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A vida que não me dei

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Da ressaca pós-eleitoral veio a inspiracão.
Nossos suspiros são sobre a vida que poderíamos ter tido.
Sobre as promessas não cumpridas, não realizadas.
Sobre nosso auto-engano.
Sobre acreditar que tudo poderia ter dado certo.
Mesmo insistindo várias vezes em fazer tudo torto.

Da vida que vi lá atrás e que nada tem com a de hoje.
Das noites mal dormidas.
Dos gastos estapafúrdios.
Das idas e voltas, das despedidas.
Da coragem de deixar para trás.

Os candidatos tiram de nós o retrato.
Hoje parei o carro em plena avenida para uma ratazana passar.
Ela estava confusa, provavelmente louca de veneno.
Mas parou. Saiu debaixo do carro que estava a minha frente.
Parou.
Olhou.
Viu que não era a sua hora.
E sumiu pelo jardim do acostamento.
Um pedestre gritou.

Eu acelerei de novo.
Pensando nos caminhos, repisando a calçada portuguesa.
Ansiando por minha solidão benvinda – tão atacada, vilipendiada.
Pensando em tudo o que poderia ter sido.

Eu sabia que seria assim.
Mas me enganei muito bem.
Parabéns.
Palmas para a ressaca moral.

Ensaio sobre a raiva

domingo, 29 de dezembro de 2013

Retórica, ironia e outros pontos.

O texto do francês rendeu que só – mas como o blog é diletante só agora li a gritaria.
E como este espaço ainda por cima não é nada democrático, pouca coisa se salvou.
Muitos cães raivosos e um pouco recalcados por não falarem francês.
Outros só raivosos mesmo, achando tudo o que dizem de nós uma graça.
Paciência.
Afinal, nem este nem o blog do francês têm a mínima importância.

Ironia é por aí: nem todo mundo pega no ar.
Ironia mineira é pior ainda: tem um quê de maldade.

E deste fio mal enrolado sai a graça atual.
Da estátua de Drummond (horrorosa e de mau gosto) pixada (o que entornou o caldo de vez) e da boa sacada do dono da loja de tintas que foi lá e fez em minutos o que o poder público certamente deixaria para só fazer a um alto custo em 2014.
Dos assaltos no fim do ano.
Dos assassinatos.
Da chuva que sempre leva gente.
Da inocência de quem crê na loteria da virada.
Do pedreiro milionário, sequestrado e que desistiu de São Paulo.
Da PR que misturou África, negros e AIDS num mesmo barco e afundou com ele.

Tudo tão torto que entendo o grito.
Seja ele de dentro de casa ou na sacada.

2013 se esvai como chegou: deixando o peito apertado de tudo o que não se concretizou, mas bem que poderia.
Esta coisa de fechar um ciclo achando que próximo será melhor é pouco prática, mas muito engraçadinha.
Esta mania de achar que vai dar certo mesmo sem levantar um dedo para que isto aconteça.
Por que não?
Há quem consiga.

Imagina, sair por aí como Alexandre, com a sede dos 20 anos e se acabar com malária, ou envenenado, ou com encefalite por excesso de álcool, ou mesmo febre tifóide.
Para chegar a tanto tem que ter vivido intensamente e gritado alto enquanto empunhava a espada.
O que mais me atrai é o fato de respeitar os derrotados.
Esta coisa de reverenciar o mais fraco. De não se deixar levar pelos louros de um instante qualquer.

Mas, se não vamos entrar na seara da antropologia, muito menos na da psicologia.

2013 está fechando as portas.
Está partindo com sol no Rio.
Está deixando as dívidas crescerem como fermento de boa qualidade.
A necessidade aumentar.
2014 chega de testa marcada, cheio de tarefas para entregar.
E com ou sem francês – que costuma não entender nada mesmo – há que se caminhar.
Não há saída.

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!

William Butler Yeats

RESPONSIBILITIES

Gritos e sussurros na multidão

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dos meus (ainda) curtos 18 anos de carreira, 15 foram como jornalista, 11 dentro de uma redação.
Quando escolhi a profissão, tinha 17 anos e experiência zero de vida.

