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Navalha

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

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Sem álcool.
Sem trabalho fixo.
Sem compromisso.
Sem medo.
Sem maldade.
Sem sualizar.
Sem pre-pronta.

Com pacta.
Com vontade.
Com idéias.
Com amor.

Sem tirar nem com.

A love supreme

sábado, 19 de setembro de 2015

Foto criada em 19-09-15 às 02.24 #2Quando, finalmente, tudo o que poderia ser consumido termina e a casa adormece.
Quando, finalmente.
Os querubins e arcanjos deixam que as asas repousem sobre eles.

Eu me sento com meu pequeno pote de tâmaras ouvindo os salmos do Mestre.
O AMOR SUPREMO.
Nesta noite de nuvens e poucas estrelas não existe nenhum ser humano entre as paredes além de mim.
Os bichos, inquietos, ficam a me rondar. Mas eu estou só.

Eu como as tâmaras com fome.
E ouço a obra mais fina da criação.
Coltrane.
O mensageiro.

A minha energia é exatamente quando ninguém consegue ver.
A luz amarela, cor de gema de ovo.
O corpo, marcado, másculo, mas ancudo, feminino de te fazer querer morder.
A chama reta, num pavio longo.
Eu mordisco folhas de alface.
E como carne.

Sinto o mantra.
Sinto meu corpo inteiro em comunhão.
Entendo que nunca existirão rédeas.
Jazz.

Eu sou tudo e nada.
Eu me acabo, me esgoto.
E começo sem fim.
E de novo e sem parar.

ETA: agora, neste momento

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Não é mais rico quem tem mais, mas quem precisa menos.”

provérbio budista

 

O tempo é agora.
Quem deixa para amanhã, acaba se surpreendendo.
Eu nasci com um dedo na tomada.
E não durmo se não termino o projeto, o casamento, a história, o tudo.
Eu sou daquelas que não desliga se todas as gavetas não estiverem arrumadas, pratos lavados e guardados. Cinzas de charuto devidamente empacotadas e no lixo.
Eu durmo?

E eu amo os novos tempos.
A internet, a conexão virtual, o romance por fibra ótica.
Tudo o que é virtual pega fogo.
Para quê o real?
A vida pode ser muito mais do que o aqui. Pode ser na Síria.
No Iraque.
No Japão.
E ainda assim real.

Deu errado hoje?
Tenta de novo amanhã.
Tem coisa boa para tentar mais e mais e mais.
E a liberdade?
Fazer tudo o que não pode.
A regra.
O certo.

Fazer tudo errado de verdade.
Ai, mais de 30, mais de 40 é muito mais gostoso.
Vai por mim.

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Maior o que está em mim

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Delícia voltar às origens e ver seu passado te tragando feito areia movediça e cuspindo os ossinhos com um cabelo de Debbie Harry.
O rock voltou.
A bike rolou.
A força está me deixando com braços de menino.
A loucura está rondando a praça.
A gentileza acontece.
A paranóia do escritório sumiu.
A faca e a bota foram para o armário.
Amor para todos os lados.
Na rua, na net, ao telefone, em tudo.
E só não dá tempo de trabalhar.

Trabalho enobrece?
Trabalho é andar dez casinhas para trás, no meu caso.
O tal julgamento de Brodsky.

Trabalho?
Tô ralando, minha nega.
Yoga.
Meditação.
Nos intervalos, faço algum dindim.

E estou considerando seriamente me teletransportar para o Japão.
Era uma vez uma Ana.
Durante anos Ana foi feliz.
Mas ela descobriu que, de ponta cabeça, seria ainda mais do que quis.

Segunda-feira, pode me arrancar cada pedaço de carne.
As unhas vermelhas.
O pêlo.
Me arranha inteira.

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Palavras

sábado, 8 de agosto de 2015

Eu sou como eu sou porque eu vim de onde eu vim.

Ya esta en el aire

Do minério que gruda na pele e não sai.
Da crueza ferina.
Das feridas praticamente incuráveis porque a faca tem veneno.
Para esta raiz não volto mais, para este caule de flor de lótus solto na água.
Que se desfaz em fibras grossas e gosma sem cheiro.

Faz parte do desenvolvimento entender os porquês.
Faz parte se perdoar também.
E é sempre tempo de olhar para frente.

Meus olhos são verdes e castanhos.
Eles sempre enxergam mais do que deveriam.

Honestidade

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A diferença entre o que você pensa e o que você faz.
A diferença entre o que você faz e como você se responsabiliza por seus atos.
A diferença que gera buracos profundos e constrói muros intransponíveis.
Gaza, Berlim – nada tão “simples”, tudo cada vez mais distante.

Pessoa escreveu que “a maioria pensa com a sensibilidade”, e que ele “sentia com o pensamento”.
Eu entendo Pessoa.
Nos meus mundos de letras, idéias e elucubrações, eu vôo.
No mundo de terra, água, ar e fogo – eu me dou uma pausa.

Quando eu ajo, eu sou mais do que apenas humana.
Eu sou uma força capaz de mexer com a estrutura dos átomos.
E eles sempre se rearranjam.
Isto se chama “Teoria das colisões”

Porque a gota de água que cai do seu copo muda a estrutura do mundo.
E uma coisa leva a outra até que um tsunami nos leva a todos.
Mas somente uma certa fração do total de colisões tem a energia para conectar-se efetivamente e causar a transformaçao dos reagentes em produtos

O pensamento não é produto.
O pensamento flui em outros mundos.
A ação é fato.
Ela é escrita na pedra.
Assinada com sangue.
Ela não volta no tempo.

