Arquivo de março de 2011

Led, lido, lee, loo, lua

sábado, 19 de março de 2011

Trilha sonora para você ver a lua cheia hoje.
Sorte para a Líbia.
Ain’t no time to pack my bag, my foots outside the door

Laços de sangue

sexta-feira, 18 de março de 2011

Etimologia (do grego antigo ἐτυμολογία, composto de ἔτυμον e -λογία “-logia”) é parte mais fantástica da gramática.
Por causa dela, sei que “família” é derivado do latim “famulus”, que significa “escravo doméstico”.
O então recém criado grupo social surgiu com a legalização do trabalho escravo na Roma antiga.
E é foco de tensão desde tempos imemoriais.

Adoro o ditado que diz “de perto ninguém é normal”.
E o problema é com o “normal”?
Afinal, esse padrão parece mais com algo a ser almejado do que algo que realmente compreende a maioria… E o que é a maioria nesse mundo misturado, multicultural?
A wikipedia tem uma definição boa:

Normalidade é um estado padrão, normal, que é considerado correto, justo sob algum ponto-de-vista. É o oposto da anormalidade. A normalidade muitas vezes se dá por conta de uma maioria em comum, sendo anormal aquele que contraria esta maioria. A normalidade também se dá por um resultado padrão ao realizar uma operação com alta probabilidade de se repetir.

Normal é um padrão ideal inventado para mostrar que todos nunca chegaremos lá?
Quando penso no temido (pelas mulheres) IMC e em quantas pessoas no mundo estão acima do 25 (que indica sobrepeso)…
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) 43 milhões de crianças em idade pré-escolar em todo o mundo são obesas ou possuem sobrepeso e mais de 1,5 bilhão de pessoas serão obesas em 2015, caso não mudem o estilo de vida e criem hábitos alimentares mais saudáveis.
Mas o comum, o normal, pelo visto é se entupir de comida ruim, ter um estilo de vida sedentário, estressado…
Uma China inteira junkie é uma senhora “normalidade”.
Mesmo que essa normalidade mate uma boa parte da população de doenças do coração e custe zilhões de dinheiros em atendimento médico.

Ah! Família.
Sem uma desavença, não pode ser família. É o que diz a biblioteca nacional de medicina americana:
Olha lá:

Families are much more than groups of people who share the same genes or the same address. They should be a source of support and encouragement. This does not mean that everyone gets along all the time. Conflicts are a part of family life. Many issues can lead to conflict, such as illness, disability, addiction, job loss, school difficulties and marital problems. Listening to each other and working to resolve conflicts are important in strengthening the family.
http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/familyissues.html

Risos. E sem comentários.

E ainda nem falei de trabalho (alguém disse que meu troll já está na 11a  tentativa de me chamar de desempregada inútil?)
Eu acho que o mundo virou um grande produtor de bula.
Para cada problema, para cada acerto, uma explicação científica… Um padrão.
E anda faltando espaço para uns louquinhos fora da curva.
Para aquele menino que pergunta POR QUE para a professora, para aquele que resolve ficar sem tomar banho para ver o que acontece.
Trabalho?
Já fez seu MBA para caber na latinha de sardinha?
Hoje o quente é Executivo em Projetos – para você continuar a fazer tudo ao mesmo tempo agora e ainda saber o valor do prejuízo…

Vou me candidatar!

Nas nuvens do São Patrício

quinta-feira, 17 de março de 2011

 

Já em Minas atacando pedaços de queijo curado com cafezinho.
Pronta para um pão de queijo amanhã.
Sabendo das últimas notícias via internet.
Pinpoo voltou para o lar, a radiação diminuiu quase nada no Japão e o time do Palmeiras não pode ver Bruna Surfistinha.

 

Em dia de Saint Patrick, quem tem cerveja é abençoado…

 

Eu aprendi a brincar com trolls: além do pacote completo (cadastro internacional de spammer, email-denúncia para o provedor, email com meus contatos para a empresa dele) a mensagem para bani-lo foi hilária:

“Você tentou acessar esta página, mas não apresentou os pré-requisitos mínimos para o convívio social. Tente em outro blog”

E o chato ainda tentou entrar mais 4 vezes… Viva a internet e abaixo as almas pequenas!

(Nos vemos com calma amanhã)

Contos de antanho

quarta-feira, 16 de março de 2011

Filho de um carioca, português de nascença, amigo de Antero de Quental. A mãe só se casou com o pai depois que a avó morreu e quando o menino completou 4 anos. Problemas de quem tem muito versus quem tem o suficiente.
Em 1869, foi ao Egito participar da inauguração do Canal de Suez.
Morou em Havana, Inglaterra e Paris.

E deixou duas incríveis:

O jornal exerce todas as funções do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o pai da mentira, mas o pai da discórdia.

A curiosidade leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América.

