Arquivo de outubro de 2009

Da minha natureza

sábado, 31 de outubro de 2009

picole

Quem diria que teríamos um sábado de sol daqueles de se jogar e ficar lagarteando na grama… Delícia.

Pintei minhas unhas de laranja para combinar com o clima. Nosso editorial da revista vem com “pink flamingos” de 1,5 m feitos de acrílico. Peguei dois e trouxe para casa. São chiques e divertidos ao mesmo tempo.

Aliás, estamos em pleno fechamento da última edição do ano. Desta vez foi pesado para a produção. Criar um clima de verão em meio às chuvas de outubro. Para mim, é “pesque e pague”.
Essa onda do FLÚO (nosso velho e conhecido neon) é diferente: tem algo de brega, muito de alegre e uma pitada de cor forte que te joga para cima. Eu, branca de leite, chegada num preto, estou hipnotizada por minhas unhas fluo-laranja. Engraçado como o calor muda tudo: até o corpo muda.

No francês, suave e sonhando com a volta a uma Paris de menina, pesquei duas rimas probres que me encantaram. Bonitas se lidas na língua de Bardot.

Je veux te voir des etoiles dans les yeux. Je vous invite à entrer dans la ronde!

Seguindo a deixa de que a maldade anda muito na cabeça das pessoas, twittei. Não passou um minuto e recebi um comentário obsceno de um desconhecido. Reli. Tem algo de devasso nas frases – se você fizer uma tradução tabajara muito ao pé da letra. Mas o convite é para a discussão. Dei uma resposta engraçada-ferina e bloqueei o cara. Abusado.

Penso nos que vivem em cidades cinzas. Que melancolia.
A São Paulo que habito é meio carioca. Vila Madalena. A São Paulo onde trabalho é Manhattan tupiniquim.
Minha empresa – que agora estou começando a gostar, será síndrome de Estocolmo? – tem cores. Fala multilínguas: gauchês, carioca, paulista, espanhol de todo lado (Colômbia, Peru, México), inglês. É pink flamingo.

Sobre música. Tirando meu compositor preferido de todas as horas, meu companheiro das tardes sem trabalho – quando as madrugadas eram intensas e caretas de jornalismo ao pé da letra -, Eric Alfred Leslie Satie, tenho ouvido muito Michael Jackson. Tão diferentes, não? Um morreu deixando centenas de guarda-chuvas no apartamento. E o outro morreu, eu creio, porque em vida, andava estragando a própria obra. Agora que é um poeta morto, voltou a ter força, voltou a ser grande. E ele é muito bom.
Ambos detestavam o sol.
Eram muito excêntricos. Satie só comia comidas brancas. Ovo, nabo, leite. E se alguém tiver um exemplar de Mémoires d’um Amnésique, eu compro! De verdade. Voltando ao Michael, minha música preferida foi interpretada pelo guitarrista mais metido (e qual não é?) e que tenho ouvido muito desde o ano passado. Bela combinação.

O engraçado é que procurei o vídeo no YouTube e o menos pior (sem narração) foi o da Globo. Pedala MTV, pedala Record!

Bom, sábado de sol. Música. Aproveitem.

E para não dizer que meu coração ficou quentinho, dou adeus com uma palavrinha bem interessante. Em inglês é asséptica, quase boba. Notei a sutileza ontem, na segunda garrafa.

Wanton.

Devassa, não a que – de tempos em tempos – fazem nas contas de políticos e empresários – e não dá em nada.

Dicionário (Google/Tabajara):

substantivo
  1. criança alegre
  2. devasso
  3. libertino
verbo
  1. agir ousadamente
adjetivo
  1. abundante
  2. arbitrário
  3. brincalhão
  4. deliberado
  5. injustificado
  6. intencional
  7. lascivo
  8. lânguido
  9. luxuriante
  10. malicioso
  11. pródigo
  12. sensual
  13. travesso
  14. atrevido
  15. temerário

Que palavra boa. Abundante de significados. Uma aura meio malandra. Mas que não afasta ninguém. Ciao.

