Arquivo da Categoria ‘Escapada’

O peixe morre pela boca

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Tempos modernos.
Você que lê aqui o que acontece numa vidinha comum, discuta o caso: bandido tira foto coberto por nota de 100 reais e é preso acusado de participar de roubo a carro forte.
Pai esquece filha dentro do carro e publica no Facebook carta dizendo-se culpado pela morte da criança.
Jogador (?) Adriano diz a jornalista que não está acabado e que só na (favela) Vila Cruzeiro sente-se “gente”.
Garota brasileira é estrela (?) do programa australiano ‘Virgins Wanted’, responsável pelo leilão da virgindade dela.

Hoje em dia, tudo é público.
Tudo é gritado, arremessado contra a multidão.
Não importa quão bizarro, quão íntimo ou estritamente privado.
O negócio é ser publicado.
Jogado ao povo e escancarado.

O que me estranha é a politicagem que nunca vê nada.
Nem as penas do povo do mensalão…
Nem isto nem aquilo.

Uns querendo vender a alma ao diabo da internet e outros concorrendo ao Oscar…

Fato

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

(farpas)

Vagando pelas ruas cheias,
minha alma procura frestas.

Um ser antes rotundo, iluminado.
Hoje pálido, sem curvas, encurvado.
Sem tempo ou relógio.
Sem fé.
Pura farpa.

Com a voz rouca.
Cabelos cuidadosamente arrumados.
Vagando com a agenda cheia.
Pelas ruas escuras.

Minha alma é só.

AZT

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não era agito?
Agito a praga que me afligia?
Pois eu aqui, equilibrada, tendo que me metamorfosear.
Equilibrista.
Passadeira.
Diarista.
Trabalho.
Viagem.
E casa.
Casa e contas.
Carro.
Gasolina.
Radiador.
Procuro AZT para o meu gato.
Fato.
Ontem a gatinha preta doou sangue.
Trabalhei, fiz reunião, passei no colégio, reclamei desta correria.
Aproveitei um fiapo de sol.
Comi bomba calórica da padaria.
E nada, nada mesmo
de AZT para o meu gato.
De noite, transfusão.
Na clínica, no hospital todos riem quando ouvem seu nome.
Leleco.
Eu fico indignada.
Confundirem personagem de novela com o um clássico de Nelson Rodrigues.
E não é que ele voltou quase bom?
Mas (ainda) falta o AZT.

São Paulo vista de dentro

quinta-feira, 21 de junho de 2012

também chove

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.



Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte.

Fernando Pessoa

Não

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Eu não

Definitivamente não tinha medo.
Quanto mais alto o andar, mais tinha vontade de pular.
E coração sempre batia acelerado.
Algumas vezes, ficava tonta.
Por não ter medo vivia cheia de hematomas.
Cicatrizes.
Pontos.
As pernas, tão bonitas, tinham marcas de alto a baixo.
E falava alto.
Sempre.
Para ser ouvida.

Achava estranho não ter morrido como os mártires, aos 27.
A velhice ia chegando e ela estava de pé.
O medo, talvez, fosse a própria morte.

Capítulo 27: alô

quinta-feira, 14 de junho de 2012

holla, que tal

E ela atendeu o telefone.
Seguiu as instruções, não discutiu a proposta, fez o que seu mestre mandou.

(fez o jogo e se calou)

Sua vida então mudou.
Não voltou mais ao velho apartamento.
Hoje vive num vão livre brutalista.
Tem 4 escudeiras fiéis e bem pagas.
Na decoração, poucos objetos.
Usa roupas simples.
Viaja menos e com mais emoção.

Sorri – com e sem motivo.

O tal telefonema?
Ah… Pergunte para o Snoopy.

