Arquivo de novembro de 2010

Quando 1+1=Pi

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Um diz.
O outro não entende.
E responde.
Um não quer mais.
Uma guerra.
Um negócio desfeito.
Um aborrecimento.

É uma ciência social, inexata, que não pode ser “traduzida” por um sistema binário.
Uma disciplina difícil que não é aprendida em escola.
COMUNICAÇÃO.

Ultimamente tenho notado que tudo se complica por que simplesmente, em noventa por cento do tempo, ninguém quer OUVIR.
Vivemos tempos em que aprendemos a falar.
E falamos, falamos, falamos.

Nós, os investigadores do conhecimento, desconhecemo-nos. E é claro: pois se nunca nos procuramos,
como haviamos de nos encontrar
?” (Nietzsche)

Segundo o filósofo, o homem que busca o conhecimento deve, necessariamente, conservar-se ignorante de si.
O homem devotado à missão de encontrar a verdade deve permanecer cego e surdo para seu próprio eu.
Como se a procura da verdade implicasse em sua própria ausência; ou, de outro modo, na existência de verdades paralelas.

Para o filósofo, a verdade não é algo que deve ser achado ou buscado nos confins da história, mas algo que deve ser criado.
Para ele, seria pura ilusão acreditar que a verdade permanece imutável ao longo da história, ou das sucessões que parecem dar continuidade às formas de dominação desde o seu nascimento.
Ao contrário, é na origem de tais valores, observa Nietzsche, que se define a sucessão de mal entendidos.

Fui longe?
Só te proponho uma reflexão.
Num momento em que pensar “dá trabalho”, você liga no automático e vai.
E você se perde.

Pense todos os dias.
Questione tudo.
E lembre da sua missão.
OUVIR.

Um pedacinho bacana para você:

http://www.youtube.com/watch?v=DHUUyx0d7qw&feature=related

Na terra, na água, no ar

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

céu

tarde

Enquanto vôo como pardal faminto (agora num Gol a caminho de Sampa), tenho acompanhado com apetite a novela Esperança 2.
Ela é mais um sucesso da TV que estréia em novo formato.
Uma história de polícia e bandido com discurso oficial transmitido pelos telejornais.
Cenário: Rio de Janeiro.

O poder de um discurso.
Como jornalista precocemente aposentada, tenho celebrado a cada dia minha decisão de flanar em outros terrenos.
Quando leio opiniões de ex-colegas de trabalho sobre a tenacidade da equipe que acompanhou as incursões na Vila Cruzeiro e no Alemão, eu penso em Tim Lopes.

Tim era um jornalista à moda antiga.
Foi um amigo quando entrei na Globo.
Me levava para o café, contava causos, ajuda.
Eu, fantasiada de boneca que aparece na telinha, comi o pão que o diabo amassou.
Caras, vocês não sabem o que é cair de pára-quedas neste mundo maravilhoso dos Bozós.
Nego torce para você cair.

Eu.
Excesso de opinião e incompatibilidade com o coiffeur e um talento danado para não me encaixar numa baia.
Talhada para escolher o caminho mais difícil

Bom, esse discurso todo é para dizer que, para mim, Tim foi longe demais em sua dura tarefa de garantir a comida no prato.
E sua empregadora não surpreendeu ao deixá-lo à mercê da sorte.
Hoje, vendo a tchurma iludida com esse papo de “momento histórico”, confirmo que meu mundo é outro.

o*o*o*o

Do outro mundo.
Estou viciada em Mad Men.
Acho que algumas vezes nos “vemos” nos filmes, nos livros, na arte.
As histórias subliminares.
Mad Men é muito da minha vida hoje.
O publicitário Junior, o sênior, a secretária, a dona de casa – eu estou todos ao mesmo tempo.
E a sensação de segurar as pontas por um fio que se esgarça é universal.

o*o*o*o

Eu queria ser porra-louca como Leminski e Vinícius.
Mas o máximo que consegui foi ser um pouco menos certinha do que os meus.
E isso já dá muito trabalho.

Mal vejo a hora de encerrar 2010.
Esse ano foi uma montanha russa.
E minha versão 3.6 promete.

Era uma vez…

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Saio de um avião.
A casa de pernas para o ar.
A vida prática foi feita para os outros – decido.
Durmo pouco, vôo de novo.
Confiro minha conta do cartão de crédito – Nova York tem seu preço.

Termino de ler o jornal.
Ofereço ao vizinho que olha pela janela o céu de brigadeiro.
O comandante avisa: menos 50 Celsius lá fora.
Tímido. Carente.
Fala do trabalho, da vida, pergunta sobre a terra, o telefone, a rotina.
Suave, escondo-me em meu mundo digital particular.

As crianças gritam.
Um copo de água.
O moço é todo chocolate, chicletes, praia e sol.

Eu troquei as cores por uma história em preto e branco.
Branca de neve paraguaia em Recife.
Sem férias.
Um filme B.