Pana

sábado, 31 de outubro de 2009

Meu irmão veio me visitar. Morro de saudades.
Quando saí de casa, tinha 20 anos.
Ele, 16.
Dos meus 17 aos 20, fomos bem amigos.
Eu dei de Natal para ele uma caixa de CD do Led Zeppelin. Ele tinha 13.
A trilha nessa época: The Ocean.
Ensinei a fazer muita coisa errada.
Levei para festas incríveis.
Ele ficou cabeludo.
Eu fui embora.
Hoje, vejo esse moço bonito. Genioso e gente-boa.
Morro de saudades.
Tomamos mil tequilas, algumas cervejas “ruivas” e celebramos el día de los muertos comme il fault!
Com fotos para Michael Jackson. Frijoles negros.
Dulces de calaveras.
Twittei inconfidências.
Apaguei tudo hoje.
(que feio)
Saudades da casa velha.

Não me mudo nem para Colômbia nem para o México.
Nessa vida de cigana, há que se ter objetivos.

Tem fogo?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

panda-matches

Até agora a yoga é um projeto. Será que farei só uma vez por ano?
Eu tenho pensado muito sobre mudanças.

Qual é a mola propulsora dessas guinadas que nos viram do avesso?
Um gesto? Uma palavra? Uma situação? Um devaneio impensado?

Depois da minha amiga Guta, e da Dedé Sendyk, eu sou a pessoa que mais viaja nesse pedaço. Quer checar? Vá no mapa do lado direito do blog e clique. Estão ali as viagens que fiz de janeiro até agora.

Então, seguindo esta lógica, uma viagem não é desculpa para acionar uma mudança na vida.
Ainda mais uma viagem que é um repeteco constante.
Porém, minha última viagem transformou-se em algo que ainda não sei explicar. Só sinto que, ao atravessar o saguão do JFK e pegar o yellow cab, algo aconteceu.

Indo fundo – Mito de Pandora

* se vc já conhece a história, pule para o próximo tópico.

Segundo a mitologia, a Terra era sombria e sem vida. Os deuses começaram a dar vida e pôr cada coisa em seu lugar. Mas faltava um animal nobre que pudesse servir de recipiente para um espírito. A tarefa coube aos titãs Epimeteu (aquele que reflete tardiamente) e Prometeu (aquele que prevê).

Epimeteu criou os animais. Prometeu pegou terra e molhou com a água de um rio, obtendo argila. Com ela moldou um ser – ainda sem vida. Esse ser ganhou todas as boas características do animais, mas ainda faltava algo. Prometeu tinha amizade com uma deusa, Atená, que deu ao homem o espírito que lhe faltava.

Após ter destruído o próprio pai, Zeus voltou as atenções para a humanidade recém-criada e dela cobrava devoção, sacrifícios em troca de proteção. Em defesa do homem, Prometeu e Epimeteu foram a Mecone (na Grécia). Eles mataram um belo e imenso touro, partiram-no ao meio e pediram para que os deuses do Olimpo escolhessem uma das partes; a outra caberia aos humanos. O maior monte tinha apenas ossos e sebo. Com soberba, Zeus escolheu o monte maior e, ao descobrir que tinha sido enganado, decidiu vingar-se negando à humanidade o último dos dons que necessitavam para se manterem vivos: o fogo.

Com o objetivo de salvar sua criação, Prometeu roubou uma centelha de fogo celeste e entregou aos homens. Zeus decidiu se vingar. Aprisionou Prometeu na parede de um penhasco e suas vísceras eram comidas pelas aves de rapina. Como era imortal, a tortura se repetia todos os dias.
Antes de ser aprisionado, Prometeu deixou uma caixa com Epimeteu. E pediu que não deixasse ninguém se aproximar dela.

Para se vingar do homem, Zeus criou a mulher que recebeu qualidades de cada um dos deuses. Seu nome: Pandora. Zeus a enviou de presente para Epimeteu.

