Arquivo de setembro de 2011

Santo da terra sem milagres

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

distante

Ontem descobri esse texto na internet:
Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?

Tão bom, tão sem pretensão – e claramente de um forasteiro especial.
Fiquei indo e voltando – começando do meio, voltando ao fim.
Poucos textos têm esse poder. (a interpretação abaixo também ajuda muito)

Onde guardei meu sotaque pão de queijo?
Essa coisa carioca, paulista, nordestina, metida a cidadã do mundo e umas aulas chatas de fonoaudiologia para ser repórter global me fizeram pronunciar as palavras completas, não comer sílabas, a falar pau-sa-da-men-te e com voz de locutora.
Quanta bobagem para nada.
Numa rápida volta a Minas, 2005/2006, liguei para uma amiga gaúcha que mora em Sampa.
E ela me pediu:
– “Fale devagar porque esse dialeto eu não conheço”.
Era a mineiridade aflorando na veia, ressurgindo dos fundos de ferro e minério da minha alma.
E escorrendo pela boca.

Ser mineira.
E não ser daqui.
Ser de lugar nenhum.

Não pertencer é um escudo de vidro.

Tenho raízes de gameleira.
Longas, fartas, que se espalham pela terra.
Dão voltas pelo mundo sem sair do lugar.

Os frutos, pequenos, redondos, macios, são sempre verdes.
Não vivem a adolescência. Não envelhecem. Caem de verdes. Ponto.
As sementes, pequenas, são figos falsos – belos e mentirosos.
A madeira vira gamela.
Gamela que guarda frutas maduras, queijos, pedaços de bolo.
Minha cozinha que mais parece uma feira livre.

Nativa do Brasil, tem galhos longos, altos – com 10, 20 metros de altura.
Também chamada de iroko, as folhas são utilizada no preparo de água sagrada nos rituais da cultura afro basileira.
Nada mal para uma filha de exu.

Raizes.
Ai, se você soubesse como o leite derrama.

…”solidão cuja forma final é um confronto com a própria mortalidade”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

amiga do peito

Aqui no único minuto de silêncio, espero pelo próximo da noite seguinte.

Essa invasão de corpo, de casa, de tudo o que me guardava em mim mexeu muito mais do que hormônios e do que toda essa história de “continuidade “.

Aqui nesse canto fugaz e soturno, meu rabicho de segurança se esvai.
E fico sentada com pernas cruzadas pensando em como me esconder debaixo da mesa.

Enquanto as alegrias falsas correm como rio que deságua em Tietês e Capibaribes, penso nas verdades que nunca ninguém quer ouvir.
Ou dizer.
Que tudo é apenas isso e que não há mágica ou momento eternizado.

A vida pequena nas coisas grandes, médias, minúsculas.
E os riachinhos que não terminam em lugar nenhum.
Água pura e cristalina sem sentido ou direção.

Nunca tive medo de escuro.
É o claro que me assombra.

Voltando à ativa

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

descalça

Depois de milhares de emails, de uma temporada hospitalar e de agradecer ao cara que inventou a analgesia aos 7cm do último tempo, bora acordar para a vida?
Saber que tudo continua e você não pode parar.
Saber que vai ter que trabalhar para chegar ao que era antes – e nem é tanto assim e dá trabalho.
Rodar pelas ruas e avenidas e pensar em novos caminhos.
Ter que lidar com a vil realidade.
Ter que lidar com a falta dela.
Ser você e ter muito mais responsabilidade – mesmo sendo você.
Ser assim.
E ser assado.
Pensar e repensar.
Descobrir que agora não sois mais aquele.
E encontrar em você uma calma tão rara.
Nem choros nem gritos te comovem.
Nem aquela pessoa que nasceu para ser infeliz.
A vida é assim pequenininha.
E vamos tecendo nossas teinhas de aranha-aprendiz.
Para saber que água, o vento e a terra hão de desfazer o seu tricô.
E ninguém saberá que a pequena aranha existiu.
Nem vão ver a teia mal tecida que foi o que melhor que você já fez.

E tudo porque é impossível reinventar rodas.

Backstage

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Onde há fumaça?

E uma água quente me deu boa noite na quarta.
Foi uma ruptura alta – ou seja: estou vazando feito conta-gotas.
Dormi bem, comi queijo com doce de leite, salada de frutas, chocolate, tudo o que não se deve.
Eu sou assim.
Enquantos isso, meus acompanhantes tomavam bordeaux, comiam queijo italiano e jogavam o líquido vermelho sobre 2 computadores, a parede, o iPad.
Eu, da cama, só ria pensando – eles ficam nervosos e eu que tenho o peso de um mamute fora de forma.

Tive uma quinta tranquilinha – até dei uma garibada de duas horas no salão para não ficar espandongada como é praxe.
De noite, quase 24 horas depois de gotejar e ainda não parar (e já acostumada a usar fralda geriátrica), começou uma dorzinha chata no baixo-ventre.
E ela vem e ela volta.
20, 9, 11, 18, 15, 7, 17, 9, 15, 8, 12, 7, 5, 10 minutos de intervalo.
Abro um pacote de Bis.
Dou tchau para a visita.

