Arquivo de abril de 2011

Escrever, esquecer

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Aqui no Brasil, hora chove, hora faz calor.
Recebo notícias da casa materna.
Mãe filósofa dirigiu quase 600 km para conversar por meia hora com um doutor em Mircea Eliade.

Estradas.
Adoro as palavras correlatas.
Via, caminho, direção, rumo.
Destino.

Mamã que faz estrepolias só para falar sobre o que gosta e entende.
Eu e meus aviões.
E minha coibaice generalizada.

No teatro, é comum um exercício também usado por terapeutas.
Subir em um banco, fechar os olhos e se jogar de costas.
O grupo deve amparar a pessoa.
Dizem que, com crianças, é fácil e todos querem mais.
Com adultos, nem todos conseguem.
Há quem nem suba no banco.

O que aconteceu entre a época em que nos atirávamos e a que não subimos numa banqueta de 20cm?
Quem fomos, somos, seremos?
Quem escreve?
Quem lê?
Por quê?

Hoje vi dois corpinhos secos de sabiá.
Estavam num canto da rua, amassados pelos carros que passam apressados pelas vias paulistanas.
Pensei numa tragédia animal.
Um, gordinho e distraído.
Deu um pulinho, outro, mais um.
E acabou num pneu.
O outro, suicida.
Tomou coragem e foi também.

Doce morte a de passarinho de ficção.

O mundo ET

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Denegada

Anita era uma menina que, além da língua solta, tinha uma elasticidade acima do normal.
Não era para tanto – o Circo da China jamais arriscaria o número da criança dentro da caixa de sapato com ela.
Mas…
Alguém sacou seu potencial.
E falou: topas?

Anita entrou para um projeto piloto que promete revolucionar a medicina e sua vida bandida.
Cobaia.
Picada uma vez por mês.
Apalpada, pesada, ultrassonada.
Tudo cuidadosamente medido, avaliado.
Engraçado é que chocolate é permitido.
Álcool – só uma taça para comemorar o aniversário de 90 anos da avó e olhe lá.
Engordar é quase mandatório.
E tudo por ter a saúde acima da média, uma elasticidade de superherói e as melhores condições para o estudo.
Anita é fidalga: não recebe um centavo.
Às vezes, paga. O táxi, a hora rodada, o mico.
E é a maior diversão.

Até agora, 4 kg.
Quem viver, verá!
E não vai ser na vitrine da C&A

Voltando ao caos

quarta-feira, 27 de abril de 2011

E chateada com a morte da maluca da Neuzinha Brizola.
Agora é fato: estou coroa.
Metade do mundo não sabe a letra de Mintchura.

Preciso de um tempo para digerir o século XXI.
Vou ligar para a Kátia Flávia.

 

Os nossos medos

terça-feira, 26 de abril de 2011

sobre os que têm coragem

O mundo anda dizendo que não está nem aí, mas, como dizia meu amigo Ely, “aqui em casa, só se fala em outra coisa”… Risos.
O filho de Diana vai casar.
A boda movimentou a economia inglesa.
Os americanos, dizem, não estão nem aí.
Um integrante da guarda britânica chamou a noiva de “vaca” numa rede social e está sendo investigado.
As festas e os convidados vips.
A sucessão real. Será que o Principe Charles escapa desse mico trabalhoso e passa a bola para o filho?

Sinceramente?
Minhas leituras sobre o tema ficam na periferia dos diários e não ligarei minha telinha para ver o enlace real.

O que me interessa mesmo é a celebração do amor monogâmico.
Ainda acho “modernos” e um tanto infantis aqueles que são inconstantes no amor.

Amor é um bicho trabalhoso.
Depois do fogo inicial, gera dúvidas, diferenças, desinteresses, interesses novos, embates (velhos e novos), insegurança, comodismo – tantas sensações.
O chamado amor livre sempre me pareceu um pouco covarde.
Fica na superfície, fica apenas no físico.
Você vivencia, prova um pedacinho e parte para outro.
Cruel e bobo – quer algo mais sem saber o que tinha em mãos.

Óbvio que a devoção, a constância, a fidelidade não são exercícios marciais.
Surge algo bom dentro da gente e, apesar dos dias de chuva, insistimos em ficar.
Não é como uma casa – pois podemos mudar a decoração, a disposição dos quartos, tudo.
Não é como um automóvel – pois não é leva e traz.
Ele traz muito, cobra muito, dá mais do que recebe. Muitas vezes, não recebe.

O amor é imaterial.
O amor novo é cego, atirado, corajoso. Inconseqüente e pleno.
O amor maduro é prudente, discreto, um pouco amuado. Acomodado.
O amor vivido… Não sei dizer, mas penso que começa com dor de dente.
Dor de descobrir que não somos um.
E que precisaremos reconstruir, rever, repensar, reinventar.
Dor de saber que, sim, temos medo da solidão, somos covardes para recomeçar.
Clarividência para saber que, se desistirmos, voltar para a estaca zero é cair no abismo.