Ela o seduziu e Epimeteu caiu em um sono profundo. Pandora abriu a caixa e libertou quase todos os males que estavam lá. Amedrontada, Pandora fechou a caixa. Dentro dela ficou o último e mais importante mal: o que destrói a esperança.

Voltando ao universo particular

Nós mulheres somos amaldiçoadas pela mitologia, pelas religiões.
Por isso mesmo somos endemoniadas por natureza.
Não se aproxime. Risos.

Abrir a caixa de pandora, como se sabe, é liberar os demônios.
A psicanálise, a filosofia, a teologia têm explicações menos toscas do que as minhas.
Mas o fato é que havia uma caixinha de fósforos da marca Pandora em NYC.
E eu queimei vários fósforos.
(Acho que meus demônios de verdade foram libertados algum tempo atrás, quando decidi que iria fazer tudo errado e me jogar na atividade que me dá prazer: remar contra a maré e ainda ser establishment)
Eu entrei no avião cansada e cheia de pepinos para resolver e voltei muito plugada e com tuuuuudo resolvido.
E me atirei numa série de ondas agitadas sem medo.
Que sou meio shock and run, sou. Mas minha origem me segura. Sou das Geraes.

O fato é que tem muita coisa (boa) acontecendo.
Tô limpando a área. Tirando o(s) macaco(s) do ombro.
Dando um boot no HD.
Tirando os aplicativos que não uso.

E o processo – que tem leves baixos e muitos altos (!) – está bacana.
E eu estou me (re)encontrando. E descobrindo que não sou mais a mesma.

Uau.
Que demônios eu libertei?

Bilhete a Baudelaire

Foto criada em 2009-10-29 às 10.47 #2

Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!
(Vinícius de Moraes)

O sabiá e Hamlet

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

“…brevity is the soul of wit,
Though this be madness, yet there is method in ‘t.
There is nothing either good or bad but thinking makes it so.”

dali

Homens versus mulheres.
Na minha longa lista de defeitos, eu tenho um da pesada: sou totalmente pró-mulheres e detesto as mulheres.
Na Guerra dos Sexos, eu sempre torci para o Otávio. Desde a abertura.
Mas a gente não vive sem eles.
Mesmo que eu saia de casa vestida de mocinho – com minha superpreferida e cool jacketa de motoqueiro.
Me achando um ser autosuficiente. Vestindo minha persona nova que estou amando enlouquecidamente. (amo meu sobrenome)

Sobre elas, não adianta: elas vencerão. E as defendo enquanto gênero.
Nesse mundo multiplataformas, quem consegue assoviar, chupar cana, twittar, encher o saco do cara, telefonar e ainda pagar a conta atrasada pela internet – tudo ao mesmo tempo?
Talvez por isso eu queira virar um (a) hermafrodita evoluído (a). Rárárárárá.

Agora “enquanto pessoa a nível de ser humano” (taí o Shakespeare do cerrado, com erro e tudo), as mulheres são umas chatas.
Cerebrais. Faladeiras. Implicantes. Invejosas. Exigentes.
A gente vê pêlo em ovo a toda hora.
A gente faz beicinho para o mané carregar a mala, a caixa pesada, para comprar a bolsinha Hermès de 40 mil USD.
A gente acha que sabe tudo.
Chaaaaaatas.

Mas o motivo desse post é sórdido.
Hoje, fazendo minha esteira, liguei a TV e estava lá minha musa: Oprah.
(Pode detonar: Oprah é a única mulher que me encanta de verdade. Se ela pedir, eu deito no chão e me finjo de morta. Rolo e dou a patinha.)
Oprah entrevistava uma loura típica americana que teve um caso durante 4 anos, dos 20 aos 24.
Um caso com o…

PAI.