Eça de Queiroz

o0o0o0o

Em terra brasilis não é difícil encontrar quem afirme que as histórias dos seus dariam um livro.
E dariam mesmo.
O problema é que faltam escritores que traduzam as riquezas dessas anetodas quotidianas.

Eu não me candidato, mas deixo a sinopse para quem se interessar.

1) Pobre em Navio sonha mais

Brigou com o pai que havia pulado a cerca.
Personalidade danada, desviou o que pode do Caixa2 para a mãe.
Resiliente, foi em parceria viver o sonho de conquistar América.
Não ganhou o almejado milhão de dólares antes de completar 30 anos.
Não foi desta vez que levou um green card.
Mudou-se para além-mar.
Voltou procurando emprego e mudou a meta do milhão para antes dos 50. Acredita que lá chegará.

2) O flautista da Hamelin paraguaia

São quatro velhinhos muito unidos.
Duas mocinhas, dois mocinhos.
Juntos, quanta união.
Nem dinheiro e imóveis os separam.
São quatro velhinhos bem danados.
Vivem enquanto podem e deixam a hipoteca para virar história de novela mexicana a ser perdida entre dezenas de herdeiros.

3) Conto de Fadas com desvio de gênero

Todo mundo muito preocupado com a Gata Borralheira.
E as filhas da madrasta?
O que foi feito delas?
Casaram, não procriaram e viraram príncipes.
Hoje reinam felizes – cada um em seu castelo.

o0o0o0o

Para não terminar cambeta, um de quem sabia fazer.

Um Apólogo (Machado de Assis)

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

A minha casa não é a sua rua

terça-feira, 15 de março de 2011

Além os comentários bacanas, nem sempre favoráveis, surgem alguns sui generis.
Dois recentes, merecem resposta pública. Um em inglês diz que estou mal na foto x. O problema é que quem mandou é conhecido – embora tenha usado pseudônimo.
Outro, em português, sugere que eu seja uma desempregada – vergonha das vergonhas nacionais.

O blog é público e aberto, portanto não censura comentários – ofensivos ou não.
Mas o blog não é minha casa.
O que faço, se tenho filhos, meu estado civil, religião – não é este o objetivo.

Mas, obviamente, se coloco a cara, coloco também os ouvidos.
Então vamos oferecer um martelo à moda.

Cliford Geertz em “A interpretação das Culturas” adverte com razão que

“a noção de que a essência do que significa ser humano é revelada mais claramente nesses aspectos da cultura humana que são universais do que naqueles que são típicos deste ou daquele povo, é um preconceito que não somos obrigados a partilhar”.

Cromwell que, segundo Geertz, foi “o inglês mais típico do seu tempo, precisamente por ser o mais esquisito” fez um comentário interessante:

“pode ser que nas particularidades culturais dos povos – nas suas esquisitices – sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é ser genericamente humano”.

Numa sociedade capitalista com pitadas neo-liberais adaptadas para a tropicália, costumam ser universais os deveres:
– trabalho;
– nacionalidade;
– estado civil.
Sem os três, não somos pessoas.
Sem trabalho, não compramos, não comemos, não existimos.
Sem origem, não nos posicionamos no começo da guerra pela sobrevivência.
Sem estado civil, não somos aceitos ou, ao contrário, somos marginalizados.

E, por isso mesmo, esse blog não se interessa por essas questões.
Nem em publicar nem em saber.

Em nossas vidas fora das redes binárias, digitais, temos o sobrenome corporativo, temos ou não alguém, nascemos em algum canto.
Aqui, não.
Aqui, podemos mostrar tudo o que não somos, o que não vestimos.
Aqui, quero sua poesia, quero a tradução sem revisão, quero a discussão sobre a alegria de ser pai no Natal.
Aqui, Portugal não é feita de gente que reclama do que tem e que olha demais para os lados.
Aqui, Tóquio não é um terremoto.
Aqui, você pode se indignar com meu radicalismo e me cortar do seu mapa.
Aqui, você até me fazer mudar de opinião.

Aqui, não aceitamos ameaças e não deixamos o bom debate de lado.
Aqui, tem lugar a discussão sobre os limites do preconceito.
Afinal, ele existe – mas uns insistem em se esconder atrás da página em branco que não é a sua vida e o seu pensamento.

Minha mãe foi daquelas pioneiras com carreira brilhante, livros publicados, etc e tal.
Hoje, estudante de filosofia, descobriu que não quer ser professora, não quer escrever outro livro, não quer aplicar o conhecimento ou oferecer uma resposta à sociedade.
Ela quer estudar. E só.
Foram anos de caminhada para descobrir que nem tudo o que você faz tem que vir junto com uma resposta pública ou uma entrega social.

