Arquivo da Categoria ‘Elucubrações’

Minhas unhas vermelhas

domingo, 2 de agosto de 2015

Antes eu queria a festa, o momento.
Hoje eu quero o microscópico.
Em dois meses, eu voltei a ser a Ana com 20.
Mas com uma vida de 40.
Não foi a farra que veio, foi a carga pesada arrastada com com correntes que se foi.

De repente me vi montando um altar de flores.
De bons pensamentos.
Eu me lavei com sais, lavanda, acreditei na pedra energizada.

Eu tinha todas as certezas.
Minha bota do exército.
Minha roupa preta e um cabelão de medusa.
Um parceiro da vida inteira.
Um futuro.

Hoje eu tenho uma idéia.
Eu passo um batom, encho o peito de ar e vou.
Não levo nem a bolsa.
Eu simplesmente vou.

Eu ando muito leve, quase sendo levada com o vento.
E descobri que o caminho ainda nem começou direito.
Peguei um atalho enorme.
E cheguei em lugar nenhum.

Mas eu sou daquelas que caminha sem parar.
E, demorou, mas eu não tenho onde chegar.
E tudo bem.
Eu vou.

Travesti

domingo, 26 de julho de 2015

para-raios

Porque hoje, não do nada, saquei quando a gente saiu da estrada.
Diferente do mundo, eu vivo a vida às claras.
Eu não tenho medo nem amarras.
O que eu faço, mato no peito. Sem programa que deleta o que eu escrevo.
Meu aplicativo replica, publica. Grita.
Eu sou 80 em estado puro.
Eu não minto. Nem tenho mais pinto.
E eu decidi que, a partir de agora, quero ser de mais de um. De dois. Ou três.
Vou colocar o dedo na tomada. Eu sempre fui 220.
Vou dar o que me der. Vou dar.
Vou, finalmente, criar, vou deixar quem eu sou ganhar. Eu vou me entregar.
Eu comecei a ir embora.
Eu sou de trás para frente.
Comigo tudo sempre começa do alto, do grande.
Agora eu quero o diminuto.
É hora de voltar ao meu espaço, à minha mesa de sinuca, à minha solidão destemida que vai puxando gente como ímã.
Eu estou chegando em casa.
Eu não tenho mistério.
Senha.

E é por isto que você me quer.

Viagem sem volta

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Quem sabe?

Estou aqui fazendo a lista.
Ucrânia, fora.
Somália, fora.
Paquistão, Síria, Líbia.
Rússia.
Venezuela.
Argentina.
Nem batendo panela.
O mundo anda mesmo chato.
Nem Brasil não dá mais para ficar.
Peguei bode.
Fiquei de bico.
Não tem carnaval, não tem São João, tem FIFA e milico.
Daí que passei a semana me entupindo de porcaria.
Pizza, chocolate, arroz doce, bolo de iogurte, macarrão, pão; vinho, não.
Tudo o que me entupa..
Tudo o que me faça dormir de barriga para cima.
Assim não penso.
Incho, inflo, viro um balão.
E vou de vez para o espaço.
Dizem que lá não tem som.
Não tem como segurar a respiração.
Porque o mundo, aqui, agora, sufoca.
Por isto, nem vinho nem cachaça.
Já estamos loucos o suficiente.

Pirações e algo mais

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ando cansada do blog. Ou seja – ele já era.
Ando enjoada dos políticos e de grande parte da humanidade – não, não vou pular da ponte.
Ando jogando na loteria – tolinha.
Ando procurando um novo emprego – tanto a dizer que é melhor nem falar.

Cansada dos velhos caminhos, dos mesmos passos, das velhas histórias.
Ando caminhando horrores.
Correndo, andando de metrô.
Ando mais abusada.

Ando mais doida.
Eu tenho quase 40.
Nem metade da esperança ou da inocência tola de quando este blog nasceu.
Ando tomando mais porradas.
E muito mais fortes.

Ando chutando baldes cheios de água limpa.
Kiev, Caracas, SP.

Onde e quando começa o show da virada?

Ensaio sobre a raiva

domingo, 29 de dezembro de 2013

Retórica, ironia e outros pontos.

O texto do francês rendeu que só – mas como o blog é diletante só agora li a gritaria.
E como este espaço ainda por cima não é nada democrático, pouca coisa se salvou.
Muitos cães raivosos e um pouco recalcados por não falarem francês.
Outros só raivosos mesmo, achando tudo o que dizem de nós uma graça.
Paciência.
Afinal, nem este nem o blog do francês têm a mínima importância.

Ironia é por aí: nem todo mundo pega no ar.
Ironia mineira é pior ainda: tem um quê de maldade.

E deste fio mal enrolado sai a graça atual.
Da estátua de Drummond (horrorosa e de mau gosto) pixada (o que entornou o caldo de vez) e da boa sacada do dono da loja de tintas que foi lá e fez em minutos o que o poder público certamente deixaria para só fazer a um alto custo em 2014.
Dos assaltos no fim do ano.
Dos assassinatos.
Da chuva que sempre leva gente.
Da inocência de quem crê na loteria da virada.
Do pedreiro milionário, sequestrado e que desistiu de São Paulo.
Da PR que misturou África, negros e AIDS num mesmo barco e afundou com ele.