Maduro ou vivido…
É sempre o melhor de todos.

Sobre o teatro

segunda-feira, 25 de abril de 2011

 

O gato preto cruza seu caminho

Buenos Aires anda mais pobre e fazendo arte como nunca.
Livrarias e Feira do Livro com filas de dobrar o quarteirão.
Zoológico caindo aos pedaços e com brasileiros cheios de opinião.
Circuito broadway porteño lotado de peças, musicais, dramas e comédias.
Assisti uma releitura do teatro de revista. Muita nudez, os corpos em mutação… Vedetes musculosas, peitos explodindo. Homens minguadinhos.
Cenário e figurinos com custo zero.
Coreografias que deixariam Madonna de queixo caído.
Comédia?
Aqui, rir de si mesmo é profissão remunerada.
A verborragia e o gestual frenético me encantam.

Os dois lados da moeda – riqueza e pobreza – saltam aos olhos.
Num asado com algumas das maiores fortunas do país, simplicidade pois não é tempo de exibição.
Pelas ruas, o melhor que se pode fazer com dólar a 4 por 1 é jogar um brilho nos tecidos.

E eu fico me perguntando por que prefiro essa cidade a Recife.
Síndrome de cão vagabundo ou rebeldia?
Memorias del subdesarrollo.

Buenos Aires

domingo, 24 de abril de 2011
"..."

"..."

Um frio de outono.
Un asado en Pilar.
Un partido de polo.
Apartamento em Miami?
Caballos.
Dulce de leche.

Esse mosaico não demanda vidas passadas.
Pede transversais.
Calma e fé.
Aqui e agora.

Mi Buenos Aires querido.
(Y vos.)

Pina, laboratórios e outros remédios

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Essa tal de Pina Bausch chegou muito muito longe. Por isso mesmo, não volta mais…
Quem não viu o espetáculo Ten Chi, coprodução de 2004 com a cidade de Saitama, no Japão, não vai entender nada a partir de agora.
“Eu não me interesso em como as pessoas se movem, mas o que as move”.
Saitama foi atingida pelo terremoto. Pina morreu em 2009.
No palco, partes de uma baleia.
Neve, neve, neve.
Os figurinos de Marion Cito deixam bailarinas e bailarinos à flor da pele.
Em meio a tudo, ouvi Brecht, Saramago, Margarete Steffin.
Notei também Gustavo Santaolla.
Para mim, o grande destaque, em meio a uma dança absurdamente bonita, envolvente e nada “acadêmica” no estrito significado, é Mechthild Grossmann.
Aquela voz me faria fazer coisas horríveis.
Me faria ser outra Ana Pessoa.
Terremoto.

*****

Minha vida agora é um laboratório. E isso tendo a incrível capacidade de estar perfeitamente saudável: nem o colesterol me faz arrepender dos excessos.

Semana sim, semana não, sou picada e apalpada.

Penso que os ambientes hospitalares são brancos para evitarem qualquer sensualidade.
O branco não é a mistura de todas as cores.
É ausência, a vergonha, a exposição sem jogo de sombras que te protejam.
Pense em um quarto com luzes apagadas e você, talvez, concorde.
Pelo menos agora, posso tomar água suja e nunca ficar amarela e contaminante.
Posso dormir na cama do faquir, sangrar nas costas e nos seios e, mesmo assim, nada acontecerá.
Dizem por aí que na maioria dos casos, quanto mais afastada do sistema nervoso estiver a ferida, mais longo é o período de incubação.
Espasmos musculares.
Trismus.
Se eu não pudesse abrir a boca, morreria de inanição verbal.

Impurezas

domingo, 17 de abril de 2011

Texto muito bom o do Ferreira Gullar hoje, na Folha.
Como sempre, o que é bom, é pago: só para assinantes.
Se você é, leia: Tragédia em Realengo.

Por aqui, minha vidinha suja de sempre.
Ontem comprei o ingresso e não fui ao teatro.
Antes, encontro com amigos mineiros que há muito não via.
Tanto não via que um casal não se lembrava mais da minha pessoa – que engraçado e constrangedor.
É que eu mudei e vou continuar mudando, eles, talvez, não.

Neste encontro, fiz das minhas, levei uma amiga de outras praias.
Sempre faço isso – misturo tudo.
Pobres moças impuras que empilham os pecados na prateleira da banheira.

Um velho conhecido dos tempos de outplacement aparece afoito.
Email, telefone, mensagem até no Linkedin.
O que ele quer não vou dar porque não quero.
Mas meu instinto de sobrevivência profissional e uma mineirice irritante – que acolhe a todos – fazem com que eu não ignore o chamado.

