Arquivo de março de 2011

Sem mais, John Keats

quinta-feira, 31 de março de 2011

Endymion (trecho)

O que é belo há de ser eternamente
Uma alegria, e há de seguir presente.
Não morre; onde quer que a vida breve
Nos leve, há de nos dar um sono leve,
Cheio de sonhos e de calmo alento.
Assim, cabe tecer cada momento
Nessa grinalda que nos entretece
À terra, apesar da pouca messe
De nobres naturezas, das agruras,
Das nossas tristes aflições escuras,
Das duras dores. Sim, ainda que rara,
Alguma forma de beleza aclara
As névoas da alma. O sol e a lua estão
Luzindo e há sempre uma árvore onde vão
Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos
De uvas num mundo verde; riachos
Que refrescam, e o bálsamo da aragem
Que ameniza o calor; musgo, folhagem,
Campos, aromas, flores, grãos, sementes,
E a grandeza do fim que aos imponentes
Mortos pensamos recobrir de glória,
E os contos encantados na memória:
Fonte sem fim dessa imortal bebida
Que vem do céus e alenta a nossa vida.

 

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o’er-darkened ways::
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
‘Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven’s brink.

KEATS, John. “From Endymion” / “Do Endymion”. In: CAMPOS, Augusto de. Byron e Keats: Entreversos. Traduções de Augusto de Campos.Campinas: Editora Unicamp, 2009.

 

Casca de banana, a miӍӋo

quarta-feira, 30 de março de 2011

 

Hoje cedo, como não poderia deixar de ser, o assunto em minha aula de hidroginástica geriátrica foi José Alencar.
E, para a minha surpresa, pude constatar que ninguém engana todos o tempo todo.
Sobre este político tropical, tenho a dizer que nunca antes neste país o Palácio do Planalto foi um lugar tão adequado para um velório.

oo00oo00oo

Em homenagem ao povo, queria levantar dois casos que li hoje.
O primeiro, de uma americana que está processando o médico porque não consegue mais fechar os olhos por completo.
O médico alega que a moça, com histórico de dezenas de procedimentos cirúrgicos, teve que assinar um termo especial dando ciência e se responsabilizando por uma eventual esquisitice que viesse a acontecer.
Detalhe: a cirurgia foi em 2005.
E eu achei que a fofa ficou ótima com o olho de boneca sonolenta.

O segundo assunto não é Bolsonaro, mas quase: Cibele Dorsa.
Acho um caso raro de sinceridade para com o mundo atual.
A moça viveu de e para a mídia e mandou para a Caras a carta de despedida.
Agora o ex-companheiro, atual escort da Athina Onassis, quer proibir que o nome dele saia na mídia.
E o twitter da moça ganhou 3 mil novos seguidores.
E muita gente aproveitou a deixa para dar sua opinião online – grande parte para descer a ripa na “devassa que abandonou os filhos” (!).
Ora, ora, minha gente.
Quem somos nós para julgar uma suicida?

oo00oo00oo

Para terminar a croniqueta do dia, Adriano.
Abandonado pelo empresário, recusado pelo museu do Ipiranga, o jogador tem uma pedreira pela frente.
Num país com bolsa para tudo, por que não criar a bolsa “reinserção na sociedade” para jogadores de futebol?
Sair da favela, ser alcóolico, andar com um diamante do tamanho de uma ervilha na orelha…
Nem Elizabeth Taylor seguraria essa onda!

Assim, de repente

terça-feira, 29 de março de 2011

Como pode?

Acordei com todas as certezas.
Fiz faxina na agenda, arrumei  as contas, mandei olá para a pessoa que nem foi tão legal assim mas precisa de um apoio hoje…

Enchi o pulmao de ar, perguntei para a minha barriga: “- Pronta?”
Ela me respondeu: “- Acelera!”

E a Ana do Instituto Decroly caprichou na maria-chiquinha torta, no plique-pleque de moranguinho na franja e foi tomar ventania.
De repente, tudo o que deveria ser “feito” (ou seria “tudo o que se espera de das pessoas”?) sumiu da lista de tarefas.
E uma certeza puxou outra, e os nós foram sendo desatados como fio de ovos em calda de baba de moça. Não havia medo, mágoa, pressão, tristeza ou  problema. Não havia nada. Era tudo pequeno demais para ser notado.