Meu primeiro dia numa redação foi uma tortura: escrever um texto curto enquanto pessoas falavam a minha volta, telefones tocavam, televisão ligada.
Sim, eu achei que iria derrotar o sistema estando dentro dele.
E peguei a onça pelo rabo.

Fui repórter da Veja, fui repórter da TV Globo.
Cresci e virei editora.
Não, nas empresas em que trabalhei, nunca recebi pedidos ou ordens para favorecer uma empresa em detrimento de outra.
Nunca me pediram para esconder os fatos.
Mas, com 17, 20 anos, é difícil entender as entrelinhas.

Em minha primeira e última entrevista com uma personalidade para as Páginas Amarelas, fui parabenizada pelos chefes: a edição ficou tão “boa” que eu chamava Demi Moore de imbecil sem talento, que eu tirava onda com o cérebro diminuto do Stallone entre outras sacanagens com as estrelas de Hollywood.
Choveram cartas – sim, naquela época as pessoas indignadas compravam papel, caneta, selos e despejavam seu ódio em uma carta – me chamando de idiota para baixo.
Uma, que me doeu com força, questionava se eu era formada e, se era, qual universidade eu pagara para obter um diploma.
Formada: colocada dentro da forma.

Veio uma outra matéria sobre o novo Código Civil e eu, depois de ralar duas semanas em cima do tema, decidi, ao ler a versão final, que não iria assinar a matéria.
A resposta veio a galope: ou assina ou rua.
Assinei.

Pouco tempo depois, bati à porta da Globo.
Foram quase dez anos dentro desta casa que me recebeu sem nem me conhecer direito.
Na Globo, jornalista é profissional que recebe um bom plano de saúde, que tem um computador bacana, que tem verba para fazer uma produção de qualidade.
A hierarquia é respeitada e os profissionais trabalham duro.
Falem o que queiram, como empresa e como patroa, a Globo foi o meu melhor empregador.

Fiz matérias com câmera escondida e tomei muito café com meu saudoso amigo Tim Lopes.
Subi morro, vi cabeça rolar – cabeça mesmo.

Um dia, fazendo a cobertura das eleições presidenciais para o JN em São Paulo, eu tive uma revelação.
Meu trabalho era pegar as imagens da agenda do dia de um candidato e montar uma matéria.
Checava a agenda do outro candidato e montava outra matéria que, obrigatoriamente, deveria ter o mesmo tempo de duração da do outro candidato.
Explico: 50 segundos de texto descrevendo o dia do candidato e 10 segundos de “sonora” / entrevista com o mesmo.
Se um candidato não fazia nada num dia e o outro se encontrava com o Elvis Presley… A-ha!
As duas matérias viravam uma nota – um texto na boca do apresentador, sem imagens.
Mas, veja bem: um encontrou o Elvis Presley que, claro, não morreu.
E o outro ficou em casa.
Para manter a “imparcialidade”, para não favorecer ninguém e nem correr o risco de ser acusado disto, o “certo” era dar a tal nota seca, sem imagens.

“O candidato carequinha passou o dia em casa, reunido com sua equipe de campanha.
O candidato barbudinho esteve com Elvis Presley e, juntos, dançaram um iê-iê-iê.
Amanhã, ambos devem participar de uma carreata na periferia da cidade.”
Ponto final, boa noite.

Confesso: demorou muito a cair a ficha.
Afinal, ganhar direitinho, conhecer todos os famosos do plim-plim e ter ótimos companheiros de trabalho desequilibram a balança.
Mas a gente não veio a passeio e peguei meu banquinho.
Fui enlouquecer com a internet, tomar na cabeça com a construção civil, fui aprender que um blog é público e que você deve ter todo cuidado com o que escreve. Hoje, vivo no mundo louco das artes.
Não sei se me encontrei, porque sou assim de virada, mas fui procurar meu espaço, meu lugar – aquele que não existe.
Fui gritar para quatro ou cinco malucos que querem me escutar.