A história é complicada e não vou entrar nos detalhes.
Sei que, durante uma eternidade fiquei vidrada na telinha.
O pai pastor que abandonou a filha.
O primeiro beijo.
Sexo na casa da avó.
Fiquei com os olhos marejados.
Tropecei na esteira umas dez vezes.
Quis matar o cara.
Espancar a platéia.
10 km.
O coração disparado.Ácido lático bombando. Tudo doendo.

E o fim do programa? A moça não fala com o pai há dez anos.
Mas escreveu um livro.
E diz que ainda o ama. E odeia ao mesmo tempo.

E surreal é levar o tamanduá bandeira para dar uma voltinha no metrô de Paris.

Outro assunto na mesma vibe
Eu sou sócia-investidora minoritária de uma empresa de marketing digital.
Quatro caras e eu.
Tem duas semanas que a gente se estranha com polidez.sabia
Afinal, a gente não fala a mesma língua. Definitivamente.
Mas vamos ficar ricos e louros – tenho certeza.

Mais uma virada
Se posso fazer uma crítica aos rapazes , permitam-me.
A gente experimenta mais do que vocês.
A gente vai mais longe.
Vocês, com essa síndrome do “macho alfa dominante” são só não-me-toques.
Bobos. Não sabem o que estão perdendo.

Mulheres e homens.
Que bichos estranhos.
Se eu pudesse escolher.
Seria um sabiá.
Gordo e laranja.
Comendo coquinho vermelho na Vila Madalena.

ACINTE

terça-feira, 27 de outubro de 2009

itiswhatitis

Estava demorando. Esse blog aprontou mais uma.
Depois de contar umas boas do nosso passado em post antigo, uma “amiga” ficou encrencada. Relacionamento abalado.
Os bastidores deram pano para a manga.
Confesso: não era a intenção, pelo contrário. Mas palavras ganham vida própria. Eu me responsabilizo. Eu aceito a culpa por contar o que aconteceu em dias incríveis.
E ela também blogou minha vida.
E errou em todas… Da minha suposta crise de relacionamento passando por outros temas espinhosos.
Eu confesso mais uma vez: adorei tudo o que ela escreveu. Mesmo tendo viajado.
Hoje recebo um email do tipo “não nego nada, mas vivemos mais coisas (?) do o que você contou. E isso abalou meu relacionamento e blablablá”.
E o namorido, uma flor de formosura portuguesa, ficou indignado com a mulher “exposta” no mundo digital.
Vem cá: a indignação foi com o blog ou que aprontamos no passado?
O meio ou a mensagem?

Olha, esse blog, como disse minha vó, é um Louvre.
Navalha na carne.

E como esse blog é assim.
Sem freio.
Sem vergonha.
Así somos.

Meu desenho do gambá persiste.
Meu melhor amigo da semana passada eu já esqueci.
E descobri um brother gringo-brasileiro: David Presas. Gente, eu sou o David de saias.
Alma gêmea total.
(embora ele tenha alguns anos de loucura a mais no cv)

E o dia pegou fogo. Cheguei minutos atrás do trabalho.
Tô devendo algumas coisas.
Mas minha mão estava coçando para vir aqui.
Cachaça.

Para quem ainda não sabe, Iggy Pop vai ensaiar pela primeira vez – depois de décadas separados – com os Stooges e aqui no Brasil.
Faz seu primeiro show com a antiga banda em Sampa e sai em tournè mundial.
Eu quero ir ao ensaio!
Quinta e sexta da semana que vem.

Iggy é um Baudelaire moderno.
Ambos meio tortos.

Ele continua um verdadeiro acinte.
Como eu.

1857 – publicação Les Fleurs du Mal. A obra rendeu a Baudelaire um processo pelo tribunal correcional do Sena; uma multa por atentar à moral e aos bons costumes, além de ser obrigado a retirar seis poemas (poesies damnées) do volume original, sendo publicado na íntegra apenas nas edições póstumas, em 1911. Baudelaire também foi alvo da hostilidade da imprensa, que o julgava um subproduto degenerado do romantismo.

