Arquivo da Categoria ‘Comidas’

Cannolis

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

 

doce açúcar café

doce açúcar café

Siciliano, puro açúcar.
Doce com ricota, limão, chocolate ou baunilha…
A Itália tem sotaque bem mais doce no Bixiga.

Tomo café turco a seco.
Muitos projetos interessantes para quebrar paredes e derrubar muros.
Direto, sem rodeios.
O cacife é sempre alto e restritivo.
Como eu gosto do perigo.

Dias de pouco sono, muitas idéias e um turbilhão de coisas.
De Converse verde, salto ou tênis para praticar esportes.
Meias, malhas, vestidos justos ou de pernas nuas.
O calor deixa o frio em São Paulo.

E eu sinto a primavera chegando.
Com todas as flores num ramalhete único.
Uma delas deve durar mais que as outras.

O pão impossível de cada dia

terça-feira, 17 de julho de 2012

prato vazio

E abriram a Le Pain Quotidien do lado de casa.
Saudosa de meus tempos sem lenço e com muitos dólares em NYC, fui logo matar as saudades.
Preparada para umas adaptações brazucas, fui surpreendida pelo cardápio: é o mesmo da rede lá fora.
O MESMO!
E, claro, sem demora, pedi o de SEMPRE…
Meus cereais matinais, a tigela de frutas, uma cestinha de pães, um bowl pequeno de café com leite.
A cachorra, pobrezinha, ficou do lado de fora – eu sentada e quentinha, ela na rua, olhando para mim com cara de abandonada.
Eu vendo a cara peluda e pensando nas inúmeras vezes em que quis levá-la comigo para dar umas voltas no Central Park mas fui impedida pela burocracia dos dois países.
Escolhi um assento na animada mesa coletiva.
Adoro ouvir as conversas dos outros, compartilhar a geléia, assuntar qualquer bobagem com um desconhecido.
Enquanto esperava pelo atendimento, encontrei a dona de uma cachorra que brinca com a minha; acenei para dois vizinhos queridos.
Fazia frio. As bochechas estavam rosadas.
Minha fome ultrapassava o que uma cesta de pães pretendia saciar.

E o garçom não veio.
Esperançosa, fui até ele.
Fiz o pedido.
Incluí ovos cozidos no meu pacotaço de desjejum.
Meia hora…
Vieram os ovos.
Mas não os talheres, o guardanapo, o sal.
Vinte minutos, a cesta de pães… Itens em falta: justo o pain au chocolat…
O suco de laranja, esquecido.
Mais meia hora.
Uma hora.
Abordei outro garçom, fiz sinal para o gerente.
Chegaram os talheres.
O ovo esfriou.
E com ele minha graça amarela de achar que, em casa, sentiria gosto de mundo afora.
Pensei no meu nouveau-richismo…
Nessa mania de achar que o que vem de fora é melhor do que há aqui.
Aos poucos, meus pratinhos foram chegando.
Todos muito parecidos com os da loja franqueada de Nova York.
Mas desencontrados.

Tudo embaralhado, desconjuntado, tudo sem a graça despojada de ser mais um na Grande Maçã.
Pedi a conta, paguei mesmo sem ter recebido a limonada com hortelã.
Observei os vários clientes desapontados com os serviços.
Os alegres que fotografavam rolinhos de canela.

De barriga cheia e com uma fome danada, voltei para casa.

Ode ao calor que derrete asfalto

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Frescurete de mocinhas

Dia de sol.
Acordo cedo, vejo a Vila com seus tipos bizarros, divertidos, muitos cachorros e terra vermelha.
Não, não me falta mar.

Museus, deck sem piscina.
Água de bica estilizada.
Pó de asfalto.
Pele é diamante negro.
Horizonte cor de laranja.

Pausa no frege do trabalho.
Cidade dura em festa.
Cortesia ensinada.
Adestramento do encanto.

Pausa para um clericot.
Nasceu na Índia faz mais de cem anos.
Ingleses no Punjab, mortos (como eu) de calor, gelaram vinho claret (Bordeaux para britânicos) e misturaram a ele pedaços de abacaxi.
Claret up!
A idéia rodou o mundo, ganhou branco ou espumante no lugar do tinto e acabou-se em total clericot.

 

Clericot  tropical para uma São Paulo em chamas

1 garrafa de champagne
50 ml de grenadine
12 morangos cortados ao meio
2 maçãs picadas
¼ de abacaxi em cubinhos
½ manga ou laranja picada
8 linchias

Misture tudo, acrescente gelo.

