Arquivo de agosto de 2011

Terra estranha

domingo, 14 de agosto de 2011

Carente

Domingo de pais, chove fino e pouco em São Paulo…
Trabalho cedo, como pouco e muito mal.
Saio para almoçar no bom e velho Astor.
Pela primeira vez, o atendimento é péssimo.

Ao meu lado, duas solteironas com sotaque nordestino jogam cabelos para o alto e dividem um espumante nacional.
Falam alto.
Solidão de inverno.

Mais adiante, duas irmãs com óculos enormes de grau e narizes descomunais.
Paulistanas da gema.

Franceses magérrimos e seus tênis coloridos sem o menor estilo.
Passam voando como passarinhos.

Como muito, não resisto…
Saio a caminho do shopping center.
Programa horrível e inevitável de um domingo cinza.
Vou ao semi-novo centro de compras dos ricos ou dos novos representantes da classe.

Volto ao começo do governo Lula.
Aeroportos cheios de gente que trocou a rodoviária por uma viagem mais rápida.
Muito salto alto, perfume, sacolinhas de operadoras de turismo para as massas.

Shopping hoje: gente produzida, maquiada, com sacolinhas de grifes falidas e investigadas pela Receita Federal.
Custe o que custar, uma bolsa jeca de matelassê com corrente dourada e o símbolo da falta de estilo.
“C” de cafona.
Para coroar, mantinhas marrons deixadas sobre assentos das praças “de convívio”.

Tenho ouvido várias histórias de culpas católicas…
Gente esclarecida, amigos e até desconhecidos que saem pelas noites geladas a oferecer cobertores para desabrigados.
Estão todos cuidadosamente dobrados e espalhados por cadeiras de vime plástico – tendência para piscinas e churrasqueiras em edifícios de arquitetura neoclássica.
Serão doadas depois que você se refestelar.
Pensei que carentes fossem os beneficiários das tais instituições.

Carentes são esses novos tempos.
Atirar coisas usadas aos pobres.
Porque as pérolas – essas estão nos pescoços.

Pode ir ao Procon e registre sua queixa.
Há uma lista com minhas iniciais.

ode aos sem ódio

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dificuldade é encontrar o caminho da rotina.
Entre idas e vindas, muitas risadas, estou louca, apaixonada por Regina.
Regina veio fazer uma faxina. Ficou mais um dia, um terceiro e acabou sendo contratada como faz tudo, e de bônus virou amiga e coisa e tal.

Regina que perdeu o primeiro filho num parto tipo assassinato do SUS.
Regina que teve uma segunda filha exato um ano após Humberto partir.
Regina que é baiana de escola de samba.
Regina peso pluma.
Regina avó engraçada que adotou meu japonês cabeludo.

Regina que brigou com os arquitetos por minha causa.
Regina que borda barra em fraldinha de criança.
Regina que fuma de portas fechadas.
Regina que gosta do meu gato.
Da cachorra.

Regina, meu novo sol.

A vida pode ser bem mais simples.
E você, vaidoso, deveras vaidoso.

Por uma vida menos absurda

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tudo começa nesta manhã de frio, sol e chuva com uma moça com uma senhora barriga colocando dois arquitetos para correr.
Quem já fez uma obra sabe que é dor de cabeça do início ao fim.
Pois a minha terminou bem – entre mortos e feridos, como diz a piada, salvaram-se todos… ou quase todos. E obra, como era de se esperar, nunca vai terminar.
Dentro de casa, a arquiteta perdeu a polida educação exigida demandando – aos berros – o pagamento de um serviço inacabado.
Eu a convidei a passear na praça sem um tostão furado no bolso…
Cinco minutos depois, eu e a empregada caímmos na risada.
Cena de novela mexicana de baixo orçamento.
Mas será o Benedito?

Quanto mais velha fico, mais percebo que quem levanta a voz tem grandes chances de estar sem razão.
Gritos e sussurros – dois grandes axiomas desta língua incrível.

Grito – sem razão.
Sussurro – um estilo de vida

De uma coisa pulo para outra como sabiá de papo cheio.

Minha avó materna, quase nos 90, tem 3 irmãos – uma moça e dois mocinhos – todos vivos.
Todos são muito amorosos, unidos e polidos.
Nunca ouvi dizer que tivessem brigado.
Há décadas dividem a herança dos pais. São imóveis e mais imóveis que, bem administrados, rendem um bom dinheirinho.
Agora, chegando no fim da estrada, começaram a se desfazer de alguns.
Esses assuntos, como obras, são espinhosos e dão margem a desentendimentos.
Pois, com eles, nunca.
Reúnem-se, decidem o que fazer, fazem e continuam irmãos lindos e unidos.
Sem gritos, sem fofocas, sem histórias, sem problemas.

Num mundo em que todo mundo grita e ninguém tem razão, os quatro velhinhos são um belo exemplo.
Para que complicar o que já sabemos que não será fácil?
Eu sei, ando piegas, mas é que mundo anda muito absurdo…

Resposta

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Aos trancos, a vida que se mistura a poeira.
O telefone que não para, o trabalho que gruda, as mil tarefas, o MBA para “pessoas” bonitas e inteligentes, o dia, a lua, o frio.
E a acentuação do teclado que insiste em não obedecer. Equipamentos eletrônicos.
A barriga que resolveu ficar enorme de ontem para hoje.
Eu rio desse negócio de dizerem que muda a vida, tem plenitude e lalalá.
A graça em saber do ministro que falou tudo o que pensava (eu o detestava e, agora, nutro um certo respeito rebelde…)
E os risos dos que se preocupam demais com o outro.

Hoje, arrumando documentos, mexi na pasta de memórias do meu pai.
Fotos, documentos, pedaços de jornal.
E, curioso, percebi que ele nunca me escreveu.
Um bilhete, uma carta, um recado.
Com ele, tudo falado.
E nada para a posteridade.

E eu aqui com minhas mãos ressecadas de removedor.
Pensando nessa vontade de escrever a esmo.
E nessa coisa maluca que é conhecer gente sem vê-las.
E nos porquês de quem não acredita nas letras.

Mundo vasto mundo.
Nem Drummond te entenderia.

Ao mundo

terça-feira, 2 de agosto de 2011

desconheço

Um mês em sintonia variada.
Acomodados, somos.
Em diferentes terras, mimetizamos.
De volta a casa, não me reconheci.
Com tudo do avesso, inventei.
E Ana se perdeu para todo o sempre em Ana (qual delas?).

Por aí, comi novos sabores, diferentes caminhadas.
Por aqui, mudei tudo de novo para inventar uma casa.
Sairam funcionários, novas gentes.
E fiquei pensando em como somos descartáveis.
Embora não queiramos.
Amores, trabalhos, histórias – nada é perene.

Agora, sozinha em uma tarde, enrolo.
Não trabalho.
Não faço nada.
Fico sentada esperando a poeira trocar de lugar.
E tudo o que foi marcado, acertado, combinado…
Ah… deixa tudo para outro dia.