Acelerei.

E pensei que vou esperar pela próxima manhã para descobrir se é tudo verdade.

 

Buscando um papel

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ultimamente tenho me ligado em questões de gênero.
Talvez seja a idade.
Mas não posso deixar de defender um ponto: homens e mulheres andam perdidos, perdidos.

As mulheres, com soutiens em chamas e peitos despencando, decidiram dar uma banana para os homens.
E nenhuma, nenhuma mesmo, liga muito para o fato de não ter ganhos equiparados aos deles.
A questão é poder fazer tudo o que eles fazem e mais: ainda serem mães deles e dos filhos. Tudo?
Eles, encolhidos na perda do papel de provedores alfa, ficam na defesa.
E reclamam, pois não conseguem adivinhar o que mais elas querem.
Antes, era só um puxão de cabelo e uma penca de filhos.
Depois, houve a fase Liz Taylor: jóias, viagens, uma casa no campo.
Hoje ela puxa o cabelo, dá carro e ainda manda que ele lave a louça. Pode?
No fundo, creia em mim, elas querem ser mulherzinhas.
E eles, machinhos dominantes.

É um círculo vicioso.
Elas mudam o mundo, comem a vida pelas bordas, eles se encolhem, ficam perdidos, gritam, e ninguém se entende muito bem.

Hoje, numa daquelas conversas que pintam de quando em vez, o moço contou que está trabalhando loucamente e que a mulher, com filhos de 3 e 1 ano, deixou a profissão para virar mãe em período integral.
Não conheço o moço e nem tive interesse em me aprofundar em assunto tão íntimo, mas ficou no ar aquela sensação de que eles sabem que perderam o equilíbrio e que andam arriscando muitas coisas numa corda bamba.
Eu, particularmente, não quero falar da minha vida pessoal.
Só devo dizer que é muto difícil ser mulher moderna. Homem então…

Essa sensação falsa de autosuficiência não cola.
A gente é bicho. Vive em comunidade. Temos hábitos sociais. Precisamos do outro.

Eu ando com uma pulga atrás da orelha.
E ela, doutoranda em Lewis Caroll, vive gritando:
“-É tarde, é tarde… É tarde, é tarde, é tarde.”

Panelinha de pressão

domingo, 27 de março de 2011

Domingo de sol, já saí, já voltei (sol assim, de graça, não quero), li 3 jornais que repetiam o script da internet de ontem.
Eu fico aqui pensando sobre as obrigações da vida social.
Por que temos que nos rodear de gente?
E sorrir?
E fingir que não lemos aquele supererro de português em seu último texto?
E achar lindas as viagens e comentários dos mais favorecidos materialmente?
Temos?
Eu não me incluo nesse grupo.
E espero pacientemente pelo dia em que serei uma só na minha caverna.

Será assim a fase imediatamente anterior: nossa, você cada vez mais gorda!
Menino, ainda na barra da saia da mãe?
E como pode um sujeito como você ganhar tanto dinheiro?
Ah, total fracasso… Foi ser imigrante legal e morar num cubículo.
Ah, total fracasso… Ficou no Brasil lambendo as mesmas botas de sempre.

Juntos – ou separados -, vamos esquecer dos sucessos e seremos felizes na vidinha mais ou menos.
Comendo demais ou de menos.
Falando da atriz que se matou.
Da outra, barriguda de um garoto, prestes a ter outro que, crônica anunciada, separou-se.
São nesses momentos em que temos uma certa lucidez.
Momentos mais ou menos.

Vips?

sexta-feira, 25 de março de 2011


Fui à estréia do filme… Eu e alguns VIPs que podem se dar ao luxo de ir ao cinema num fim de tarde de sexta-feira em São Paulo. A jujuba teu aquele clima vintage à sessão.
O livro sobre Marcelo Nascimento da Rocha disseram que é fraco – mas as histórias dele, saborosas.
Propagandeia a editora:

No livro Vips, Mariana (Caltabiano, ex-DM9) revela como ele enganou o departamento de entorpecentes dos EUA, na época em que pilotava aviões para o narcotráfico, como assumiu o posto de líder em uma rebelião no presídio de Bangu, como conseguiu fugir três vezes da prisão, entre outros golpes. Inclusive aquele que o tornou mais famoso: o de se passar por Henrique Constantino, filho do dono da companhia aérea Gol. Assim, conseguiu aparecer em rede nacional, dando algumas entrevistas ao jornalista Amaury Jr., além de se aproximar de gente como os atores Marcos Frota, Carolina Dieckman, Ricardo Macchi, Marinara Costa, a Feiticeira, e os empresários Álvaro Garnero, João Paulo Diniz e Ed Sá Sampaio. O livro conta como ele foi paparicado por muitos desses “novos amigos” e fotografado por diversos colunistas sociais.

