Arquivo de janeiro de 2011

Coerência

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Minha velhisquice anda boa demais.
A vida abre as cortinas mais negras e eu estou encarando no boa.
Se tivesse 20, arrancaria a cortina.
Hoje, com 30 e quase 6, eu deixo a cortina se abrir sozinha e mando vir o que tiver que vir

Eu não quero as coisas mais difíceis.
Mas não corro delas.
As mais fáceis chegam aos montes.
Parece até a promoção do Abdalla da praça da Rodoviária.
Leve na baciada!
E eu levo tudo – até desentupidor de fogão e prendedor de cabelo.

Você já chegou naquele ponto em que não quer ser pessimista?
E que não exagera as coisas chatas porque sabe que tudo, tudo passa?
Pois estou chegando.
Me espera!

Hoje, curtindo a última tarde-noite em Minas, o calor deixa meu cabelo engraçado.
Meu avô vivendo os 90 anos sabendo que não existe amanhã.
Meus tios discutindo o sexo dos anjos.
Quem eu gosto seguindo em frente.
Muita gente perdida.
Muita gente encontrada.

Delícia essa brisa quente que vai e vem.

Leituras de domingo

domingo, 30 de janeiro de 2011

Estou em Belo Horizonte por um motivo principal: meu avô comemora hoje 90 anos.
Meu avô foi médico por obrigação (acho que nunca clinicou e trabalhou como sanitarista), fazendeiro por paixão e hoje é uma criança grande.
Passa os dias desenhando, colorindo, vendo gravuras.
Ele está inteiro, a cabeça funcionando, argumentação nota 10, continua sintonizado na TV francesa e lendo seu Estadão diário.
Mas desconectou-se do mundo prático (contas, administração da casa, etc) e vive assim, de poesia.
Pode parecer triste, afinal, a velhice deixa as pessoas de certa forma menores, frágeis, expostas.
Mas eu acho sublime.
Aos 90, penso que a morte nos visita a todo minuto e só conseguimos nos concentrar no que realmente nos interessa.
No caso dele, as artes.

Ontem decidi o que fazer com o corpo da Mafaldinha.
Fiquei arrastando correntes pelo vento.
Só viveu 12 anos, sofreu muito, que tristeza, blablablá.
O que vou fazer?
Como o corpinho do Bibi teve outro destino, pensei em fazer algo para me despedir dos dois.
Daí a contratacão de uma empresa – coisas que, imagino, só existam em São Paulo – especializada em cremação de animais de estimação.
O que vou fazer com as cinzas?
Não sei.

Bom, esse preâmbulo sem lé com cré é para chegar aqui.
Como acho que estou terminando essa fase gigante de transição, minha mãe saiu comprando livros que me fizessem entender minha própria miséria.

corridas e outros domingos

(Se você não tem mãe jovem e doutora que agora estuda filosofia e teologia, talvez não entenda esse método de alento materno)
“The Diaries of Adam and Eve”, de Mark Twain, comecei a ler ontem.
E Adão já aparece danado com aquela mulher que resolve colocar nome em tudo.
E admirado.
O livro, considerado por muitos, a melhor obra de Mark Twain é de uma inteligência – e consequente ironia para tratar de um tema tão complicado – que chega a ser pesado.

Hoje, deixei de lado a questão de gênero e me atirei num Murakami.
Não um dos clássicos, mas o revelador “Do que eu falo quando eu falo de corrida”.
Se você pensa que este é um livro (chato) para maratonistas, esqueça.
É um livro sobre quem já fez a transição e, agora, começa a olhar para trás e entender.
Um livro para tratar de perseverança.

Estou aqui, de camisola, numa sacada de classe média alta com vista para as montanhas e as favelas, mergulhada nas descobertas de um corredor solitário que teve a obra traduzida em 38 idiomas e ganhou o prêmio Franz Kafka.
Pensando nos passos que já começaram a se desenhar – é uma pena eu não poder compartilhar com vocês duas mudanças fortes na minha vida.
Pensando no que ficou para trás e como me construí apesar disso.

