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Trottoir

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

No centro, ao lado de uma estação de ônibus, esbarrei de novo com o Itamar Assumpção.
Magro, cheio de dreads, cultuado ainda e nada maldito.
Maldito era o enrgético com uisque, depois com gim.
Maldita é a combinação com o celular.

O jazz.
O menino.
Os meninos.
E esta coisa de travesti – que, quem entende dos astros, dos seres do outro mundo, quem entende manda que eu anule, que eu pare, que eu não assuste.

Devo sair por aí de vestidinho rosa de lacinho.
E devo sorrir com biquinho.
E o mundo viverá tranquilo e eu apavorada.

O Jazz era nos Fundos mas o passeio foi na praça Roosevelt.
Os loucos, os bêbados, os tarados, toda a trupe reunida.
Eles comiam minha amiga com os olhos e eu, com minha corda de mulher maravilha, ia dando estaladas no chão para espantar tudo que é invisível e qualquer vampiro.

No restaurante escolhido, mojito.
Ceviche depois de duas esfirras de carne.
Ou 3?
E a promoção: dois Aperol Spritz dão direito à uma taça de vidro vagabunda.
E eu realmente preciso de uma taça de vidro.
Um sanduiche de grao de bico, um pacote de biscoito de gergelim.
Eu pensando: vai ser até bom, preciso de um quilinho a mais no momento.

Mas o maldito celular e a coragem estúpida dos bêbados.
Se era para fazer tanta besteira usando a ponta dos dedos e uma tela de cristal, melhor teria sido ter subido no palco e ter cantado “Código de acesso”.

Academia

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Ontem voltei a malhar.
Peguei leve: duas aulinhas de mocinha.
Alongamento com as vovós e localizada com aquelas que um dia juram que vão ter bumbum empinado.
Fui na hora do almoço.
Fui de bike.
Já saí pronta, de malha, para não perder muito tempo.
Olhei para o meu corpo no espelho.
Há dois meses, parei de correr e de fazer toda e qualquer atividade física.

O corpo é algo espetacular.
Olhei para minhas colegas – malhadoras de plantão.
E eu lá: a anti-academia em Pessoa Ana.
Eu com minha malha de dez anos atrás.
Body de yoga de algodão com elastano. Pochete de neoprene velha.
Elas todas uniformizadas – o que é legal. Olhei os tênis da moda: coloridos.
Os tons de turquesa.
Os tecidos tecnológicos que vestem bem e secam rápido.

E eu.
Meu pernão de Romário campeão de 1994.
Meu tríceps saltadão de ashtanga.
Minha saboneteira que carrega um sabonete Granado de um lado e flûte à champagne no outro.
Minha barriga – que é uma barriga. Nem inha nem ão. Ela não faz feio.
Pensei nas estrias: minhas listras que amo e que adquiri num estirão de crescimento, muito antes de ser mãe.
Lembrei da colega maldosa em Cuba me perguntando o que eram estas cicatrizes e eu, com um bikini minúsculo, explicando que são fruto da destruição de fibras elásticas e colágenas na pele.
Fruto do crescimento. É o corpo dizendo que quem manda é ele.
E eu tinha um corpo sarado quando a maldosa tentou achar um defeito na piscina olímpica do Fidel.
Eu me diverti – este tipo de jogo feminino nunca me pega na curva.

As minhas estrias são alinhadas e grandes, 4 ao todo – duas de cada lado.
As do meu irmão são iguais.
Olhei minhas ancas largas, ossudas, e minha bunda inexistente.
Tem gente que tem barriga chapada, eu tenho bumbum reto.

E minha força de Bruce Lee.
As colegas levantando 2,5kg, pegando anilha de 5kg para colocar na barra.
E eu testando 2,5; 5, 7, 10kg.
Eu sou forte para caramba.
Sempre fui.

Não vou me esquecer daquele reveillon na pós-adolescência em que o cara pegou 3 vezes no meu braço para conferir o músculo.
Na época eu fazia karatê.
Olhei para ele e fiz: “-Bu!”.
Ele se apaixonou e começou o ano novo segurando nos meus dois braços.
Não largou do meu tríceps nem um segundo.