O filme pula tudo isso. É uma história tatibitati de um menino em busca da própria personalidade. Por acaso ele cai no tráfico: pois um traficante o contrata enquanto não tira brevê. E daí ele já vira o filho do Constantino, o velhinho homicida.
Pelas reações da platéia, o filme é para isso mesmo: colocar o moço com cara de novela para contar uma historinha engraçada. E “The End”.
Se Wagner Moura vai para Hollywood, pior que isso, não fica.

Entre o filme e o livro (que não li), prefiro uma rima rica da Bethânia.

O blog da Bethânia, Liz Taylor e o misto da padoca

quinta-feira, 24 de março de 2011

O mundo é mesmo animado.
Atire a primeira pedra o motorista que, num sinal (farol se fores paulista) vermelho, olha para o lado e vê o vizinho limpando o salão na maior naturalidade.
E a naturista americana que, para facilitar, saiu logo pelada e esqueceu o GPS?
Ficou presa a 150 metros de altura numa montanha e o bombeiro ainda teve que levar uns panos para carregar a moça pendurada no helicóptero… Não, claro, sem antes tirar uma foto do mico que rodou os sites internacionais.
De americanos em americanos, vamos para a vovó com mais de 90 que mandou bala no vizinho porque exigiu e não levou um beijo na boca.
E o troglodita austríaco ex-governador da Califórnia que chamou os brasileiros de mexicanos?
Somos todos xicanos mesmo, pode esculhambar.
Sem se cansar, defendeu a energia nuclear.
Eu, sinceramente, penso que devem instalar usinas lá para os lados de Hollywood – iria dar mais dinheiro do que filme.
E, com certeza, seria um estouro de bilheteria!
Hoje sofri forte preconceito em minha aula de hidroginástica geriátrica.
A colega, incomodada por ficar para trás na corrida, falou que aquela turma era para a terceira idade e quem fosse rápido que procurasse uma pista de F1…
Fui rir da vovó e engoli água!
Ai, o povo fala de Elizabeth que será enterrada perto de Michael.
Feliz da doida que viveu metade do que a inglesa de olhos cor de violeta.
E as maravilhas da desigualdade de renda?
Em São Paulo, você come fora, recebe a conta de 300 reais e paga só 50.
É só esperar a quadrilha que anda fazendo a limpa nos restaurantes.
Pague 50 para o bandido e dê banana para o restaurante.
Afinal, já dizia o ditado: “ladrão que rouba de ladrão…”
Se você não tem 50, o misto da padoca é muito econômico.
Peço um para mim e vem tanto queijo e presunto que alimento a cachorra e o gato.
Se é saudável eu não sei…

E eu apoio totalmente o blog da Bethânia. Se entrar na lei Rouanet, vou doar meu IR todinho para ela fazer rimas ricas…

Para rir sem parar

quarta-feira, 23 de março de 2011

Não é que eu tenha descoberto hoje… Mas uma coisa leva a outra e caí na coluna hilariante do Bruno Astuto.
O cara é uma espécie de Ibrahim Sued de Bangu – tem uma expressões absurdas e acredita que está por dentro do que seria o atual hi-society… E é isso que é divertido: ele tem fé em si mesmo e no que escreve.
Numa sociedade em que os emergentes fazem dinheiro e em que jornal e TV estão em total decadência, é engraçado ver o estilo old school de país tropical de volta à ativa… Ibrahim faria melhor, mas o discípulo faz o que pode…

Primeiro, conheça o jeito de ser do colunista… Parece um conto do Machado de Assis no Beco das Garrafas: criado pelas tias, usuário de bolsas femininas, chorou durante todo o curso de Direito.
É que ele queria “escrever”!

Hoje, escreve! Bem, tem uma coluna social.