Só isso.

Quinto andar

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Unhas vermelhas
A ironia da pele velha macia
Debaixo da marquise se abraçam e choram

Sem vergonha
Fotografo com meu telefone
a tragédia da vida na calçada

Um calor intenso
Chove em Vênus

Me disseram que a velocidade
é fuga frustrada

Estratégia oblíqua:
Qual é sua música preferida?

oração pagã

Spam animado

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Elas acreditam em spam de dieta!

Eu adoro receber spam de dieta milagrosa na segunda-feira.
Hoje foram 5 oferecendo mágicas do David Copperfield: perder 10 kg em cinco dias.
“Não se preocupe com os quilos a mais”
“Dieta rápida e definitiva”.
Eu desconfio que o segredo seja fumar 5 maços por dia.
Ou ficar a base de água e ar. Dizem que a gente agüenta de sete a dez dias…
Risos.

E está aberta a temporada de decoração de Natal.
Socorro: até na rede a coisa está enfeitada.
É neve e pinheiro para todo lado…
Com esse calor e chuva, por que não uma canoa e uma tanga???

Ai, estou atacada.
Quarta-feira, viagem. Sudeste-sudeste.
Quinta: sudeste-nordeste.
Domingo: sudeste.
Segura o tapete mágico!

Hoje foi aquele dia de falar com amigos que não vejo há vinte anos.
Quero saber quando chega o spam da análise com direito a um tarja preta de brinde…
20 ANOS é muita coisa, gente!

Fui!

pequeninas coisas bonitas

domingo, 21 de novembro de 2010

somewhere I have never travelled, gladly beyond
by E. E. Cummings

somewhere I have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though I have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully,mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully , suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(I do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands


Quando perdemos o controle – e estou falando de coisas sutis aqui -, quando a história muda e te atropela…
Como deixar de ver poesia nesses ventos fortes?
Porque o que restar, é o que interessa.

E as coisas ganham novas proporções.
Você tem que se adaptar.

Eu estou aproveitando esses dias de “sanatório” na Montanha Mágica para fazer sessões intensivas de autoreflexão.
Olhar para as raízes e entender.
Olhar para frente e imaginar o que pode vir.

Um vendaval do avesso.
Uma redescoberta de pedacinhos de história.
Um gosto pelas coisas pequenas.
Um fiapo de luz na janela.
Um sabiá.

Amigos.
Nem tempo nem vento.
Neste vasto mundo.

Eu também tenho mãos pequenas.
Talvez por isso insista em passos largos.

(Mas desta vez, decidi, vou devagar, vou divagar)

Medicina alternativa radical

sábado, 20 de novembro de 2010

um para cada sintoma

Não é novidade no Brasil e, em minha família, é hit.
Todo mundo conhece um remédio que é tiro e queda!
Tosse? Benalet
Alergia? Polaramine. Ou Allegra.
Garganta inflamada, nariz entupido, febre? Nimesulida.
Depressão, é só ler o meu outro post sobre “Farmácia”. Hilário.

Que mania é essa de dar remédio para tudo?
Tenho certeza de que em nossa árvore genealógica deve haver pajés e curandeiros.
E todos, sem exceção, charlatães. Risos e mais risos.

Com o advento do google, a coisa piorou.
Agora você pesquisa e inventa doenças cabeludas para cada um dos seus conhecidos.
Eu, por exemplo, depois de rodar o globo e trabalhar feito burro em moinho de pedra, “com certeza” estou com “transtorno de ansiedade generalizada” (diagnosticou um parente próximo).

Corri para a wikipédia:

O Transtorno Generalizado de Ansiedade é uma desordem de ansiedade que é caracterizada como preocupação excessiva, incontrolável e frequentemente irracional com as coisas do dia-a-dia e que é desproporcional à fonte de preocupação. Essa preocupação excessiva interfere na vida de quem sofre da doença, já que essas pessoas tipicamente catastrofizam, antecipam desastres e estão superpreocupadas com questões da vida, como saúde, dinheiro, morte, problemas de família, problemas sociais, etc. Pessoas com Transtorno Generalizado de Ansiedade muitas vezes apresentam uma variedade de sintomas físicos, incluindo fadiga, agitação, dores de cabeça, nausea, amortecimentos e formigamentos nas mãos e nos pés, tensão muscular, dores musculares, dificuldade de engolir, falta de ar/dificuldade para respirar, tremores, irritabilidade, transpiração/sudação excessiva, insônia, ondas de calor, coceiras/vermelhidão da pele, etc. Para que seja Transtorno Generalizado de Ansiedade, esses sintomas devem ser contínuos e persistentes por pelo menos 6 meses para que se faça um diagnóstico formal. Aproximadamente 6.8 milhões de estadunidenses sofrem de TGA.