Olhei para o espelho e gostei do que vi.
Este corpo tem história.
Não é feio.
Não é capa de revista de malhação.
Mas ele é meu e está lá, inteiro, apesar do meu descuido.

Vi meus braços fortes.
Olhei minha canela mais fina do que o normal – mas as coxas grandes.
Dei um sorriso para mim mesma.
Eu sorrio com todos os dentes.
Em volta da minha boca, nas laterais, surgem umas dobras bonitas.

Pensei comigo: como é bom ter 40 anos.

Depois do inverno,

quarta-feira, 17 de julho de 2013

a primavera.

Minha cabeça aqui e os pés para o ar.
Correndo nas horas erradas – o que faço de melhor.

(Minhas primaveras)

Gritando pelas ruas.
Lendo o povo cheio de opinião.
Feliz por um Brasil errado e tão encantado.

(Nikes, Eikes, Lulas, Fernandos e outros quetais)

Pensando de verdade em uma praia no fim do ano.
Em sangue.
Em ferro em brasa.
Em dinheiro caindo do céu.

Velocidade de cruzeiro.
Libertadores da América.

A cuca pode fundir.
Confundindo tudo.
E todos.

De pernas para o ar.
Num inverno que não se encontrou.

Em mim.

Garota Bossa-Nova

terça-feira, 2 de julho de 2013

Domingo, eu vou ao Maracanã

O Brasil em revista me agradou.
Fui à final de futebol de negro.
Sim, menos por protesto, mais porque gosto deste modo.
Não, não vi a confusão e a violência que tomaram os arredores do Maracanã.
O gás de pimenta, a bala de borracha, a casa cercada por 300 pobres policiais paus-mandados.

Naquele dia, não deixei as bandeiras de lado e levei meu filho em seu primeiro jogo de futebol.
Tomei cerveja.
Xinguei o juiz.
Fiquei com pena da Shakira.
Urrei o nome de David Luiz, aquele que tem tipo de argentino.

A segunda-feira chegou.
Peguei meu vôo na chuva.
Comecei quase que de ré.
Voltar a ser mais uma no meio da multidão que não é festiva.
O protesto dos caminhoneiros.
O depoimento direto de Hélio Bicudo sobre o bolsa-família.
Os vereadores de São Paulo que pensam que nos enganam criando uma CPI do transporte público.
O Luciano Huck.

No calor dos acontecimentos, quis me lançar vereadora.
Pelo bundalelê criativo.
Pelo grito de desabafo.
Pelo respeito à opinião alheia e do alheio.
Pelo apartidarismo, ainda que sem anarquismo.

Pão e vinho – lembram-se do Romanée-Conti, amigos?
Porque o momento é bom para desabafos e um porre daqueles.
O futuro?
Que chegue em pleno carnaval de Olinda.
Num dia de sol.
Numa sexta-feira.

Tanto riso

domingo, 9 de junho de 2013

un goût bizarre

Sou acordada às 5h30 e não há muito o que fazer.
Visto a roupa de ontem, do show que não fui, e saio.
Passa por mim um carro – anda devagar e tem som alto.
De repente, correndo e tropeçando no asfalto, um rapaz.
Tutu verde no pescoço, maquiagem que brilha no escuro.
Nariz verde limão, olheiras brancas, terceiro olho vemelho
Corre e tropeça sem perder a graça de palhaço amador.
Sabe-se lá de onde veio, mas sei para onde vai: para o colo da mamãe.

Depois de um café bem amargo, saio de carro por uma São Paulo ensolarada e (sempre fria).
As ruas – vazias – adaptadas para receber bicicletas de gente que acorda bem tarde no domingo.

Vejo a capa das revistas.
A violência tomou conta.
A crise.
A falta de graça.

Voltando para casa, um bando de adolescentes faz algazarra.
Virar a noite tem gosto de picolé de uva sabor cabo de guarda-chuva.