Ô vierges, ô démons, ô monstres, ô martyres,
De la réalité grands esprits contempteurs,
Chercheuses d’infini, dévotes et satyres,
Tantôt pleines de cris, tantôt pleines de pleurs…

(Desconfio que a “amiga” eu perdi antes do blog. Bem antes.)

Baudelaire, espera que eu chego lá.

Foto criada em 2009-10-23 às 17.12

Matisse, Clarice & Jane

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

odalisca2

Ontem fui à exposição de Matisse na Pinacoteca.

Matisse, pobre artista, deve estar revirando os ossinhos que sobraram na tumba.

Sabe fila do INSS? Era esse o cartão de visitas.

Sabe coquetel com champagne de graça? Pois era assim o clima de cada sala com as obras do mestre francês. Uma multidão cuspindo, falando alto, apontando para as obras, e dizendo: ” – Meu, animal!”

Eu tive um déjà vu de quando esqueço de fazer supermercado pela internet e vou correndo, no fim do domingo, ao Pão de Açúcar com a lista na mão. O desespero para comprar tudo e sair correndo me consome e alucina.

Pois foi esta a sensação: com uma lista imaginária na mão, atravessei a multidão, vi as obras e me mandei. Que horror.

As barrigas das musas pintadas por Matisse – barrigas mais sexies que já vi na vida – nem tive tempo de admirar. As cores, a “découpage”… Nada: só via o enorme mercado de consumo devorando Matisse, chupando gravuras, fazendo sons guturais com a boca, gritando: quero mais Matisse. Matisse. Maldisse.

Sobre as barrigas, não confio em quem curte um barriga de tanquinho. Uma barriga feminina tem que ter algo de gordura, precisa de curvas. A odalisca de Matisse diz tudo. As odaliscas em papel e grafite são as mais belas. Pena eu não ter encontrado uma foto para mostrar. Eu queria ter um dupla no meu quarto (original, bien sûr!).

——

Clarice, também com os ossinhos revirando.

Quem leu Clarice sabe. Ela não gostava de ser o assunto. E agora é a vez do mundo conhecer mais uma biografia sobre a escritora. Um gay trendy americano (escreve na Harper´s e mora na Holanda) é o autor e está sendo aclamado lá e cá (cá, depois de ser lá, era questão de tempo, não?).

Pois eu tive uma sogra que dava aula na USP e passou a vida estudando Clarice. O livro da minha ex-sogra, dizem os críticos – é bem medíocre. E ela me atrapalhou: só fui ler CL depois que terminei o namoro. Mas essa é uma história para contar num botequim…clarice-lispector

Sinceramente, da vida de Clarice que cuide Clarice. Como ela não está mais aqui…
Interesso-me por sua literatura. Que me fisgou aos 16 anos e até hoje me acompanha. Confesso que deixei de ir ao cinema, que faltei àquela happy-hour na Savassi para ler Aprendizagem ou livro dos prazeres. Lóri em busca de si própria e do prazer sem culpa. Esse blog é todo Lóri. Um blog Lóri a espera do momento em que vai sair de casa em horário impróprio e, sem medo, vai entrar no mar. Sentir o sal, a água. Sentir o mundo. Sozinha, ela e o mar. Ulisses (detesto o nome Ulisses) funciona como um farol, indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida.

Pois, na sociedade do espetáculo, vejam como explicar Clarice para um povo em crise e que lê da mesma maneira que “apreciamos” Matisse:

Lispector’s myth looms as large as anything she has written. Her unusual name made her sound like a spy. Her green almond eyes and high cheekbones led people to liken her to a she-wolf or a panther. To the translator Gregory Rabassa, Lispector “looked like Marlene Dietrich and wrote like Virginia Woolf.”

http://www.nytimes.com/2009/08/12/books/12garner.html?_r=2&pagewanted=1&ref=books

Sinceramente, prefiro ler Clarice a ler textos sobre a vida de Clarice.

——

Mas esse post não é só reclamação. Aliás, não é nunca reclamação.

