Arquivo de abril de 2011

Quando não evoluímos

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eu tenho visto essa série de propagandas e, cada vez que essas humoristas aparecem em minha telinha, xingo um palavrão sem depilação.
Para mim, publicitário é tudo, menos bobo.
Afinal, tem que ter um certo talento para fazer o cliente pagar e aprovar pelos devaneios da criação.

Como mulher com um toque declarado de misandria, detestei essa propaganda.
Que coisa sexista, atrasada, estúpida.
Mulher evoluída é aquela que ataca o sexo oposto?
Mulher evoluída acha que homem tem que fazer faxina?

Em tempos de grana curta e empregada doméstica virando profissão em extinção, pensei que um produto de limpeza viesse para facilitar a vida de homens e mulheres que não têm tempo nem paciência para uma faxinão da dona Maria…
Ledo engano: produto de limpeza serve é para esculhambar as questões de gênero.

Para mim, as mulheres confundiram tudo quando tentaram ser… Homens!
Quiseram trabalhar mais e melhor, colocaram a prótese peniana na mesa e excluíram os homens do jogo.
Os homens, por sua vez, ficaram fazendo aquele papel de PSDB: depois de curtirem o poder, perderam a mão.
Não se posicionaram e viram uma parte do eleitorado debandar…

Estes novos comerciais mostram que queimar soutiens foi uma tremenda besteira.
O lance é botar uns contra os outros.
E, se você for gay ou simpatizante, tem tudo para fazer a turma hétero comer poeira enquanto se engalfinha na rinha do nosso quintal.

Apertem os cintos, a guerra dos sexos vai aparecer em versão reloaded em tamanho P, M, G, XG.

Ao larápio

terça-feira, 12 de abril de 2011

Você é rápido e ligeiro como um dia foi a zaga do Atlético Mineiro.
Chateada por ter que gastar vários tostões na oficina depois de ser abalroada por um motoqueiro discípulo do coelho de Alice, abandonei meu possante na enfermaria de latas e desci três lojas.
Tirei cópia do documento, da carteira de motorista, do BO. Registrado em português castiço de porta de delegacia: “o condutor da motocicleta recusou-se a receber qualquer tipo de atendimento médico e, minutos antes da colisão, seguia, em flagrante desrespeito ao código de trânsito, pelo meio da via.”
Em 30 segundos, tudo pronto, voltei à oficina.
Um cemitério, um quarteirão…
Meu telefone.
Ele não está lá.
Liguei. Você deixou tocar e não atendeu.
Liguei mais uma vez, você desligou.
Foi tão rápido que não tive tempo de bloquear meu teclado e nem de te desejar boa sorte via mensagem.
Hoje carrego um celular de R$1,99 no bolso e não sei mais quem me procura.
Não aviso que acordei tarde em minha rede social.
Não localizo aquele endereço estranho no mapa.

Estimado larápio,
te agradeço de joelhos.

Voltei a ser analógica.

Sobre a fé e o amor

domingo, 10 de abril de 2011

Vapor barato - autor: desconhecido

Ontem fui ao show do U2.
Em minha tenra juventude, vesti a carapuça preta de couro cheia de alfinetes de rata de espetáculos. Teatro, rock, bossa nova, performance, dança – com ou sem dinheiro, era a minha praia.

Meu último show “de fato” foi um Free Jazz Festival… Quem nasceu nos anos 80 nem deve saber o que é.
Mas imagine que Chet Baker veio para uma edição e quase deu o bolo no show encenando e cantando um clássico de conteúdo dúbio de Cole Porter.

Depois do meu último e (por que não?) fatídico Free Jazz, onde fiz uma roleta russa de namorados, despedi-me de um saudoso amigo mineiro, eu me aposentei.
Passei a freqüentar lugares menores, cervejas geladas, esperas cujo tempo equivale a um pacote de pipoca , ingressos sempre disponíveis.
Para não dizer que não tive recaídas, seis anos atrás fui a um Personal Fest em Buenos Aires e vi Bebel Gilberto, Jorge Drexler e fugi dos Pet Shop Boys.
Para sobreviver, foram litros de energético com vodka, um amor louco pela vida porteña e uma desistência de uma festa do Goldie (ex caso de Björk)

Esse preâmbulo todo não é para descer a ripa em amantes de shows e grandes eventos, é só para explicar a minha pequena experiência muito particular de ontem.
Topa seguir comigo?