Tudo tão torto que entendo o grito.
Seja ele de dentro de casa ou na sacada.

2013 se esvai como chegou: deixando o peito apertado de tudo o que não se concretizou, mas bem que poderia.
Esta coisa de fechar um ciclo achando que próximo será melhor é pouco prática, mas muito engraçadinha.
Esta mania de achar que vai dar certo mesmo sem levantar um dedo para que isto aconteça.
Por que não?
Há quem consiga.

Imagina, sair por aí como Alexandre, com a sede dos 20 anos e se acabar com malária, ou envenenado, ou com encefalite por excesso de álcool, ou mesmo febre tifóide.
Para chegar a tanto tem que ter vivido intensamente e gritado alto enquanto empunhava a espada.
O que mais me atrai é o fato de respeitar os derrotados.
Esta coisa de reverenciar o mais fraco. De não se deixar levar pelos louros de um instante qualquer.

Mas, se não vamos entrar na seara da antropologia, muito menos na da psicologia.

2013 está fechando as portas.
Está partindo com sol no Rio.
Está deixando as dívidas crescerem como fermento de boa qualidade.
A necessidade aumentar.
2014 chega de testa marcada, cheio de tarefas para entregar.
E com ou sem francês – que costuma não entender nada mesmo – há que se caminhar.
Não há saída.

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!

William Butler Yeats

RESPONSIBILITIES

Aquecendo

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Mudando a fórmula

Aquele texto desaforado mexeu comigo.
Dia 13 de novembro e meu salário nem deu sinal.
Meio que perdida numa São Paulo escaldante.
Com unha quebrada, cabelo desalinhado, pijama…
Você finge que me paga e eu não finjo que trabalho.
Cumpri as obrigações matinais e falei para o táxi: me larga em Osasco.
Liguei meu celular, reforcei o laço do tênis e dei uma volta acelerada.
4km e saí pela rua.
5, 6, 7…
Um engarrafamento monstro de toda santa manhã.
Eu correndo e os carros parados, vidros fechados, ar condicionado no último número.
Seu texto do avental e eu pensando que iria rir naquela situação.
Escrevo um texto , um soco em inglês e salvo a mais necessitada do time.
Depois me atiro em meu jardim e passo o resto do dia com as mãos sujas.
Minha Babilônia.
Grama, terra, erva, água, sabão, cheiro de peixe.
Resolvo fazer um molho de tomate alla mamma.
Vou a feira.
Não tenho dinheiro, mas todo lugar aceita Visa.
É a Copa.
3 kg de tomates italianos vermelhos como sangue.
Lá fora o sininho se agita.
Abro uma garrafa de tinto.
E vou aos poucos esquecendo da realidade.

Procurando referências

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Então numa madrugada mais uma vez você perde o sono.
Procura poemas que expliquem os buracos.
No peito, no piso.
Que acalmem as dúvidas.
Ou, pelo menos, que diluam tantas certezas.
Dogmas.

Mas sabe que nenhum poeta morto ou vivo um dia conseguiu explicar.
A força de não se deixar deitar.
De rir mesmo quando arrebentado.
Da pieguice de não ser nada.
Da coragem diante do presente.

(In)certo.

De repente, você briga com o destino, com a fé, com o certo e o errado.
De repente, você decide que não dá para dormir tão pouco.
Que é preciso flanar mais, ser menos sério.

E que o repouso, a calma e a fé são benvindos.

De repente um poeta russo sussurra…
“Estamos quites
Inútil o apanhado da mútua dor mútua quota de dano.”

Em ação?

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Cara de "tô no cheque especial"

…daí que eu me pego fazendo as malas mais uma vez.
Cansada do quadro político atual, raspando o cofre para mudar para a casa nova – e arrependida por ter feito isto. Sem grana, de novo.
Cancelei meu hotel cinco estrelas e vou ficar em casa de amigos.
O carro quebrou. R$6 mil para arrumar.
Tento nem pensar na Síria, no festival de Veneza.
Penso que tenho que ir ao banco, transformar os dólares em reais para tampar os buracos.
Mandei email para a gerente assuntando um empréstimo.
Vai que…
Penso que preciso trabalhar mais para ganhar mais e juntar dinheiro de novo.
Daí que queria mesmo ir a Marte.
Sem contas, sem ter que sair da nave, alternando o dia entre a internet – para saber o que rola na Terra – e algumas músicas. Talvez alguns abdominais e uma corrida parada.
Tenho ouvido dois pops: Jack Johnson (por que ele é bonzinho e tem clips engraçadinhos no Havaí) e John Mayer (porque ele não é bonzinho – como eu -, mas tomou tanta porrada que agora quer ser).
Deixei os clássicos.
Comprei biografias – não romances.
Tenho ficado muito interessada na vida real.
Meu corpo voltou ao que era antes.
E está até mais forte, musculoso.
Foram 3 anos de calça que não cabe.
Esta coisa de você se olhar no espelho e não se reconhecer.
… daí que tenho que pegar um vôo para o Rio.
Durante 4 dias vou fazer caras e bocas, ficar por dentro do que rola de up no mercado, ver meu jornal na mão de todos os que interessam.
Tenho um encontro hoje com velhas amigas.
Uma festona no sábado.
Almoços, jantares.
Passei dois dias sem fazer ginástica e usando camisola a maior parte do tempo.
Estou preparando a mente para fazer bem o papel.
Aquele livro do Stanislavski mudou minha vida.
Porque – lá vem o chavão – todos somos atores em tempo integral.
Representamos o que queremos ser, ou o que gostaríamos que fóssemos.
E nem todos têm talento para subir ao palco.