Adoro “A Casa & A Rua”, de Roberto DaMatta:

“Se no universo da casa sou um supercidadão, pois ali só tenho direitos e nenhum dever, no mundo da rua sou um subcidadão, já que as regras universais da cidadania sempre me definem por minhas determinações negativas: pelos meus deveres e obrigações, pela lógica do “não pode” e do “não deve”.”
(…)
“…no Brasil, vivemos sempre oscilando. Uma mesma pessoa pode expressar opiniões aparentemente diferentes, divergentes e até mesmo contraditórias, caso se posicione em casa, na rua ou no outro mundo”.

Pois é: eu tenho a mesma opinião não importa onde.
E é isto que te incomoda.

Fim de festa

segunda-feira, 14 de março de 2011

Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.
Friedrich Nietzsche

 

Sobre o carnaval deste ano, surgem histórias interessantes.

Foi publicado hoje na coluna do Ancelmo Gois:
Para 92% dos internautas ouvidos pelo DataGois no site da coluna, sem o apoio do bicho, a Beija-Flor não conseguiria ser a campeã do carnaval. Há controvérsias.

A modelo-apresentadora que tomou um tombaço mandou resposta – via Twitter – aos que se divertiram com a cena:
“Como são infelizes as pessoas que se divertem com a dor de outra pessoa. Sinto pena. Mas só pra avisar aos que acharam algum tipo de graça no meu tombo, levantei e fui até o fim com a família Grande Rio”.

Um amigo, anônimo e gaiato, mandou fazer uma máscara de Charlie Sheen e virou notícia nas colunas sociais.
Todos tirando uma casquinha do astro demitido e que usa internet e redes sociais para enfrentar os estúdios.

Por falar em estúdios, o mesmo que demitiu o ator, Warner Bros., tirou de cartaz, no Japão, o novo filme de Clint Eastwood. No longa “Além da vida” há uma reconstituição de um tsunami que aconteceu na Indonésia, em 2004.

 

Há algum tempo venho estudando – e usando o blog como laboratório para entender não só o meio, mas o que ele provoca.
Daí alguns posts mais apimentados. E, como já falado anteriormente, nenhum é absolutamente fiel à realidade dos fatos. Afinal, são contos. São crônicas.

 

Começo ou Meio?

Em tão pouco tempo, quantos mudanças foram causadas pelo surgimento de novas mídias?
O espanto, para mim, surgiu com algo de mais de meio século, a TV.
Depois de uma década trabalhando em e chefiando alguns telejornais, não consegui ficar imune ao espanto que um aparelho relativamente pequeno provoca ou revela.
Revela, muda, põe em choque?
O fato é que uma câmera ligada, sem haver uma pessoa que dirija a conversa, é capaz de extrair surpresas de quem está do outro lado e não é profissional da área.
E, no meu caso pelo menos, o peso de uma TV campeã de audiência, tenho impressão, provocava reações ainda mais exageradas.

 

Da TV para a Internet

Por que as pessoas comuns querem aparecer na mídia?
E, quando elas aparecem, elas estão preparadas para a repercussão? Elas aceitam ouvir o que não querem?
Você pode argumentar que um blog, um perfil em uma rede social ou na internet, seguem a mesma lógica.
Uma exposição.
Concordo 100%.
Porém, a questão que me interessa é a repercussão.
O poder de fogo de um veículo de comunicação de massa é indiscutível.
Quem não se lembra da nutricionista que falou: “Sanduíche-iche-iche-iche”?
A entrevista, dada à repórter Bianka Carvalho, para uma emissora local em Recife virou assunto nacional.
Era uma pequena entrevista ao vivo feita para ser assistida num Estado.
De lá, caiu no YouTube…
O YouTube potencializou o poder de um veículo de massa e a história virou hit.
A nutricionista não se abateu. Usou a a fama repentina e pouco favorável para criar uma marca.
Sabendo que a batalha estava perdida, virou parte do jogo para ela.

Vivemos num país regido por uma Carta Magna que nos assegura a liberdade de expressão, além de outras liberdades, tais como de culto ou credo, de consciência, opinião, de locomoção (de ir e vir), de trabalho, de reunião e de associação.
Mas não falo de leis, quero saber algo além:
O que faz com que alguém queira virar assunto?
Por que?
Qual o alcance disso?
Para quê?

Reproduzo aqui trecho da peça do professor Leonardo Valverde:

“NIKOLAI
O circo está montado em sua frente e você ainda bate palma para o palhaço brincar. É o que está acontecendo. E é com a mudança de uma simples nota que tudo começa.
SEM NOME
Mas o que está insinuando? Está falando em código? É tanto medo assim? Será que é tão perigoso?
NIKOLAI
Não vou arriscar. Você não sabe o que passei. Não tem idéia do que me trouxe aqui.”