Estou atrasada para a festa do vovô.
Por que tudo o que penso em escrever acaba sendo melhor do que o que realmente escrevo?

Sobre o Egito e as mulheres mineiras

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Egito é um país transcontinental com 80 milhões de habitantes.
Um dos antigos nomes do país, Kemet (kṃt), tem tradução livre de “terra negra” – uma referência ao solo fértil negro depositado pelas cheias do Nilo, distinto da “terra vermelha” (dechret, dšṛt) do deserto, e que, hoje, ganha uma nova versão já que o sangue está escorrendo pelo asfalto.
Na sexta-feira, contaram museólogos e arqueólogos, o Museu Egípcio foi invadido.
Vândalos destruíram duas múmias de faraós.
Hoje, o Primeiro Ministro renunciou.

Enquanto o pau quebra do Egito…
Eu fico admirada com a beleza das minhas conterrâneas e sua capacidade surreal de encontrar namorados exóticos.
Barrigudos, mal vestidos, pouco atenciosos…
Haja dedo podre!
Em Belo Horizonte, as belas preferem os bagaços.

Realmente, é uma catástrofe mundial.

Ma petite étoile a trouvé son grand amour

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Lindinha, frágil, delicada.
Não consigo ficar triste.

A história de Bibi e Mafalda é muito linda.
Bibi, mineiro bobo, começou a reclamar muito quando mudei para Fortaleza.
Eu viajava 3, 4, 5 dias e o deixava sozinho no apartamento.
Minha mãe postiça, Dulce, passava em casa para saber se estava tudo bem.
Bibi reclamava e se escondia.
Quando eu voltava das mil viagens, Bibi gritava, reclamava – com toda a razão.

Um dia, vi um bebê cinza apanhando com vara de marmelo no centro de Fortaleza.
Fiquei de olho.
Quando o pequeno deu sopa, peguei rápido e o coloquei dentro de uma caixa de sapato.
O bichinho arranhou, gritou, fez tudo.
Era Mafalda (que eu achei que fosse macho) – um sequestro relâmpago que durou 12 anos.

Bibi se apaixonou e não se cansou de lamber, de cuidar da Mafaldinha.
O nome é em homenagem à famosa personagem de Quino.
Uma criança perspicaz, meio amarga, com excesso de realidade.

Bibi e Mafalda formavam um casal muito harmonioso.
Sempre juntos – até na terrível hora do banho: um ficava paradinho, solidário, miando embaixo do tanque, esperando pelo companheiro ser esfregado, molhado, perfumado. Arght!

Com a morte do Bibi, Mafalda adoeceu.
Uma feridinha no rabo virou feridão.
Uma bobagem virou uma gata sem rabo.
Nos últimos dias, ela desistiu.
Sem comer, sem andar.
Deitadinha.
Só miava baixinho quando eu fazia carinho.
Hoje, às 18h, deu um suspirinho e foi se encontrar com o Bibi.

O amor, sem dúvida, é forte.
Eu fico emocionada.
Não é tristeza.
É assombro mesmo.

Bibi e Mafalda, um amor de verdade.

Geografia

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

charmosinha

Eu estou aqui e minha casa, lá.
Mafaldinha, minha gata cinza com uma pintinha no focinho, está partindo.
Doentinha e deprimida pela perda de um companheiro da vida inteira, Bibi, parou de comer.
A vet, uma fofa, está com Mafaldinha na casa dela enquanto viajo.
Segundo me contou, tudo o que a medicina poderia fazer, fez, agora resta apenas esperar que a cabecinha da gata queira melhorar.

Esse mundão sem fronteira tem ônus e bônus.
Bônus – porque conhecemos gentes, coisas novas, paisagens.
Saímos da caixinha com pseudo-segurança e muitas amarras e nos jogamos em mil diferentes realidades.
Ônus porque não podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Como penso que 2010 foi tudo ao mesmo tempo agora, 2011 parece estar começando a organizar a vida depois do vendaval.