Por falar em mineirice, recebo notícias daquele moço rico e perdido que foi preso por supostamente matar a namorada grávida.
Novela das sete?
O moço foi casado com uma ex-amiga, bêbada, feia, complexada e que eu abandonei porque não gosto de gente que usa drogas.
Fiquei pensando – cheia de maldade – seria o moço rico perdido pior do que a moça rica complexada?
Sei lá – esse não é meu universo.

Meu universo é dos problemas do cotidiano, não dos épicos com um ego descomunal – drogas, dinheiro, carreira.
Meu universo é do motoqueiro que bateu no meu carro, do gatinho resgatado de uma vala na favela de Paraisópolis que, depois de dois meses de tratamentos contra um protozoário violento, veio parar em casa com 36 pulgas.
Eu fiz tudo errado: coloquei o veneno na nuca, tranquei num quarto cheio de conforto, fui ver os amigos no restaurante argentino e, ao voltar, cancelei o teatro e dei banho no gato. Era para ser ao contrário: dar banho no gato, trancar os amigos num quarto e aplicar veneno de pulga em todo mundo no teatro.
Precisei de pinça para arrancar as pulgas que se agarravam ao felino como muita gente ao passado.
Ele gritava, esperneava e eu esfregava e pinicava.
No golpe final, o secador.
Ele se acomodou, vencido, entre minhas pernas.
E eu ia aquecendo o pequeno e encontrando novas pulgas perdidas.
Hoje de manhã, duas mortas e envenenadas jaziam na almofada onde ele dormiu.
Aparentemente a colônia foi exterminada.

A vida curta das pulgas de favela.
O momento errado de adotar um gato paulista.
A mesquinhez humana ao saber da tragédia dos outros.

Um sábado quente e tão intenso.

Hoje é domingo. Dia de ler todos os jornais, rolar na cama gigante com um gato velho.
Comer Waffle belga às 10h.
Sonhar com Ferreira Gullar e seu saudoso Gatinho.

 

Por que como vírgulas?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Porque, como na música do Roberto, corro demais.
E aí quase morro de vergonha ao reler as besteiras que escrevi.
Afobação é meu ponto fraco…

Mas uma coisa é escrever errado por desleixo, outra coisa é por ignorância.
Eu morro de vergonha de umas derrapadas dos tempos atuais – e não são poucas.
A língua portuguesa é diariamente espancada.

Essa coisa de internet, sms, redes sociais revela os terroristas da língua.
Cansei de ler espontâneo com x, exceção com dois esses, e ontem li um “coiscidência”, pode?
Tudo de autoria de gente formada, pós-graduada e com MBA nos Estados Unidos.
Como pode?

Engraçado é que há tempos eu queria voltar a fazer aula de português.
Tenho ficado insegura nuns “alugam-se casas”, tenho esquecido palavras.
Contei que tenho uma tia avó devotíssima, quase freira, que morava numa mansão assombrada?
Pois nas férias da escola, minha mãe comprava um livro com exercícios de gramática e me mandava para a casa da titia para dar uma estudada.
E era uma festa!
Era bom demais passar duas ou três horas naquela casa cheia de mistérios, com coleções de muranos bizarros (e caríssimos), revisando e reaprendendo o português.
Era tão bom que outros primos pediam para participar do encontro de reforço escolar informal.

Titia, você pode me acolher?
Preciso de nossa língua…

Bizarro mundo novo

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Dias atrás, vivi uma aventura completamente fora de esquadro.
Vou contando e você pode tentar adivinhar a locação.
O prédio, enorme, fica encravado num tumultuado bairro de classe média de São Paulo.
O trânsito nas redondezas é sempre infernal.
Carro entregue, tiquete do estacionamento na mão, um olá sem dados ou informacões na recepção e apertei a tecla do andar na tela do elevador.
Cheguei, um segurança perguntou onde eu ia e me deixou passar.
Se eu dissesse que estava indo para a Conferência do Bolsonaro na Liga Radical dos Homossexuais, o segurança teria me liberado com a mesma facilidade.
Um pouco perdida, caí no “pátio” recreativo.
Lojas de revistas, de presentes, cafeteria, lanchonete e vitrines enormes.
Do lado de lá do vidro, enfermeiras, caixinhas de acrílico e uma profusão de bebês desnudos, chorando, tomando banhos de luz e de água.
A platéia, como num aquário, coloca o dedo no vidro, tenta interagir, compara tamanhos e formas. Saca câmeras e grita.
Do outro lado, os bebês devem berrar – a sala tem isolamento acústico e a única coisa que percebo são minúsculos seres aborrecidos com o assédio.
Horrorizada, procuro meu destino.
Acho o quarto.
Na antessala, uma máquina de Nespresso, chocolates, um cardápio de hotel.
Quero ir embora.

Houve um tempo em que a história da cegonha era romântica.
Hoje, é tudo um grande shopping center com desejo de se tornar Big Brother.
Pobres crianças…