Fico danada porque estouraram um pacote de pó de gelatina na minha gaveta de facas francesas.
Vejo a tal da gelatina paracendo groselha de raspadinha em dia de verão dos anos 50.
Não quero gelatina e nada que seja vermelho.
Não quero fralda.
Detesto esperar.

E já são meses assim – aprendendo a ter paciência.
E concordando com a Carla Bruni: quando é vou poder – mais uma vez – mamar minha garrafa magnum?
De-tes-to conta-gotas.

Curtindo últimos dias

terça-feira, 20 de setembro de 2011
E sem posts. Esta foto será a única.

 

 

 

Receita da Nonna para uma Sampa fria

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

vovola

Em uma xícara alta, coloque uma colher de sopa de doce de leite argentino.
Acrescente uma colher de sopa de canela. Se quiser, deixe cair pozinho nas bordas para ficar com ar de bacana.
Complete com leite integral fervido, espumante…

E seja feliz con el dulce de los hermanos, com a canela arrancada de uma árvore centenária na fazenda em Pará de Minas e com o leite que chega em caixa e que nem de longe tem gosto de leite de verdade.

Misture tudo e dê uma volta por aí com a pança superando 16kg.
Não há visual que ofusque esse momento desleixado.

Ande com calma pela primeira vez na vida.
Compre um balde para servir de banheira.
Aproveite a mãe que nunca tem tempo para te visitar.
Pense no pai que não vai poder ver nada disso.

E curta um frio manhoso na pequena maçã.
Esqueça do trabalho por uma tarde. Aqueça o coração e esqueça o MBA.

E o tempo começará a andar para trás…
Doce como La Plata e tudo o que é bom e que vem de lá e daqui.

Madrugada

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

lambe-não lambe

Ouvindo os passarinhos que cantam mais alto.

Esperar pela chuva prometida.
Pensar no dia – cheio de vaziezas.
Procurar pelas luzes dessa cidade que, ao contrário do que vendem, dorme.

Madrugada adentro.

Frio sem meu fiel casaco de couro.
Saia curta.

Pensando em quem desperta – como eu.

Rebelando-se e não fazendo nada.
Rabo de olho na janela.
Toque de recolher ao primeiro sinal de raio de sol.

Riscado

domingo, 11 de setembro de 2011

nem tudo é o que parece ser

Eu sei – tudo hoje vai ser sobre um atentado de 10 anos atrás.

Eu acabara de chegar em Cuba para uma temporada e tanto.
Vi e soube de tudo pela internet movida a manivela e pela CNN em espanhol.
De lá, o tempo parado nos anos 50 fez a realidade ser muito diferente.
Não fiquei parada em frente à TV.
Fui correr por laranjais.
Fui pensar em Godard.

Ilha do fim das fantasias.

E o que me interessa hoje é falar dessas coisas que só vemos com auxílio de microscópio.

Você já foi ao cinema para respirar “Riscado”?

A vida da gente.
Com mais baixos do que altos.
Alguns raros momentos de felicidade. Banais.
Um ar de não sermos nada demais.
E bem especiais. Sempre.

Que dia lindo.

É domingo.

Por uma mentira bem contada

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

instantâneo

Então está combinado: vamos fazer uma faxina na rampa do Planalto.
R$80,00 a diária.
Nos últimos tempos tenho me assumido péssima recrutadora de um tipo peculiar de profissional.
A falta de regras, o mercado selvagem fez com que todo tipo de gente busque a vaga.
Sem especialização ou realmente experiência, todos precisam de um lugar ao sol.
E o que acontece?
Eu sou boa de perguntas e descubro – embora não queira saber:
– que a pessoa tem problemas com a justiça porque bateu em um padre (!),
– que o candidato desistiu do último emprego porque o patrão era um viciado em drogas e, além de tudo, ele não o deixava ver televisão enquanto trabalhava,
– que o último patrão não pagou tributos e acabou fazendo um acordo com a pessoa por um quinto do devido (?);
– que veio para entrevista de ressaca…
Não sei se é o momento, mas preciso de um tempo.
Realidade demais me chateia.
E não sei de onde tirei o “talento” de arrancar verdades.

Peço aos santos que me enviem candidato bom de mentiras para eu acabar com essa história de vez.

Please.

Pedrinha

terça-feira, 6 de setembro de 2011

o gato subiu no telhado

Quem sabe, sabe, quem não sabe vá ouvindo.
Em fase de nada podes, faço minhas micro rebeliões.
Dirijo para lugares distantes.
E vejo os jardins das casas ricas e as empregadas que saem apressadas pela calçada.
É tarde, é tarde.
E ninguém nota flores ou árvores frondosas.
Volto pelo sol.
Reunião, discussão – o de sempre com novos interlocutores.
Casa.
Passeio com cachorro.
O pinguim anda melhor, mais ereto, mais fagueiro.
Cachorro com bolinha, casa toda arrumadinha.
Animada, enfrentei a medicina, a família, os conselheiros.
Hoje abri uma latinha.
Interinha a latinha.
De trigo – minha -preferida.
Bebi devagar.
E minha barriga ficou quietinha, degustando.

É tarde, é tarde.
Atire a primeira pedra.