Eu tenho inveja de palhaço.

Suor

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sem destino

Adoro gente afobada.
Esbaforida.
Sem reflexão.
Sem medo.

Gente que corre sem porquê.
Gente alucinada.

Por que os tempos mudaram e o romantismo acabou.
Hoje me arrebata quem faz tudo sem pensar.
E mesmo errando muito, acerta bonito.
Poucas vezes.

Adoro loucos, arrependidos, passionais, desinibidos.
Vibro com a criação da personagem.
Com a encenação do dia-a-dia.
Com a semana com cara de fim de semana perdido.

Amo os esquerdos.
Eu não penso em amanhã.

Alma

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Nasci assim, abusada.
Alma de artista penada.
Artista incompreendida, bien sûr.
Imagina subir em qualquer palco ou banco de praça?
Seria avesso ao verso.
Seria arte qualquer.

Criada para ser capitalista, virei uma coisa bizarra.
Dual.
Partida e juntada.

Grito em público.
Falo alto (se quero).
Em geral sou discreta.
Mas vista.

Quando não vejo, provoquei a confusão.
Sou assim.
Alma de artista criada para ser capitalista.

Um problema sem fim.

(Arte de ser o que se é.
De se fazer assim, apesar de.)

de volta a ativa

Vapor

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ando pensando muito e escrevendo na cabeça.
Saem uns textos bonitos e sem a menor revisão.
Aí me esqueço daqui e fico flanando no ar.

A estilista morta – tão bonita, tão trágica.
Os meninos ricos da internet.
As lutas televisionadas.
As empregadas.
Fica tudo assim tão século passado.

Tenho achado todos muito impacientes.
Todos correndo.
Todos atrasados.
Uma agressividade pulsante.
Uma necessidade de gritos.

Estou no olho do furacão e gosto.
Sou feliz.
Aqui não há som.
Só imagem.

Casa nova que vai subindo.
Dinheiro, como sempre, escoando rua abaixo.
Viagens.
Cartões.
Chocolate.
E bastante vinho.
Agora com direito a corrida, personal trainer.
Cabelo louro.
Cortado louco.

Vapor.
Ando rindo de tudo.
Ando calma.
Será o outono ou a primavera?

anti-ruido

Quebre o vidro

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Ano novo, todo mundo resolve ficar bonzinho, fazer regime, parar de comer doces…
Por aqui, agora na terra da ponte estaiada, antes desbundadada em um posto qualquer, comecei enchendo a cara, andando de bicicleta em zig zag e curtindo o novo ano na maior ressaca.
O dia “um” pode dizer muito sobre os 364 que restam (ou 356 se você é purista).
Depois, estrada, São Paulo, poeira de casa, lar.
E trabalho.
Tudo o que não foi combinado vem fazendo o (meu) mundo entrar nos eixos.
Nesta pausa para o café, uma dívida – que não é promessa -: tentar escrever um pouquinho mais.
Em tempos de bandidos menores de idade que matam com pistola tamanho mini, em tempos em que grávidas são baleadas sem dó, há que se navegar sem medo.
Se for para doer, passe a navalha devagar.
Se não for, fique mais um pouquinho.
2013 é uma sopa de números tão bonitinhos.
Se você não ganhou os tais 81 milhões (já descontados os impostos), faça como eu: vá de classe econômica, mas estenda um lencinho de seda no assento.
E caminhe sem olhar para trás.

Serpente

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Para celebrar 2013 que, segundo os chineses, começa oficialmente em 13 de fevereiro…
Curvas, elipses, rugas.
Porque ter mais de 30 é perder as vergonhas.
É sentir tudo direto na veia.
E cair quantas vezes se fizer necessário para provar o seu ponto.
E provar outras cositas más.
Ah…

“Cuando estés bien en la vía,
sin rumbo, desesperao…
Cuando no tengas ni fe,
ni yerba de ayer (…)”
Gardel

me permiti uma foto ridícula (mais do que as outras)