Só quem volta é o pensamento.

E eu, por aqui, me basto.

No legacy is so rich as honesty.
William Shakespeare

Eu sou exatamente o que você não vê

Dupla

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Em você nada mais me interessa.
O pelo, a pele, o medo.
A única coisa que ainda me aguça.
O que molha.
É tudo o que você esconde.

Seu lado B.
Seu objetivo frouxo.
Seu texto cafajeste.
Com sua pose de bom moço.

De noite eu fantasio
A hora em que você
Vai conhecer o meu lado A

E aí, meu bem, vai ser tarde demais.

AAAAAbbbbbbbb

Travesti

domingo, 26 de julho de 2015

para-raios

Porque hoje, não do nada, saquei quando a gente saiu da estrada.
Diferente do mundo, eu vivo a vida às claras.
Eu não tenho medo nem amarras.
O que eu faço, mato no peito. Sem programa que deleta o que eu escrevo.
Meu aplicativo replica, publica. Grita.
Eu sou 80 em estado puro.
Eu não minto. Nem tenho mais pinto.
E eu decidi que, a partir de agora, quero ser de mais de um. De dois. Ou três.
Vou colocar o dedo na tomada. Eu sempre fui 220.
Vou dar o que me der. Vou dar.
Vou, finalmente, criar, vou deixar quem eu sou ganhar. Eu vou me entregar.
Eu comecei a ir embora.
Eu sou de trás para frente.
Comigo tudo sempre começa do alto, do grande.
Agora eu quero o diminuto.
É hora de voltar ao meu espaço, à minha mesa de sinuca, à minha solidão destemida que vai puxando gente como ímã.
Eu estou chegando em casa.
Eu não tenho mistério.
Senha.

E é por isto que você me quer.

Terceirização da dor

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Hoje eu acho graça na escravidão moderna das empregadas.
E do coro dos preocupados com a luta de classes.
Verdade que pago alguns cobres para você arrumar a bagunça que deixo para trás.
Verdade mais que verdadeira, eu deixo tudo muito arrumado – sempre.
No máximo uma vassoura com pano úmido.
Umas roupas para dobrar.
E você não é mais CLT.
Pago a uma empresa.
Uma empresa que te paga.

Sabe que também me pagam para fazer faxina?
E a bagunça é de uma natureza mais variada.
Envolve egos, gente graúda e com medo das modernidades, gente graúda e que tem pressa e passa por cima.
Gente que chega agora.
Gente que demora a partir.
Gente que opera nas sombras.
Gente que tem medo de operar.
Tem os que metem pés pelas mãos.
Viciados em internet.
Operário padrão.
Secretária. Estagiário.
E você também paga a uma empresa.
Empresa que sou eu.
Com números e CNPJ porque ninguém mais aguenta FGTS, Inss, 40% de multa rescisória.

Ah, querido, o mundo é um moinho.
Talvez seja moedor de carne.

Eu fico aqui só pensando.
Na epifania de domingo.

No fim das contas, a matemática não fecha.
Porque a graça anda nas entrelinhas.
E a vida mesmo só acontece nos intervalos.

Foco Foco Foco Foco Folga Foco Foco Foco Foco

Resolução de ano novo

sábado, 3 de janeiro de 2015

O ano quando começa abre as portas do impossível.
E elas se fecham rapidamente. Quem passar não volta jamais.
Não, não há dinheiro envolvido, amor novo ou sua saúde de volta.
Sete ondas, oferendas, espumante, beijo – nada disto faz sentido.
Ousadia.
Dos significados do dicionário, os que mais se assemelham à verdade são a falta de reflexão; a imprudência; a temeridade.
Não que eu não ame cometer todas as antonímias.
O objetivo é testar, testar, testar.
Aqui, dentro do meu universo, eu vôo muito, vôo longe.
A tal casca dura que molda como mármore.
Que te faz uma personagem.
Quando você voa ela se esfarela como sal do Mar Morto.
E você vira passageiro desta espiral de coisas impossíveis que, quando leves, sempre proibidas.
Beber de manhã, falar o que não deve, sonhar com coisas difíceis, escrever o que bem entende e para quem se interessar. Escrever.
Imaginar outras histórias, outras pessoas, uma casa menor, um gosto por café, uma sem-vergonhice absolutamente inusitada. A falta de vergonha de seguir o faro.
Pensar nos grilhões de um trabalho como um tíquete de loteria.
Desejar salvação pelo caminho mais simples: uma nova prisão.

Quando a gente é novo, o novo é puro prazer.
Ele é doce.
Ele tem tempo e fé.
Quando se envelhece, existe a dor.
Existe também um auto-conhecimento, um saber cristalino de suas limitações.
E, a despeito de tanto chumbo, tudo é bom porque é suado.

Passei oito anos e meio – quase dez se contar um intervalo sabático – no mesmo emprego.
Coisas de principiante.
Hoje espero coisas que estejam fora do tempo.
Não sou guia nem sou calma.
Vejo meu filho inquieto, impaciente, exigindo “agora”.
E eu sinto uma identificação orgulhosa.
No fundo, no fundo, o “agora” ainda grita em mim.
E são tantos anos.

Agora.

Meu melhor ângulo não está aqui