Disso tudo aí, acho que um sintoma ando tendo: insônia.
E dor muscular depois da yoga.
“Você ironiza e não quer se tratar”.
“Esse tanto (sic) de viagem, esses trabalhos malucos, em três línguas, isso paga bem e tudo, mas é uma fuga da realidade!”
Pronto! Está “catastrofizando”.
Risos e muitos risos.

Pelo sim pelo não, e como a patota ainda não pode prescrever tarja preta, o bom mesmo é tomar “Pasalix”, um anti-depressivo natural, fitoterápico, “muito bom, relaxa que é uma beleza”.
“O ideal seria você ir ao médico e pedir um dos antidepressivos (como os SSRI, SNRI ou os tricíclicos) e as benzodiazepinas.”
Sacou?

Eu só falo uma coisa: quem escrever as crônicas da família Pessoa de Mendonça vai ser best seller do New York Times.
E vai ter dinheiro para comprar uma farmácia completa!

Uma frase e um poema numa noite escura

sábado, 20 de novembro de 2010

“We’re born alone, we live alone, we die alone. Only through our love and friendship can we create the illusion for the moment that we’re not alone.”
Orson Welles

“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.”

Vinícius de Moraes

Sem cabeça

Mosaico

Eu achei dezenas de álbuns de fotos e selecionei um bom lote para mandar para o cyber espaço.
Esse compartilhamento de bons tempos mexeu com tudo.
Eu não gosto de praia, não faço dieta, não tenho medo de briga.
E como eu gosto de carnaval.
Gosto de viajar.

Não tenho medo da morte.
Tenho medo de gente.
Gente que tem medo.
Disso eu não gosto.

Como eu conheço gente!
E até hoje não aprendi…

Ponto de Vista

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um momento Bat-caverna na Avenida do Contorno, 6884

Durante dois anos, assinei um editorial que levava esse nome.
Com todo respeito, sempre tive que me virar de ponta a cabeça para encher aquela página.
Não era a minha praia, mas eu escrevia com toda a honestidade do mundo, fazia o meu melhor.
Fina ironia – inventar um ponto de vista.

Estou em Belo Horizonte, minha terra natal.
Amei enlouquecidamente esse lugar por cerca de 30 anos.
Todas as vezes que me mudei, sofri, chorei, esperneei.
Com 12 anos, Curitiba.
E conheci a poesia de Leminski – que ainda bebia todas – , adorei Poty.
Depois aos 20,  meu peito que doía na av. Paulista.
E vieram outras mais.
A volta certa sempre foi Belo Horizonte.
Por mais de uma década forasteira, Minas, enorme Geraes, foi minha casa, meu colo, minha comida, meu afeto, meu beijo.

Estranhamente, meu sentimento mudou.
E tenho notado que alguma coisa acontece já na sala de embarque.

Antes que você, mineiro ou amante das Minas, desista deste texto e de mim, um pedido.
Leia-me, pelo menos, até o fim.

Comi poeira, vi gente, ganhei calos novos, adotei um sotaque sem a menor personalidade.
Voltei menos vezes.
Os velhos ficaram ainda mais velhos.
Minha casa de criança foi vendida.
Os primos casaram, mudaram.
Os irmãos cresceram.
Os amigos – geniais todos eles – foram perdendo lugar para gente de fora.
O Mercado Central virou um mercado central.

Os lugares são as pessoas.
E as pessoas caminham.
Não desgosto daqui.
Mas esta rua não é minha.

Valente.

Abraço Partido

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lost in Translation? Lost & found? All alone in translation?

Quase um ano sem voltar à casa.
No aeroporto, irritada com os meus.
O sotaque, o jeito – tudo incomodando.
A velha mania besta de fazer fila horas antes de abrir o check in.

Véio. Beleza? Nóoooo…
Você saber que meu amor por você é a única coisa que não para no engarrafamento.
Minha rainha.

E o gelo vai quebrando.
Está tudo diferente ou fui eu?
Passarinho que muito voa perde a raiz?

Ao chegar, mágica.
Um carcará acompanhou o pouso.
Pensei logo que a ave escolheu a presa.

Uma hora e a mala… A esteira rodava vazia.
Perdi o ônibus que vai para a cidade.
45 minutos de espera.
Peguei um taxi.

Almoço com uma velha receita minha que há 15 anos esqueci anotada numa gaveta.
Hospital. Proibido visitas acompanhadas de crianças.
Lembro-me do meu pai combinando uma história comigo.
Enrolou meu bracinho e falou: finge que está quebrado.
Uma vez dentro do hospital, meu coração disparado, fugimos para ver meu irmão que acabara de nascer.

No corredor do quinto andar, lembranças.
A amiga que não resistiu.
A safena do pai.
Avó.
Pneumonia besta.
Passarinho quando cai do ninho, quer colo.

Um dia intenso.
Um lembrar de quem sou.
Um esquecer de quem se esqueceu de quem sou eu.