Não dá para soltar todos os laços e achar que vai ser bolinho.
E nem dá para sentir o peso do mundo como se a Terra girasse em torno de você. Dá, sim, para ir mudando umas coisinhas aqui e ali.

Sabe aquela baianada que você faz para chegar mais cedo?
Não faça. Use o caminho “oficial”.
E aquela mania de não dar bom dia para quem não conhece?
Dê bom dia para todo mundo.
E quando você vê alguém na rua que precisa de ajuda (para carregar um pacote, que não acha um caminho, etc)?
Ajude.

2011 pede pequenas coisas para te fazer melhor.

Eu?
Juro que tenho fé em Mafisliuda.
Hoje eu queria estar segurando a patinha dela e dizendo: “-Bora, nêga!”
Terça-feira, se ela agüentar, estarei lá.
Se ela não agüentar, eu respeito a vontade dela.

Monomotor

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lá vou eu para a forca.
Embarco às 13h.

Antes, arrumar a casa, mandar bicho para hotel, o outro para o veterinário. Leleco, veterano, fica sozinho sem dramas.
Aproveito a viagem para marcar o resto do meu check up anual – dentista e outros dois especialistas.
Além de arrumar “a casa”, vou aproveitar a semana para ser apertada, revirada, furada, besuntada, vou “aproveitar” para ouvir de especialistas que faço muita coisa errada.
No corpo, um trunfo.
Estou em fase para lá de abstêmia.
Não que beba muito, mas, no ano passado, virei copos e não gostei.
E, agora carnívora, comendo melhor – acredita doutor?

Marquei também meu psicanalista – engraçado esse homem.
Freudiano total, nas minhas sessões ele fala e eu ouço.
Vai ver comigo tem que ser assim.

Minha vida é esse avião.
Vou largando pedaços importantes para trás, recuperando outros no aeroporto de aterrissagem.
Quando vôo, penso com calma.
Acho que, das nuvens, sentimos a morte.
Homem não foi feito para voar.
E, por isso mesmo, fica emotivo, resolve tudo em uma hora e quinze de vôo.
Aí, terra firme.
E confunde tudo de novo.

Eu nunca quis ser garçonete dos ares.
Muito menos piloto – só fui oficialmente autorizada a conduzir veículos com quase 22 anos.

Quando era adolescente, voei com meu tio médico e piloto.
Subimos, subimos, subimos naquele teco-teco monomotor com uma banqueta no lugar de assento.
Lá no alto absurdo, ele me deu o comando.
– Vou desligar a chave e você vai virando o manche.
Descemos numa louca velocidade, eu comandando o mergulho estapafúrdio.
Quando estávamos a ponto de virar sucata, ele ligou a máquina.
Meu coração – disparado –  não teve medo.
O barulho altíssimo do motor. E a força que fez nossos ossos tremerem.
O avião subiu bonito e nosso pouso foi sem sobressaltos.

Freud tem mesmo o que falar.

putzgrila!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Eu sempre andei sobre a tal linha tênue.
Mas era mais voyeur do que participante do lado de lá.
Eu sempre fui segura.
E a favor da verdade.

Hoje acordei feliz e
fui me jogar no pão com ovo da Padoca.
Voltei muito animada
e simplesmente não fiz nada.

Agora, com 35,
a vida cobra algumas posições e decisões.
Pensar com a cabeça ou com o coração?
Na etapa 1,
isso significa cortar histórias e até pessoas.
E seguir em frente com cicatrizes.
Na etapa 2,
significa enfrentar o desconhecido.
E lidar com o rastro das coisas.
E com pessoas que ficarão.
(mesmo que eu não queira).

Comprei a minha passagem
para minha próxima viagem.
Ganha um doce quem acertar o destino.
Delícia é feriado no meio de um furação.