“Esqueça de tudo, deixe fluir, mas lembrem-se: isto pode acontecer algumas vezes em sua carreira, ou mesmo nunca. O que existe é técnica. Todo o resto depende da forma (particular) com que você atua.”

Constantin Siergueieivitch Alexeiev (vulgo Stanislavski)

Home alone pero no mucho

domingo, 25 de agosto de 2013

Enquanto ele não acorda e vira pela enésima vez a minha vida do avesso.
Robalo, arroz basmati, ervilhas frescas, molho de coco.
E um Rosé de primeira.
Ontem, hospital.
A tal tosse que não para.
Uma hora e meia na fila com meu cartão hiper privé tarja preta e vendo todas as crianças remelentas passando na minha frente…
Cinco minutos de consulta e voilá: minha primeira sinusite.
3 caixas de remédio e 200 reais depois: a tosse continua firme no arreio e minha cintura do lado direito dói como seu eu tivesse feito mil abdominais.
Passei a manhã no museu do futebol.
Na última vez foi a a última vez que encontrei meu pai nesta vida.
O museu é incrível, mas hoje, o que me fez bater o coração (tá certo, os telões com as torcidas e a derrota de 50 sempre me tiram umas lágrimas) foram uns meninos pobres de excursão.
Turminha de Franco da Rocha.
Com suas roupas puidas, o cabelo pintado, uma corrente no peito e tênis muito gastos.
Na ala interativa, tiveram toda a paciência do mundo com meu pequeno.
Jogaram bola virtual com ele sem parar.
Ele ria, gritava gol, Mengão, Brasil.
Pulava, dava uma espécie de cambalhota – extasiado com os mais velhos.
Sem saber que são pobres, que vieram numa excursão destas de caridade, que têm um passado nada manso.
Na saída, eu, o diretor, o inglês convidado que deu uma bola nova para o meu rebento.
E os meninos pobres sendo contados como gado.
O robalo acabou, lavei o prato, os talhes, tomo mais uma taça de rosé.
Home alone.
Chamo os meninos e eles logo armam uma foto de time.
Lindos, carinhosos, com seus dentes brancos de quem tem fé.
Meu pequeno está no céu.
Eu pensando na casa nova que cada dia torna-se mais real.
No dinheiro no banco que quase se esvai.
Na lareira, no ar-condicionado split quente e frio.
No meu sofá de grife personalizado.
Nos tecidos fake da Missoni.
Quem disse que dinheiro é capim?
Os dois meninos lindos e doces com o meu pequeno.
Home alone avec mon rosé. Terceira taça.
Nem aí se o antibiótico, se o antialérgico, se o spray nasal vão dar tilt com meu álcool natural.
Pensando nos dois meninos de Franco da Rocha.
Tirei as fotos e pedi um email para mandá-las.
Constrangidos dizem que não têm email, orkut, facebook.
Pergunto se os pais têm.
Uma monitora se aproxima e explica que nem pais alguns deles têm.
Mando as fotos para o email dela.
Peço, praticamente suplico a ela que me retorne.
Quero ir atrás dos dois, dar o uniforme do Timão, levar para casa, dar o peito, a carteira, dar banho, colocar para dormir.
Penso nos sequestros aqui de casa.
Os bandidos levaram os cobres, cá estamos.
Penso nos meninos, no meu menino, no país, da presidentA de motocicleta e sem carteira.
Penso que queria estar agora, bêbada com estou, sozinha quando fujo, no Ibirapuera, sem filho, sem documento, ouvindo um jazz do Bourbon.
Penso nos dois.
Eles não me saem da cabeça.
Derramo a quarta taça.
Domingo eu não vou ao Maracanã.

Sol de inverno

domingo, 28 de julho de 2013

Fugindo do frio, da casa triste, andei pela vila.
Acompanhada de meus fiéis escudeiros, chutei bola, bebi água, fiquei suja de terra.
Já pronta para ir embora, fui atraída por uma turma de jovens cabeludos em roda.
Havia vários com violão.
Havia uns coroas também.
Cada hora uma música.
Um pic-nic.
Suco, refrigerante, vinho, salgadinho.
Rodei a roda.
Senti o último raio de sol.
Daí que alguém cantou Helena.
E os mais velhos, em coro, choraram.
Fui saindo de mansinho.
A festa, a roda, a música.
Eram uma missa de sétimo dia.

Inverno na Vila Madalena.
Que pena.

por aí, atravessando a rima