
Felicidade com a desgraça alheia! Só mesmo os alemães para inventarem esta palavra que não tem correspondente em português.
De onde venho, ela poderia facilmente significar “mineiro”. Eu demorei anos para notar que não era natural o gosto e a energia com que meus conterrâneos gastavam horas a falar dos insucessos alheios. Deixando as generalizações de lado, schadenfreude é um traço quase que cultural de vários da minha terra. Isso não é da minha natureza, mas já fui contaminada em alguns momentos. No lugar de comemorar o sucesso dos outros, celebrar o insucesso – contando a história em detalhes, perdendo horas com isso.
Hoje estou “curada”. E confesso ter um bode danado de quando vou à terra Natal e ouço em família ou entre amigos essa espécie de celebração da desgraça dos outros.
Mas descobri a palavra brilhante ao ler justamente sobre um suíço (pensei que fosse francês) de sucesso. Em matéria ontem na Folha, o destaque era o livro de Alain de Botton: “Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho”.
Segundo a reportagem, uma pesada crítica no “The New York Times” levou o autor a escrever no blog do jornalista Caleb Crain uma resposta que terminava com a seguinte frase:
“Odiarei você até minha morte. Observarei você com interesse e schadenfreude” .
Em entrevista o autor riu do episódio. “Não me arrependo das palavras, mas sim de ter respondido pela internet; ficou público. Em outro tempo, o encontraria numa festa e diria “você é um idiota”. Ninguém saberia.”
Pois é. Um blog é isso. Muito do que é escrito antes era só falado ou pensado. Mas agora as palavras ficam gravadas feito tatuagem. E usadas ao bel prazer de quem tem acesso. E os signficados são muitos. Me lembro de uma prova de Direito Civil em que escrevi uma resposta enorme totalmente errada. Mas escrevi tão bem que tirei total na resposta – embora o que quisesse dizer fosse exatamente o contrário do que o que o professor esperava. Jogo de palavras. Eu disse uma coisa, ele entendeu outra. E nota 10.
Sobre o livro do suíço, ele tira conclusões da pesada:
- Dinheiro é uma forma de amor. Não adianta alguém dizer “gosto muito de você”. Apenas quando você ouve “ok, vou lhe pagar 1 milhão de libras” você sente que é (um profissional) necessário.
- É impossível passar pela vida profissional sem pelo menos uma série de insatisfações, questionamentos e crises.
- O capitalismo moderno sugere que os seres humanos são apenas commodities, mercadorias que se pega e pelas quais se paga um preço. (…) Você contrata uma pessoa inteira, não apenas um cérebro ou um braço. Isso precisa ser reconhecido pelos capitalistas.
Pego essa última frase como gancho. O que são as pessoas? Um cérebro que anda? Uma metamorfose? Merecem ser julgadas por tudo o que fizeram no passado. Não há redenção?
Saio do tema emprego e vou para o caso Nelsinho Piquet. Se vc tivesse a idade dele e estivesse vivendo toda essa pressão causada:
1) Por sua inexperiência de vida e trabalho;
2) Por seu chefe que vem a ser também seu empresário.
Aliás, post bom sobre isso que indico, embora não concorde: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3990385-EI8210,00-Piquet+e+o+circo.html
O que você faria?
Ora, raríssimos teriam coragem de enfrentar Briatore ou qualquer outro capo. Afinal, é uma batidinha numa corrida. Você não está matando, mas está roubando, certo? Roubando o pódio de outra pessoa, conseguindo vantagens indevidas.
Mas quantas vezes isso acontece? Quando a companhia aérea esquece de te cobrar aquela taxa absurda, você paga? E o Banco? Se ele erra na taxa para menos, você manda corrigir e paga?
Olha, atire a primeira pedra quem não teve 20 anos, não se viu sob pressão e fez uma burrada. Ainda que seja uma burrada pequena.
Mas o julgamento é que mata.
E o que se faz desse limão é que determina quem você vai ser.
Num dos primeiros acidentes da Tam, pude ver o Comandante Rolim em ação.
Um avião havia caído sobre um bairro residencial em SP logo após decolar.
Imagine isso numa época em aviões não caiam como hoje e em que Administração de Crise era pagar conta atrasada no banco.
Calmo, o Comandante Rolim chamou a imprensa. Nas mãos, uma lista.
Era a lista de passageiros.
Disse que era uma tragédia. Que ele ainda estava em choque. Que a lista – e cópias foram distribuídas para a imprensa – ainda estava sendo conferida. E pedia aos jornalistas que fizessem um pacto: 24h sem divulgar os nomes. Pois a empresa tinha primeiro que comunicar o ocorrido às famílias.
Nós ficamos sem ação. O que fazer?
A culpa era de quem?
Naquele momento, não interessava. Tínhamos os nomes das vítimas, mas não poderíamos passar na frente da dor das famílias.
E ele acabou com nossa sede de sangue.
Não dava para sair acusando a Tam, o piloto, o engenheiro. Tínhamos que esperar, afinal o DONO da empresa estava ali, disponível, mas ainda não tinha respostas.
Enfim, não culpo Nelsinho e acho que ele é filho do Pai. Que eu adoro: louco, ousado, que fala o que vem à cabeça e dane-se o mundo.
E tento com força não julgar os outros pelo passado. Se erramos no passado, é possível que tenhamos aprendido mais do que os que “nunca” erraram.