Pois este texto é para vocês, meus cinco leitores.
Amigos, hoje, acordei com ressaca de passeata.
Hoje li que uns vândalos (provavelmente pagos) atacaram a prefeitura.
Incendiaram um carro de reportagem.
Roubaram Banco.
Apedrejaram lanchonete.

Meus ex-colegas, muito queridos e estimados, não entendem por que alguns membros da turba ensandecida que tomou São Paulo, por que parte da turba se virou contra a imprensa.
Estes colegas bradam, indignados, contra a violência que jornalistas estão sofrendo.
Uns lembram que só foram “calados” na época da ditadura.

Meus amigos, é com respeito que escrevo porque comi muito e me lambuzei neste prato.
Eu sei por que a turba grita e bate.
Eu sei.
Você, mesmo revoltado, deveria suspeitar.
Ou então, realmente, você não entendeu nada.
E o resultado está publicado.

Letras, apenas letras

S.P./S.A.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Polícia que deixa arrastão correr solto em prédios e restaurantes, polícia que me deixou ser sequestrada e que me disse que não há muito o que fazer, polícia de São Paulo que agora resolveu descer o sarrafo. Manifestante que só anda de carro e resolveu linchar a polícia. Motorista que resolveu passar por cima de pedestre. Pedestre que resolveu quebrar tudo e depois fotografar com iPhone. O prefeito que prometeu em campanha “Adoção de Bilhete Único diário, semanal e mensal (…) que permitirá que o usuário realize tantas viagens quantas deseje nesse período de tempo, e ainda tenha descontos maiores”. O governador que fala grosso de Paris. Imposto que me faz trabalhar 5 meses só para pagá-lo. Escola que não é pública. Bicicleta que passo por cima. Poucas foram as vezes que quis pegar o meu banquinho. Hoje é assim que me sinto.

O fim do tronco

domingo, 10 de março de 2013

No século XXI, Casa Grande e Senzala ainda existem
A patroa rói o osso, a empregada come filé – ou bobó de camarão, tanto faz.
Imagine eu não trabalhar porque estou com febre…
Imagine eu não levar um atestado médico depois de ficar dois dias fora de circulação.
Pois é essa a vida da coitada da doméstica que sai sempre de madrugada dos cafundós, pega dois ônibus, um trem, metrô…
Ela chega cansada e tem direitos.
Se for babá, o momento descarrego vai ser na pracinha.
Pare e ouça.

Já a patroa sai as 7h, leva a meninada para a escola, arruma um esquema com o taxista para buscar os meninos.
Paga babá, aula de natação, inglês.
Depois tem que ralar para bancar esse staff.
E morre de remorso de não ter tempo para os filhos.
Ahhhhhhhhhh…
Direitos e deveres.

Na vida selvagem das cidades, não dá para levar empregadas (e patroas) ao pé da letra.
Não tem injustiçado, explorado ou mal pago.
Tem a relação impossível.

Não há salário que pague tanto trabalho.
Nem dinheiro que banque tanto descompromisso.
Falta retorno.
Falta entender.
Falta tempo, minha gente.
E tempo é dinheiro desperdiçado.

Comprei casa nova.
Vou pagar os tubos.
Vou reformar.
Vou entrar para a era dos Jetsons.
Não quero ninguém em casa.
Quero silêncio.
E um bando de máquinas trabalhando por mim.

Se der na telha, contrato um chinês para mandar meus emails.
E vou ficar de chinelo.
Vou deitar na grama e rolar com os cachorros sob o sol.

Lendo isto… http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/97758-a-vida-sem-domestica.shtml

Tum-pá.

Lava pé e alma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Muda

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Calor insano não se cura com chuva fina.
Da pele grossa, vapor.
A pele fina, malsã.

Chove em São Paulo.
E nada muda.

Poluição como tudo – acúmulo.
Mais, mais e nada.
Mais do mesmo.
Firme.
Seja forte.
É?
Às vezes me falta estrogênio.

Chuva fina e rápida.
Nem deu tempo de preparar um drink com gelo.
São Paulo, menina mimada, muda tudo e volta às origens só para mostrar quem manda.

Interrupção

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Planejamento

INTERRUPÇÃO

A obra dos Deuses, nós a interrompemos – entes
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.