Nesta minha fase acentuadamente RIOTTTT, fiquei emocionada ao ler sobre a vida de alguém (neste caso, acho que a vida da pessoa é mais interessante do que a obra). Eu já sabia sobre Serge e Jane. Já sabia da historinha da bolsa Hermès (fina irona: uma moça largada dar idéia para a criação de uma bolsa que é símbolo de “mulher que avança sobre a grana do parceiro”). Já sabia que Jane é  british e, portanto, é “Jeine”.

Jane Birkin and Serge Gainsbourg, 1969

Jane Birkin and Serge Gainsbourg, 1969

Mas dos seguintes detalhes eu não sabia:

Do Régine, fomos a um clube chamado Rasputin, uma casa russa na qual Serge me dedicou canções e distribuía notas de cem francos como gorjeta aos violinistas. “Eles são prostitutos como eu”, me disse. Depois, fomos ao Madame Arthur, uma casa na qual os cavalheiros todos se vestiam como damas, e depois à Place Pigalle, onde Serge serviu champanhe às prostitutas. De repente, estávamos de volta ao hotel Hilton, e o recepcionista perguntou: “O quarto de sempre, monsieur Gainsbourg?”.

Corri até a drugstore do outro lado da rua, comprei o compacto de uma canção chamada “Yummy, Yummy, Yummy, I’ve Got Love in My Tummy”. (Quando voltou, Serge dormia profundamente) Encaixei o disco entre seus dedos do pé e fui embora.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2510200914.htm

Esse encontro transcendental. Com boemia, loucura, ousadia e medo. Amor no início é isso! É a descoberta de Lóri. É entrar no mar de olhos abertos.

Acima, um vestidinho simpático para a época, uma barriga a la Matisse e uma bolsinha muito mais fashionista do que um velha e sem estilo by Hermès.

Para não terminar no ar, deixo uma frase de Clarice.

“Sou tão misteriosa que nem eu  me entendo.”

Boa segunda-feira.

Escrita compulsiva

domingo, 25 de outubro de 2009

UNABLE

Pois é…
Muita coisa acontecendo e eu compulsiva.
Comendo pouco (!) e escrevendo sem parar. No moleskine, no twitter, no email, no blog, em papéis de exposições e mostras, sms, blog, bilhete de entrada. Não paro. Até de madrugada. Vou dormir exausta, sem força, algumas vezes ainda maquiada, sem ter jogado uma água no rosto. Escovar dente sim. Eu escovo até quando tenho ataque de sonambulismo (coisa que não acontece desde a adolescência).

Meu companheiro de tantas viagens, meu livro gasto, meu amigo morto e enterrado que me impulsiona para todos os desvios manda mensagens do além. Abro as páginas de Baudelaire e ele me decifra:

J’ai cultivé mon hystérie avec jouissance et terreur.


Com alegria e terror.

Foto criada em 2009-10-24 às 00.29 #4

E Jean Baptiste, o desenho do gambazinho apaixonado, manda notícias em inglês. Chove sem parar, quer tomar café, saber se NYC está no roteiro. E eu não vou para lá. Ele telefona (eu não atendo). Eu respondo em francês. Com erros e erros (nos quesitos línguas e telefones, tenho problema incurável: TIMIDEZ. Eu sei falar, mas eu travo). Étudiant quando o certo é étudiante. Por no lugar de pour. Pour vous, por mois – pour rien. Tout la vie.

Eu desaprendi uma coisa: no lugar de escrever, ler, revisar… eu escrevo e publico. Depois, vejo as besteiras que escrevi. Será que isso evolui para o comportamento? Risos. Podem me acusar de tudo, menos de fazer as coisas sem pensar. Eu não me arrependo de nada – porque faço decidida. Não bebo e me esqueço das coisas. Não faço nada se não quero fazer. Mas publico frases erradas. Publico sem pensar.
Tem a ver com não gostar de espelho? Mostrar meus erros por inteiro. Ser torta em público (?)