Sinceramente, a decisão (mais uma vez) caiu sobre minha cabeça.
E hoje entendo o medo dos gauleses.

Mas ando com uma força sobrenatural para decidir.
E, tenho certeza, vai ser uma grande história nova.

(Não rezem por mim – eu não acredito)

PS: não, não estou falando de meninos, please!

2011 começa em dezembro do ano passado

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pois que fim de semana!

A vida engatada, as coisas se desenrolando, casa com jeitinho de nova – cheia de eletrodomésticos hitec, quadros, artistas, cheiros e mil idéias fervilhantes.
Ah, acordo meio grogue depois de uma semana intensa.
Perdi a hora, mas resolvi checar mesmo assim…
Bingo.
Corro, não confio de primeira, pago por uma segunda opinião.
Bingo de novo.

E a vida virou de pernas para o ar.

(Agora sem volta)

Tudo planejado para esta semana perdeu a hora.
Vou viajar mais uma vez.
Batelada de conversas.
Horários com quem entende.
Duas opções e uma vida muito, muito mudada.

Só tenho algo a dizer: quem viver, verá.

E será surpreendente!

Sobre as coisas

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Nega Fulô

Em São Paulo, calor terrível.
Depois, tempestade.
Mafalda, minha felina dodói,fez check up de gente grande.
Meu coração fica minúsculo vendo bichinho sofrendo.

A casa virou de pernas para o ar.
Finalmente chegou a geladeira.
Plásticos, isopor, a velha que vai, a que chega.

Uma geladeira recém-chegada é interessante.
Você precisa dela.
Afinal, como viver sem água geladinha, salada, um requeijão para passar no pão?
Você procura – há tantas ofertas no mercado.
Encontra, escolhe, pensa se está podendo, geralmente faz um lance maior porque o alvo merece.
Ela demora.
E quando chega, devagar, companheiro.
Você não pode ir pegando, usando.
Duas horas sem ligar para esperar o gás baixar.
Depois de duas horas, mais duas para ela atingir a temperatura ideal.
E voilá!
Frutas, legumes, iogurtes – a vida fica muito mais interessante.
Querida!

(Se você não sacou a metáfora, pode voltar para o jardim de infância – e metáfora esperta: porque esta máquina “gela”!)

Em meio a isso tudo, algum trabalho, reunião e uma sexta-feira.
Confesso: hoje foi mais bonito do que ontem que foi mais do que anteontem.

Escrito nas entrelinhas das estrelas

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Hoje me joguei numa experiência cósmica.
Fui num especialista em mapa astral.
Nem quero saber o que você acha disso.

Posso dizer que eu, cética, desconfiada, não dei uma dica para o moço.
Trabalho? Amor? Saúde?
– Nada em especial. Vim aqui para saber o que você vê aí.
E o moço viu tudo.

Morte, crise, viagens – muitas -, mudança de visual, transformação na carreira.
Ele viu tudo o que passou.
Ele viu características que escondo com uma maestria.
Ele falou que sou peixes, mas tenho muito de áries.
Ele falou que minha mãe estava em áries – ela é desse signo.
Meu pai, câncer – é o dele também.
Falou do sol, da lua, explicou de Mercúrio, Plutão.
Falou de gêmeos, de sagitário.
Ele viu tanta coisa certa no meu jeito e no meu passado que fiquei boquiaberta.
Alguma pergunta?
– Nenhuma.
Viagens, países estrangeiros, o que procuro, como sou, o que espero, onde meu calo aperta.
E eu fui ficando incomodada: a sensação é de que alguém puxou o fio da minha roupa.
Camisa, saia, meia – tudo foi desaparecendo e virando novelo de lã.

E, confesso, amarelei.
Antes do fio puxado revelar minha intimidade, parei.
Não quis saber nada do futuro.
Para mim, só de pensar que um dia, uma hora, um lugar, tudo isso combinado pode determinar a sua figura…
Já é muita assombração para um dia só.