Capítulo 26 – Resgate

terça-feira, 12 de junho de 2012

Par

A correspondência foi sendo jogada por debaixo da porta até que um bolo de papéis travou a entrada.
O porteiro, então, começou a fazer pilhas de cartas ao lado da porta de entrada.
O vizinho da frente não gostou, mas não teve ânimo para reclamar da nova “decoração” do hall.
Ele passava dias e noites acordado.
Quase não comia.
Olhava para a foto da musa tão viva que nem parecia que, hoje, é morta.
Engraçado é que, improdutivo, sentia menos angústia.
Não tinha vontade de consumir.
As compras de supermercado – pensadas para durar uma semana – já duravam 8 semanas.
2 meses trancado dentro de casa.
A porta da área, aberta desde que Rita surtou e foi embora.
Rita, a diarista.
Não pagou a luz e não precisava mesmo de luz.
Tomava um banho frio quando sentia vontade.
A conta do condomínio.
Seria débito automático?
Não se lembrava e nem sabia quando ainda teria no banco.
A estante estava repleta de livros com belas capas, autores consagrados, coisa ou outra pop para combinar com a decoração…
Livros mortos.
Ele então escolhia 15, 20.
Lia todos de uma vez.
Um parágrafo de cada um.
E ia construindo novas estórias.
Costurando narrativas.
Via o sol nascer da janela.
Ouvia o barulho dos ônibus lá fora.
E lia, lia, lia.
Quando se entediava, passava horas olhando para aquele par de seios perfeitos.
Seios de diva morta.

Semana 1

segunda-feira, 11 de junho de 2012

segunda com chuva?

E a semana começa com um belo pé d’água.
Para derreter o gelo, limpar a alma e te lembrar que um escritório pode ser um bom lugar.
Imagine ficar em casa de pijama e meia grossa, enquanto a turma da faxina conjetura sobre seus hábitos e obrigações.
No escritório, um bom café de máquina pode ser a salvação.
Uma conversa de corredor, um resolver tudo de uma vez porque hoje não tem sol lá fora (mesmo que você fique numa baia distante da janela).

E aí me lembro de correr na chuva com calor.
No início, você e alguns incautos.
Depois, você e você.
Ninguém.

O tênis, encharcado, fazendo barulhos estranhos.
A roupa, antes fria, agora ensopada com um líquido meio morno: chuva, suor e seu corpo trabalhando duro para manter a temperatura.
Alguns passarinhos escondidos nos galhos das árvores.
As avenidas engarrafadas.

Os pés mantém um ritmo bom para que o corpo não entre em choque.
A semana começa com um único objetivo: ducha quente.
Depois os carros, o caminho, o trabalho, o café de máquina.

Bom (re)começo.

Água em marte

terça-feira, 29 de maio de 2012

Procura-se abrigo

Encontraram água em Marte?
Se eu usar um escafandro moderno posso respirar?

Essa sensação que me voltou hoje surgiu pela primeira vez em 2001.
Depois de um período vivendo em Cuba, cheguei em São Paulo e fiquei catatônica em frente a uma prateleira de supermercado.
Juro que pensei em consultar um psiquiatra.
Era pós-Torres de Nova York, era pós-Cuba dos anos 50 corrompida até os ossos, era um momento em São Paulo frenética, desorientada, era necessidade de pagar aluguel.

Hoje fiquei com vontade de escrever para sir Richard Branson criar logo uma rota TERRA-MARTE.
Eu venderia a alma para me exilar em outro planeta.
Levaria umas mudas de roupa, o filho, umas fotos em papel.

Hoje, estupidamente, abri um vídeo enviado por ativistas sírios.
O vídeo não tem nem 10 segundos.
E mostra as crianças mortas, com tiros enormes, do tamanho de uma nação.
Os adultos sacudindo aqueles trapos sem vida, gritando por não ter pátria, por não ter fé.
Todos, eu e meus problemas tão pequenos e tão duros incluídos, precisando fugir da Terra.

Um governo que manda matar velhos, mulheres, crianças.
Gente escolhida ao acaso.
Efeito colateral de um líder covarde e violento, de um mundo perdido, de um desesperançado século XXI.

Por aqui, ex-presidente tão bandido quando qualquer anterior.
Um corrompido cheio de soberba – como aquele de lá, por que não?
Ex-ministro defensor de bicheiro assassino em troca de 15 milhões de reais que ninguém sabe (mas todo mundo desconfia) de onde saíram.
Repórter que recebia benesses de bicheiro
Ministro encontrando com ex-presidente lobista querendo atrasar julgamento dos ladrões da pátria.
Por aqui, vizinho que quer dar golpe em condomínio.
Gente que mente na sua carta.

Por aqui, tudo reduzido a um salve-se quem puder.

Ontem brinquei em rede social: “Meu pirão primeiro! É muita marmelada…”
Brincadeira de péssimo gosto.
Quero ir embora.
Para muito muito muito longe.