Essa semana foi de uma cumplicidade femina atroz. Mãe e amigas. Madrasta. Irmã pequena. Nunca eu me dei tão bem com as mulheres. Nas nossas trocas de confidências, frases que guardei.

“Não ir além para ficar ao lado”
“Pagar a conta. Sempre.”
“Fingir a fragilidade inexistente”
“Falar palavrão e não ter medo de contar tudo o que fez, mesmo que não tenha feito nada.”

Email para um amigo recente, daqueles que você quer carregar para todos os lados. Sufocá-lo numa sopa de letras, resolver os problemas que o afligem e ter tempo de preparar café forte. Colocar alfazema no travesseiro e sair de cena. Ele me conta que o violentei. Nas palavras dele foi “um estupro intelectual consentido”. Achei isso tão bom e tão perturbador, pesado. Mexer, violar a linha de pensamento de alguém. Entrar sem pedir licença e bagunçar o coreto. Isso deveria ser proibido por lei. “Fica proibido, sob pena de multa, invadir o conforto intelectual do próximo.”

Mas a vida é isso. E eu nasci provocadora (e não provocante).
Com uma certa doçura, defendo-me.
Eu contagio. Não como uma música pop, mas como um vírus passageiro que dá febre por algumas horas.
Eu gosto de ser da turma.
Eu gosto de ser querida.
Mas eu também gosto (muito) de conflito.
Daí o jornalismo. Daí a tal dicotomia.
E não sou muito querida por mulheres.
Mas as que me querem, pulam comigo no abismo e de olhos bem abertos.
E a sensação de se afogar de mãos dadas é algo que não sei descrever.
Só bebendo litros de água para tentar entender.

Arquivo Escaneado

Are you connected?

sábado, 24 de outubro de 2009

Foto criada em 2009-10-24 às 00.34

“Unless we change our body for a virtual platform we will continue to be somewhat human.”


Convocação

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Foto criada em 2009-10-23 às 23.42

Tá vendo essa cara amarrada?

É de quem começou o dia acordando tarde (depois das 10h da manhã) porque ontem de noite estava pilhadésima. É de quem falou com uma amiga querida que foi para uma entrevista de emprego depois de completar bodas de prata no trabalho e viu que pode haver uma luz não, uma boate no fim do túnel.
Não contente, é de quem descobriu xará muito gente-fina quando as duas almoçaram bem e falaram para caramba no restaurante Japa do Hyatt.
Depois, voltando para casa mais cedo, para fugir do rodízio, essa cara amarrada encontrou com outra nova-velha amiga, a Ju, num café da Vila Madalena.
É que nesse mundo pequeno, a amizade começou com a irmã dela, a Salma, que morou comigo no Rio. e o destino nos armou das suas: nos reencontramos morando em Minas. As duas casadinhas, curtindo uma vida mais low profile nas Geraes. Jantar, vinho, montanhas e amorzinho.
Pois a alegria foi até às nove horas da noite, quando começou o show do Arturo Sandoval. Que showzão!
Miles, Chet, João Gilberto, Lecuona, Chaplin, Dizzie Gillespie – o cubano misturou tudo num caldeirão e eu voltei a 2001 – ano de uma das minhas mais loucas aventuras no espaço siderado (e não sideral) cubano.
Eu queria esticar até o Azúcar, dançar salsa até de manhã, tomar mojitos.
Mas estou em casa, chupando pirulito, tomando vinho e blogando.
Olha, quem tem menos de 20 me dá inveja hoje.

E estou convocando: amanhã aceito candidatos e candidatas para me acompanharem na noite paulistana. Porque depois desse pirulito, putz! Sou filha de exu no candomblé. Eleguá para os cubanos.
Quem conhece, sabe.
Preciso de álcool, de vento, de gente. De calor. De riso.
Fui.

Hoje me resta vestir o pijama, colocar bobs no cabelo, passar creme na cara e colocar a calcinha molhada na torneira.
Que derrota!

Poesia concreta quando não há mais palavras

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

pillowmeaning

happenscrazy

wildnow
sick