Comprado na terça passada um ingresso de segunda mão e sem ágio pela bagatela de R$216,00, resolvi melhorar minha aposta.
Foram R$250 reais para o motorista levar e buscar. Não, não vamos discutir preços quando o resultado é casa e cama em uma hora.
Cheguei às 19h porque não queria confusão.
Entrei com relativa facilidade – furei a fila com um bom argumento.
O ingresso era de pista, o que significa: não haveria lugar para sentar ou descansar.
Paciência.

Em uma hora, escolhi uma área que julguei calma e com boa visão do palco e comprei minhas fichas de água mineral.
Show sem álcool porque eu não pretendia explorar os banheiros químicos…
Você há de convir comigo que tenho uma certa experiência neste metier.

A banda de abertura começou a apresentação por volta de 20h.
Ato contínuo, as pessoas começaram a sacar celulares e câmeras.
O show acabou, logo veio o do U2 e o que era ato contínuo virou moto-contínuo.

Ohos de plasma

As engenhocas eletrônicas não só fabricavam indícios do crime – sim, “eu fui ao show” – como aproximavam os ídolos de cada um dos fãs. O Adam Clayton que eu via pequenininho, como o gesto que representa o meu salário, preenchia a tela de cristal líquido da minha vizinha da frente.
O aparelhinho dela não só tinha um belo zoom como corrigia problemas de foco e imperfeições de luz.
Nas telas, filtrados e aprisionados, destituídos de espinhas e rugas, isolados da chuva que veio e voltou, os músicos dividiam a performance em pequenos atos (ou seriam curta-metragens?) dirigidos por Marias, Josés e Pafúncios.
O show não acontecia no palco, ele aconteceria mais tarde em conversas de bar, em edições caseiras para o YouTube.
O show seria como um bicho de estimação: seria levado para passear, colocado para dormir e até ganharia roupinhas com cores iguais às do dono.

Não, a média do público pagante não era de garotos – mas de gente que, como eu, tem mais de 30.
Essas pessoas vez ou outra passavam afoitas distribuindo uma cotovelada aqui, outra ali. Derrubavam gotas gordas de cerveja (gelada pelo que pude constatar) e desferiam alguns pisões em unhas encravadas.
As câmeras, celulares – estes eram prioridade.
Não havia abraços de namorados, não havia beijos apaixonados em rápidos momentos mágicos provocados por músicas que vão ao passado e evocam momentos que não voltarão jamais.
O que havia era uma multidão hipnotizada, operadores de câmeras que buscavam disfarçar a câimbra nos braços e que acreditavam estar numa missão para desbravadores.
Registrar o primeiro show da U2 360° Tour no Brasil.

Não sei se, ao fim da história, os milhares de técnicos de som, luz e imagem postaram seus vídeos, fotos e criações.
Sei que pedi a separação de corpos por diferenças irreconciliáveis.

Rio de Janeiro

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A tal da internet

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Hoje estou com dor de garganta (fraca) e não paro de espirrar…
Gripe, virose?
Talvez seja falta de chocolate no sangue.
Ando com desejo de Nhá Benta, não pode?

Se não é isso, é excesso de cloro.
Eu agora me viciei nas velhinhas da hidro geriátrica.
Hoje uma explicava coisas sobre a água, a terra, o mar e o amor para nosso único mosqueteiro.
E uma moça bem idosa, tremendo e andando muito devagar fez sua aula primeira.
Completa.
Eu, esbaforida, tentando malhar e não perder as conversas paralelas, engoli água, deixei o coração disparar.
Essas mocinhas acabam comigo.
Adoro.

Sobre trabalho, ai minha gente, quanto mais eu rezo mais aparece.
Sobre a internet, minha fiel companheira, te agradeço por mais um dia.
Não ter que pegar o carro para resolver a vida é bom demais.
Não é que eu viva numa bolha.
Mas não ter que enfrentar o trânsito, o almoço em shopping, o elevador cheio da firma…
Isto é bom demais.