Selecionei aqui la crème de la crème das “novidades” do dia:

… A operação brasileira terá não apenas as ovas valiosíssimas como caramelos
Vamos à atualização de nossa agenda amorosa…
… a capotante alemã Isabella Zschbrarn
… Durante toda a projeção, ouviam-se sniffs para cá, sniffs para lá — uma jornalista local chegou a sair da sala para se recompor.
… me soltou a bomba:
… As areias de São Conrado vão ferver nos dias 30 e 31 de julho, quando será realizado um evento inédito no Brasil, sucesso em vários países: o Rio Beach Polo…
O príncipe Harry, da Inglaterra, foi convidado para dar suas tacadas, mas declinou…
Jogación…
O ‘fenômeno’, chamado de diastema…
É dura a vida da bailarina. Beijo, me liga, até amanhã

Você agüenta ler tudo até o fim? Vá lá:

http://tinyurl.com/4oq69ad

Salvem as crianças levadas

terça-feira, 22 de março de 2011

Foto do saudoso Guinaldo Nicolaevsky

Que falta sinto de casa!

Nesta minha curta aventura, passei um dia no famoso museu de Inhotim, MG.
Realmente, nunca vi nada parecido em minhas andanças pelo mundo.
É surpreendente, lindo, diferente de tudo.
E o jardim vale a visita.
Eu pretendo ir de novo só para curtir os pitacos de Burle Marx com curadoria do Dr. Eduardo G. Gonçalves.
Mais bacana é ver a criançada se jogando com a maior felicidade.
Lá não existe essa coisa formal dos museus tradicionais: quase tudo é permitido e as crianças, pareceu-me, gostam mais de arte conceitual… Aquela coisa maluca de disco de vinil espetado em um cano, sons de chuva, projeções com imagens de galinha morta… Uma Disneylândia e tanto!

Em se falando de crianças, imagina que descubro hoje, 33 anos depois do fato, que minha amiga é a estrela da foto!
Foi no lançamento do Alfa-Romeo em Belo Horizonte. Imagino que foi também lançamento do carro à álcool.

Meu pai, imaginem só, era o vendedor número um da marca na cidade…
Nessa época, com o salário que ganhava, ele tinha cash para comprar um carro novo por mês. Mas não tinha grana para comprar um apartamento (o que só pode fazer uma década depois).
Meu pai tinha o mesmo nome do presidente.

O presidente era filho de um general que foi comandante da Revolução Constitucionalista de 1932 – por isso, a família dele viveu exilada na Argentina entre 32 e 34. E talvez seja, em parte, por isso que tenha tido peito para realizar a abertura política.
A gestão do amante dos cavalos ficou marcada pela grave crise econômica que assolou o mundo, pelo segundo choque do petróleo em 1979, a disparada da inflação, que passou de 45% ao mês para 230% ao longo de seis anos (isso explica em parte as finanças malucas do de meu pai), e com a dívida externa crescente no Brasil, que pela primeira vez rompeu a marca dos 100 bilhões de dólares, o que levou o governo a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1982.
Se você, criança feliz de museu, não viveu em época de inflação, abra o olho. Porque Líbia e mundo árabe em crise e presidente-apresentador de circo americano vindo aqui não podem ser coisa boa…

Mas o que interessa mesmo é que Rachel Clemens não se curvou ao poder do General-Presidente.
E a família dela teve que se explicar com a turma do SNI.

E vocês imaginam que, na minha família, ainda tem gente que chama o golpe de “revolução”?
Estranho mundo esse de quem nasceu no século XX.

PS: Justiça seja feita: Figueiredo não passou a faixa a Sarney porque o considerava um impostor, afinal, era um vice que deu sorte grande e, se fosse honesto, teria convocado novas eleições.

Alvo

segunda-feira, 21 de março de 2011

A graça de conhecer as novidades dos velhos mundos pediu a volta.
Quanto mais caminho, menos quero saber.

Minha alma cigana está me deixando.

Conheci um menino que deixa a vida em suspenso esperando o futuro próspero.
Amanhã, quando tudo der certo, promete: vai ser diferente.

Redescobri a menina que não aprendeu com o fim do jogo.
Amarga.

Fui ver de perto a obra do homem que pensou ser imortal.

Eu decidi parar no agora.
(Como hoje)
Um minuto pequeno, com defeitos e pleno.

Meu dia me basta.