Fuga em Dó menor, Leonardo Valverde

Surfistinha e outros quetais

domingo, 13 de março de 2011

Sim, fiz um programa típico de paulistano-classe média que atenta contra minha natureza selvagem.
Fui a um desses “plex” da vida e, loucura das loucuras, disputei um assento para ver um blockbuster trash.
Fui ver os peitos bonitinhos e siliconados da Deborah Secco (ou seria seca?).
A moça faz o que sabe: caras, bocas, peitos e bundas.
A platéia, “classe-média-no-shopping-que-tem-como-hobbie-ver-vitrine-de-loja-de-carro-importado” suspirava, ria fora do tempo e não teve vergonha de dizer em alta voz que queria ser figurante no filme. Afinal, todos os figurantes do sexo masculino tiveram uma missão: tirar a roupa e se enroscar com a atriz principal devidamente pelada.
E eu esperava outra coisa?
Não!
Mas a realidade supera a expectativa.

Misandria

Saindo do óbvio, o filme é um libelo feminista.
O tempo todo, a moça é puta e quer ser puta.
Nem o coroa bacana, encarnado por um gordito Cassio Gabus Mendes, a convence, depois de uma overdose, a deixar o metier.
Bruna/ Raquel/ Deborah, escolheu a profissão e tem orgulho disso.
Os homens, nenhum no shape de Deborah, mostram-se crus e pequenos ao estarem nus: são gordos, bigodudos, peludos, flácidos, magros, carecas, sem graça, são os manés que pagam para serem usados e descartados.
Que o diga o colunista de O Globo, Joaquim Ferreira dos Santos, que escreveu uma coluna tipo diário de adolescente exaltando a “coragem” de Deborah Secco.

Bobos, babões, com taras pueris, eles topam pagar por que, ao que tudo indica, faltam-lhe culhões para a vida de fato.
Fora da tela, realizados depois de hora e meia de Secco pelada, eles comentam sobre a gostosura da atriz e sobre o sonho de viverem alguns minutos a fantasia de serem figurantes do filme.

Eu saio rindo e prestando atenção.
Os que não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Os que sonham e os que gastam os cobres com uma noitada de sexo pago.
Os que queriam ser figurantes ao lado da Deborah Secco.

Sexo frágil em pleno século XXI.
A vida não deve ser fácil

Ao Japão

sexta-feira, 11 de março de 2011

「世の中を何にたとえむ朝ぼらけ漕ぎ行く舟の跡の白波

“A nossa vida neste mundo
A que devemos compará-la?
É como um barco alinhado na pausa do dia,
Sem deixar rastro.”

Sami Mansei

“Manyoshu” 万葉集

A volta dos que ficaram

quinta-feira, 10 de março de 2011

Nascemos juntos

Alheia à cervejas e musas de última hora que escorregam e caem de cara na Sapucaí, vi Inside Job.
O filme dá sono em alguns momentos – tem um palavrório que poderia ser editado.
E, como legítimo representante dos americanos, ele tem uma preocupação fora de propósito com a moral, o certo e o errado.
Mas, para além da loucura quase infantil do povo do mercado financeiro (sexo, drogas, grana, trambicaços, muita malícia e uma certa perícia), ele dá uma paulada forte no mundo acadêmico, em especial no povo da Columbia.
Não podemos esquecer da pisada na casaca de banana da London School of Economics que “passou” um dos filhotes do Kadafi depois que a família Líbia fez doações significativas à vetusta casa da economia e do saber inglesa…
Enfim, para o povo do MBA e do etecéteras, Inside Job chama muita gente de carneiro bobo para baixo.

 

o0o0o0o0o0o0o0o0o

 

Jimi, Jimmy & cia.
Eu nasci depois que Hendrix havia morrido.
Quando John Bonhan – meu superídolo – morreu, eu tinha 5.
E, embora ame quando Chiquinha Gonzaga berra lá fora, há coisas que só Kashmir e The Ocean são capazes de fazer.
Hey Joe.
E It’s Alive?
Eu tinha 4 e até hoje me parece algo absurdamente novo.
Para mim, o rock dos anos 70 é pura cidade natal.
Montanhas de minério de ferro, litros de tudo o que pode ser destilado, mato, terra molhada, incenso, carro “emprestado”.
Como não ser puro roquenroll?
Como não virar a noite?
Como não chutar todos os baldes?

 

 

Traidora do movimento

sábado, 5 de março de 2011

O outro carnaval

Carlos Drummond de Andrade

Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?

De presente, o adereço que não batizei com confete

Eu ia correr atrás da banda…
Mas o friozinho bom, a chuvinha fina que vai e vem (bem).
A estrada afora.
A bagunça, a cerveja, a praia chuva, o Rio, o xixi na rua.
Ah…
Traí o movimento.
Vou curtir – excepcionalmente este ano – o carnaval numa São Paulo acolhedora.
A mala continua pronta para o caso de eu mudar de idéia.

Vejo você na quinta.