E justo por causa de tanto conforto me caíram dois ingressos do show do U2 no colo.
Não digo que quanto mais rezo…
Alguém se habilita?

Dois bravos

terça-feira, 5 de abril de 2011

De um lado, o jogador de vôlei que foi “bullyado” pela torcida. Chamado de “gay” à exaustão pelos trogloditas da torcida do Cruzeiro, hoje assumiu ser homossexual e desabafou:

– Eu prefiro não falar sobre isso. Não acho que [minha orientação sexual] seja importante. Quem me vê dentro de quadra e me conhece sabe o que sou. Mas foi uma agressão.”

Do mesmo lado dessa moeda maluca, a atriz Solange Couto.
Com 54 anos de idade e casada com um rapaz de 24, ela está grávida de um menino.
Solange contou que não quer discutir sua gravidez em programas de televisão e que tem sido criticada pela plebe rude. Afinal, “está na idade de ter netos”.

– E o que é idade de ser avó? Por que depois dos 45 a mulher só pode ser avó? Se tiver saúde, vida sexual ativa, onde é que está o senão?
É preconceito, cara. Por que o homem não é tratado assim? É preconceito contra a mulher, e principalmente da mulher contra a mulher.

Ela não tocou na questão de ter um marido muito jovem, o que também pode ser motivo de comentários maldosos.

Ora, minha gente, em pleno século XXI, e Candinha faz das suas… Discutindo opção sexual de atleta e tripudiando do milagre da vida.
Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, a chance de ter um filho com mais de 50 anos é de 1%. Explica o jornal que “é de uma britânica o título oficial de mãe mais velha do mundo por vias naturais. Dawn Brooke deu à luz aos 59, em 1997. Antes, o recorde era de uma americana, de Los Angeles, mãe aos 57.”
Ou seja: a atriz é um caso de aplauso. Afinal, deve ser uma experiência e tanto ser mãe depois dos 50.

E o post só começa agora.
Em minha aula incrível de teatro, choque (light) de gerações.
De um lado, a turma de vinte.
A menina bonitinha e hiperativa que não consegue ficar quieta, que não aceita não como resposta que tenta “corrigir” os outros o tempo todo porque já “estudou” teatro.
Do lado de cá, a velharia que resolveu tentar algo diferente depois de ter caminhado um pouco mais.
Entre os meus (com mais de 30 e 40), há uma que está no teatro porque tem fobia de fazer apresentações em Power Point, há uma CEO de empresa de head hunters que resolveu se dar um sabático…
A turminha de 20 também tem histórias. O menino do Paraná que foi morar no Rio para tentar a carreira de ator, não se adaptou e pintou em Sampa. O piloto de avião (brevê pode ser tirada a partir dos 16 anos) que foi fazer aula para acompanhar a irmã, a irmã engravidou e ele acabou ficando…

O meu ponto é: respeitar o outro.
Respeito é algo que se aprende de pequenino.
Não tem contra-indicação e só traz benefícios.
Respeito é o que nos torna uma nação melhor.
Nessa sociedade louca em que jovens viram chefes sem aprender a ser chefiados, em que tudo urge, refletir, ter calma, assumir um erro e aprender com ele são ações em desuso.

Corra, menino, corra.
Para descobrir, como eu, depois dos 30, que o barato é caminhar devagar e curtir a paisagem.

Meninas e motores

segunda-feira, 4 de abril de 2011

 

Estou vendendo meu carro.
Eu, que sempre fui uma menina típica, que se amarrava no design e não entendia nada de motores, mudei minha vida quando entrei no meu carango atual.
Um motor boxer me fez gostar de carros.

Este motor é de combustão interna com pistões contrapostos que trabalham paralelamente ao solo. Tudo começou com aviões e aí a Porsche resolveu testar…
Ele tem os colos do virabrequim onde ligam-se as bielas, distintos. Ao contrário de um motor em V que os colos são duplos e em cada colo vão 2 bielas (uma para cada lado com seu respectivo ângulo), os motores boxer trabalham de forma alternada, onde cada colo aloja uma única bielas.
A vantagem é que ele fica em uma posição mais baixa, deixando o centro de gravidade do veículo também mais baixo, melhorando dirigibilidade, performance e segurança.
E o que isso quer dizer?

