolutamente perigoso.

gênio da maçã

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

 lat. genìus,i ‘divindade particular que presidia ao nascimento de cada pessoa e a acompanhava durante a vida, p.ext. a porção espiritual ou divina de cada um; divindade protetora de uma coisa ou lugar; anjo que perdeu a graça; o que faz as honras da casa, anfitrião; os apetites naturais; gulodice, sensualidade, deleite; ornamento, glória, beleza, graça; inspiração, talento’

Passado o frenesi com a morte de Steve Jobs, venho aqui depositar meu texto de devedora.
Devorei a biografia – comprada na loja por ele inventada.
E fiquei muito admirada.
Algumas vezes foi do mal.
Várias vezes, louco desvairado.
E arrogante, ousado, abusado, egoísta.
Apesar de tudo e por isso mesmo, gênio.
Ok, até aqui, nada de novo.

Um obsessivo.
Um pirado que não queria saber do que necessitávamos.
Ele queria inventar a própria necessidade.
Detalhe: Jobs mesmo não criava nada.
Era o maestro que farejava a novidade no ar e comandava a tropa para transformar a idéia em objeto.

O que me pegou foram otras cositas:
– hippie, peregrino na Índia, devedor dos efeitos do LSD, apaixonado por alguns instantes, cruel sempre que dava na telha, desconfiado de que morreria cedo, acelerado e desrespeitador de leis. Desapegado de coisas materiais (justo ele), dividia o mundo entre bons e ruins. A e B.
Um cara sem freios.
E com muito foco.
Um defensor da rebeldia.
Fosse ela ser alguém de muitas contradições.

Agora entendo melhor porque sou dependente química de suas criações.

Acaso

domingo, 23 de outubro de 2011

leitura de mão

Aquele que não existe.
Que não passou por aqui.

Duas criaturas separadas por um dia, quatro estórias, um encontro e alguns adeus.
Uma fronteira.

Era uma vez uma história de desbravadores.
A vida que se abriu como trilha a facão
Andanças
Praias
Sertões
Finalmente, paulicéia cheia de pontas
Novamente, montanhas – a separar e a reunir

Eram fotos de peixes, de paradas de ônibus
Inocências e descobertas
Eram certezas verdes
Antagônicas
Suaves como coisas de Cecília

Foi-se a mãe de um
O pai da outra
Ficou a pequena história
E uma pá de cal num veio profundo
Coisas mínimas
Croniquetas de folhetim de bairro

E eis que 0,1,1,0,0 – poema binário do acaso inexistente
O maior caminho entre os pontos
e novas fotos
ao acaso?

Um dia apenas, 15 anos, tanta coisa a contar.
Duas criaturinhas lindas
e novas histórias