Beba logo, aproveite o resto do dia.

Coco, cocada e quebra-queixo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Les fleurs du mal

Acordo às cinco da manhã, faço uma hora e vou caminhar.

É calor logo cedo para os transparentes.
Em Boa Viagem, admirei-me com o que vi: cerca de cinco homens de uniforme azul royal no alto dos coqueiros.
Pensei logo: que bacana, a prefeitura poda as folhas secas dos coqueiros.
Poda?
Que nada, macacada…
Mutila.

A turma cortava, sem piedade, os brotos de coco, os cachos floridos, branquinhos e tão poéticos.
Eram dezenas, quase centenas, de cocos em produção sendo ceifados deste pobre verão.
Uns hão de dizer que é para proteger o povo que vai à praia.
Ora, bolas, quem passa debaixo de um coqueiro sabe que coco dá.
E a água vale o risco quando o sol é inclemente.

Pelo calçadão, a imagem do velório.
Algumas senhoras recolhiam galhos e flores para por eles orarem mais tarde.
E eu fiquei borocoxô.
Dia feio de gente má.

Nem Baudelaire aguentaria.

Os impossíveis

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Traje esporte fino para um trabalho de respeito

Nos jornais, uma polêmica.
Um publicitário-empresário usou espaço caro de uma coluna para fazer anúncio: precisa de cozinheira.
O colunista de política, indignado, criticou.
Segundo ele, o homem teceu loas à modernidade, mas ainda procura uma doméstica, profissão de país atrasado em pleno século passado.
A colunista vetusta, que já fez das suas nos anos 60 e 70, criticou os dois.
Doméstica assim como advogado ou médico é questão de vocação, defendeu.

Hoje fazemos muitas coisas ao mesmo tempo e, claro, não fazemos nada direito.
Tendo um pouco mais em caixa, terceirizamos – chique mesmo é outsourcing.
E eu aqui, exilada no trópico, vendo os braçais ralarem peles e pêlos por quase nada ainda fico de filosofia furada.
Abusada. Alienada. Absurda. Abnegada.

Ah, Deus do mundo moderno, fazei com que tenhamos um olho só e apontado para o umbigo.
Se o homem quer empregada, que queira e tenha.
Se empregada está em falta, que falte e acabe.
Se doméstica é profissão, que trabalhe e ganhe bem.
E ponto.

O que eu acho que deveria ser de direito – e nenhum partido me defende:
Viagem para lugares distantes.
Pausa todo ano por um longo tempo.
Poesia furada e poesia boa.
Prato de mil cousas.

Versão rural do meu escolhido do dia

Um bom copo.
Frutas carnudas e bem doces.
Uma casa com brisa do mar.
E uma senhora discussão.
Sem essa estória de empregada ou funcionária do lar.
Ou a gritaria de ocupe Wall Street.
Uma briga daquelas por mulher casada.
E sangue quente manchando um bom terno panamá.

Enquanto nada dá em nada, minha receita do dia, tem cheiro de baixo Gávea, de roupa cor de neon.

Meia de Seda
– 1/3 gin
– 1/3 creme de leite
– 1/3 licor de cacau
– 1 colher de sopa de açúcar (para as mocinhas)
– canela ou chocolate em pó para pulverizar.

Cirandinha

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

puxe a corda

Sair de esquadro.
Uma volta de carro e gritos histéricos de liberdade só para chegar em casa e sentir-me inteira novamente.
Gritos em silêncio.

Sentir o sol, o vento, ver os pelos muy eriçados.
Querer fugir de tudo o que me obriga. Como você.
Como todo mundo.
Fugir tendo os pés fincados no chão.
E, mesmo assim, voar.

Aceitar tudo o que não me cabe.
Não caber em mais nada.
Que serenidade é essa que me faz fugir do espelho?
Não ter mais aquela fome.
Aproveitar cada pequeno segundo que – ah, ironia – não cabe mais em um minuto.
Ser grande e saber que não sou nada.
Eu sei (?)

Despedir dos amados.
Levantar e seguir pela estrada. Só.
E desaprender a viver nessa solidão que um dia foi tão minha.

Uma segunda-feira.
Gosto de amora preta na boca.

…”solidão cuja forma final é um confronto com a própria mortalidade”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

amiga do peito

Aqui no único minuto de silêncio, espero pelo próximo da noite seguinte.