(Kaváfis)
trad. de José Paulo Paes

Ontem reencontrei a diaba.
Passado obtuso de vestido longo na beira do rio.
Molha, molha até que encharca e te leva para o fundo.

Mitomania e agressividade.
Maldade em estado bruto e no jardim de infância.

4 anos.
Todos os meus planos, valentes, perdidos.
Murro escorrido, entornado.
Manti o prumo.
E foi o possível.

Consola é saber-se duro e corajoso.
E sem nada a dever e a ninguém.
Amiga da verdade e, por isso mesmo, sempre em guarda.

Pobre diaba, feia, desajeitada, pernóstica e verborrágica.
Pobre diaba.

 

 

Capítulo 29 – A ruiva

terça-feira, 19 de junho de 2012

pow!

Escandalosa, falava alto e tinha uma risada meio boçal.
Chegou atrasada.
Entrou na piscina com os olhos carregados de maquiagem.
A filha, fantasiada de Carmen Miranda dos alpes de Higienópolis.

Ela, que voava longe em seus pensamentos, levou água.
Cara lavada, maiô preto, touca de silicone preta.
Ficou olhando o rebento: calmo, observador.

A pequena não era bem acabada.
Agitada, feliz, soltava gritinhos.
Crianças costumam ser todas iguais (menos os filhos de Woody Allen).

Ela, tentando não deixar o Concorde pousar, pensava em vinho, Spinoza, ia longe e toda a gritaria era comprimida em um grande silêncio de templo budista.
Ela ali, germânica, com cadeiras de índia paraguaia, pensando em filosofia e em tudo o que não entendia.

O mundo girando como a Lusitana.
Até que acabou.

Ao sair, chovia.
Decidiu voltar a pé para casa.
No meio do caminho, tirou os sapatos.

Asfalto e mais nada.

Capítulo 28 – Fé

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Isso aqui não é Hollywood

Sexta-feira, 20h30.
Praguejava contra as ruas estreitas daquele bairro outrora operário, hoje de classe média alta metida a artista e boêmia.
Cansada de procurar, parou o carro sobre a calçada.
Chegou em cima da hora.
Resignada, sentou-se.

O japonês gago e sem graça falava sobre o livro que acabara de ler.
Era o livro que deu origem ao filme.
O Voto.
“Que linda a história de um homem que conta dia após dia à mulher desmemoriada que eles se amam”.
Pensou na pobre mulher de olhos vazios a olhar para um estranho que insistia em dizer que eles eram um casal.
O japonês gago explicando coisas sobre Deus e a filosofia.

Depois, a moça boazinha.
Aquela lenga-lenga de amor, amor sem limites, amor que cura, amor.
E o desconhecido, o iluminado, o onipresente? E a culpa?

A velha de peruca mais uma vez perguntou:
– Documentos? Sem eles, sem certificado.
E começou a dizer que lindo era o passado, quando se estudava anos para receber Deus.

Chega, ela estourou.
Praguejou contra a burocracia, as barreiras desnecessárias.
Reclamou dos templos de luxo e dos papas conspiradores.
Cuspiu no certificado.
Disse que Deus era profano.

Ainda tentaram botar panos quentes.
Possuída, não foi polida.
E voltou para casa nervosa; teve que tomar uma garrafa de vinho antes de dormir.
E leu Spinoza furiosamente.

Be not astonished at new ideas;
for it is well known to you that
a thing does not therefore cease to be true
because it is not accepted by many.
Spinoza

Capítulo 27: alô

quinta-feira, 14 de junho de 2012

holla, que tal

E ela atendeu o telefone.
Seguiu as instruções, não discutiu a proposta, fez o que seu mestre mandou.

(fez o jogo e se calou)

Sua vida então mudou.
Não voltou mais ao velho apartamento.
Hoje vive num vão livre brutalista.
Tem 4 escudeiras fiéis e bem pagas.
Na decoração, poucos objetos.
Usa roupas simples.
Viaja menos e com mais emoção.

Sorri – com e sem motivo.

O tal telefonema?
Ah… Pergunte para o Snoopy.