Quer dizer que o barulho é baixo e grave e que o bichinho acelera que é uma loucura.
Um motor boxer famoso? Dois! Porsche 356 e o clássico 911.

Tudo isso para dizer que estou vendendo meu velho companheiro de aventuras (velho de 2008 é quase um bebê) para compar outro maiorzinho…
Vou só atualizar a paixão.

(Ou dar uma repaginada no visual?)

Sobre a previsibilidade

domingo, 3 de abril de 2011

Depois de muita corrida e passeio vagabundo sem rumo, o vira-lata reencontrou o portão de casa.
Não é que ele tenha fugido, mas um dia…
Um dia ele saiu e encontrou a porta de casa fechada.
Para passar o tempo, resolveu andar.
Primeiro um quarteirão.
Uma rua.
Dois quarteirões.
Quase atropelado.
Aprendeu o que os donos nunca conseguiram ensinar.
Atravessou ruas.
Cheiro de pastel de feira.
Fome.
Água de vala.
Volta para casa.
Onde?
Chute. Pedra.
Foi amarrado.
Passou duas noites preso a um portão.
Roeu a corda. E nem abanou o rabo.
Com o fiapo de força que não sabia que tinha, correu.
E deitou exausto no meio de uma praça suja do Centro de São Paulo.
Fraco, faminto, foi mordido por outros cães.
Virou latas.
Coxinha, misto quente, arroz com chuchu.
Salsicha.
Azedo.
Doce.
Com a barriga cheia, quarteirões.
Portão.
Casa.
4 dias.
E seu latido mudou.

(para sempre)

The runaways e outras inspirações

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Certeza não é uma opção: é algo que se sente quando descobrimos que não há outra coisa a fazer.
Minhas decisões do início da semana foram crescendo, crescendo, foram me enchendo de ação e ira.
Seria fácil ser apenas passarinho, com muitos medos, uma grande fé e uma árvore.
Mas eu nasci outro bicho.

Um bicho cheio de plumas e meio vagabundo.
Que não usa as cores para ganhar comida.
E que se desapega rápido.
Eu me apego às coisas imateriais, aos pequenos gestos, ao desconhecido.

Ando cheia de por quês, mesmo sabendo que não há respostas.
Ando mudando tudo.
Os horários, os esportes, as companhias.
Ando cheia de coragem, falando tudo mesmo sem parar.
Ando mesmo bem louca (para quem acha que me conhece).
Ando sem parar.

Essa coisa de não sentir mais as chances escorrendo pela mão, de não ter mais tantas opções, de ter que lidar com as falhas, com o espelho e com as “certezas” é como uma droga perigosa.
E quem não quer?

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Para quem tem mais de 40, ria.
Aos de menos de 30, dobrei o primeiro cabo.
É diferente da euforia boba (nunca nasci para ter 20): surge uma onda de decisões compulsórias interessantes.
Já me perguntaram sobre filhos. Ok, vocês venceram, devo ter – mas não faço força. A gravidez me traz sentimentos ambíguos sobre minha geografia particular. Filhos significam raízes. Pobres dos meus filhos.
Já me perguntaram sobre estética. Ora, esta nova idade combina com uma nova figura.
Já me perguntaram sobre trabalho. Trabalho?
Ele deixou de ocupar meu dia, meus fins de semana, minhas conversas.
Ele é apenas combustível para outras histórias.
Nessa minha neofase, também tenho deixado de lado alguns companheiros de jornada que se perderam em antigas marés.
Ter tempo para si, ter tempo para os outros, ter tempo para ver o mundo – isto é o que me importa hoje.
Não quero amigos protocolares, aqueles do email ou do encontro sempre desmarcado.
Digamos que me descobri um pouco Joan Jett – certas coisas você não escolhe e vamos em frente porque este é o único caminho a seguir.

 

I’m just around the corner till the light of day, yeah