Essa invasão de corpo, de casa, de tudo o que me guardava em mim mexeu muito mais do que hormônios e do que toda essa história de “continuidade “.

Aqui nesse canto fugaz e soturno, meu rabicho de segurança se esvai.
E fico sentada com pernas cruzadas pensando em como me esconder debaixo da mesa.

Enquanto as alegrias falsas correm como rio que deságua em Tietês e Capibaribes, penso nas verdades que nunca ninguém quer ouvir.
Ou dizer.
Que tudo é apenas isso e que não há mágica ou momento eternizado.

A vida pequena nas coisas grandes, médias, minúsculas.
E os riachinhos que não terminam em lugar nenhum.
Água pura e cristalina sem sentido ou direção.

Nunca tive medo de escuro.
É o claro que me assombra.

Receita da Nonna para uma Sampa fria

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

vovola

Em uma xícara alta, coloque uma colher de sopa de doce de leite argentino.
Acrescente uma colher de sopa de canela. Se quiser, deixe cair pozinho nas bordas para ficar com ar de bacana.
Complete com leite integral fervido, espumante…

E seja feliz con el dulce de los hermanos, com a canela arrancada de uma árvore centenária na fazenda em Pará de Minas e com o leite que chega em caixa e que nem de longe tem gosto de leite de verdade.

Misture tudo e dê uma volta por aí com a pança superando 16kg.
Não há visual que ofusque esse momento desleixado.

Ande com calma pela primeira vez na vida.
Compre um balde para servir de banheira.
Aproveite a mãe que nunca tem tempo para te visitar.
Pense no pai que não vai poder ver nada disso.

E curta um frio manhoso na pequena maçã.
Esqueça do trabalho por uma tarde. Aqueça o coração e esqueça o MBA.

E o tempo começará a andar para trás…
Doce como La Plata e tudo o que é bom e que vem de lá e daqui.

Sapatos perdidos e coisas pequenas

sexta-feira, 22 de julho de 2011

pão australiano, manteiga goiana, bolo de milho de Gravatá, bolo de abacaxi da Carmen

Eu ando por aí e, vez ou outra, encontro um pé de sapato perdido pela rua.
O de hoje, de boneca tamanho 36, carmesim e em ótimas condições.
Procurei o outro par…
Nada.
O que terá acontecido a esta Cinderela?
Príncipe relapso… Nem para guardar e anunciar para o mundo que só se casará com a dona do rasteiro vermelhinho?

Enquanto pensava no pisante, passei o dia entre malas, confusões no cartão de crédito – essa viajação não me deixa tonta e detectei entre Apples, passeios e comidas uma rara contribuição para um site de relacionamento sueco.
Poxa, hacker bandido e descarado, eu jamais gastaria mi plata com louras suecas! Nem cervejas de falsas checas.

Minha mala verde que saiu de uma nevasca americana e aportou perdida em Dubai saiu do armário com livros, biquinis tamanho M-G, e uma saudade dessa casa que já não é a minha.
Numa rápida conversa com a empregada, novidades de lá.
Um técnico liga para avisar que mudou o ponto do telefone, da TV, da internet.
Um excesso de coisas ainda não guardadas.
E eu pensando em coisas mínimas sensacionais.
Cereja marrasquino, olhos azuis passeando no Leblon, minhas antigas moradas que hoje vivem na minha caixola.

Ouvindo o novo Chico, babando pela nova namorada. Ele é tão feliz com ela.
O dia voa – ela não acorda.
Nasci velha – o meu dia sempre voou – mesmo quando eu tinha cabelos vermelhos como o sapato da Cinderela.

Houston…

quarta-feira, 20 de julho de 2011

fuja dos cachorros

Aos poucos, a cidade grande fica mais perto.
E vou rindo baixinho dos deslumbres “maiores do mundo”.
O chinelo, a loja, a academia, a loja de tecidos…
A modéstia (ou o zelo pela verdade?) fazem com que alguns denominem o negócio de “um dos maiores do mundo”…
E tudo isso para se comparar com São Paulo.
Pois a lua é uma das mais bonitas do mundo.
Os raios de som entrando na janela.
A chuva quente.
As comidinhas locais.
A simpatia.
O centro, sujo, faz a gente se sentir mais próximo.
As sandálias, arrastadas, lembram que o tempo é outro. É tempo de viver.

E sábado vamos ver como será a volta ao meu mundo.