Arquivo de outubro de 2011

Quanto tempo você dormiu?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

enraizamento

Longo sono – disseram.
Pés dormentes. Pulso, devagar.
Tentar lembrar – e falhar.
Poeira.

O cheiro de casa.
A vida em volta. Há vida.
O corpo, estranho.
Os músculos dos olhos fazendo força.
Os sons.

Ontem foi Paris?
Recife.
Rio.
Nova York.
Salvador.
Vôos cegos.

Hoje, chuva.
Limpando asfaltos.
Perdendo as horas.
O corpo, pesado, e insistentemente São Paulo.

Devagar.
Desperta.
Pulsando.
Como se tudo ao mesmo tempo (perdido).
E hoje, o ponto.

Como é definitiva uma certeza.
Justo aquela que chega sem avisar.

30 minutos

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Do que você é capaz?
Fazer salada, massa e sobremesa.
Tomar banho, ir ao banco e ainda chegar cedo para a reunião?
Ir de metrô, ônibus e táxi?
Bicicleta?
Ouvir Marvin Gaye até debaixo d´água?

Enquanto ministros caem por aí, eu mesma tomei um tombinho.
Ando de bota ortopédica para lá e para cá – até que me esqueci da dor e calcei, distraída, uma sapatilha de balé.
Dar uma voltinha no quarteirão e fugir da chuva.
Melhor analgésico não há.

São Paulo com calor fica assim tão diferente.
Parece sorvete de japonês – enclausurado em massa frita.
E eu? Pareço sorvete.

eu pareço

Pega, pega ladrão

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Uma festa perdida em 1999

Alguém, por favor, corra e pegue.
Pegue esse ladrão.
Que levou meus longos cabelos ruivos (falsos).
Que me tirou daquela festa em um bar na periferia cheia de árvores de minha cidade natal.
Alguém segure.
Segure aquele que saiu com minha caixa de fitas k7 e não devolveu.
Que tocou Evaldo Braga nos bailinhos.
Que foi ao Estrela.
Que pulou na Broaday sem “w” e tomou Selvagem sem parar.
Que achou engraçado eu ser garçonete em show de rock.
Que riu do meu vegetarianismo.
Alguém amarre numa árvore, pois ele levou as tardes de domingo com Grupo Galpão grátis na Praça do Papa.
Que me emprestou uma saia rosa de paetês para a festa de abertura do Festival de Cinema em Tiradentes.
Que se surpreendeu com meu cabelão ter sido cortado.
E que riu porque pintei de louro, preto, ruivo – tudo junto numa só cabeça.
Aquele que esqueceu do som e usou as caixas do carro para animar a festa.
Pegue, prenda, não deixe escapar.
E peça a ele que faça o serviço bem feito.
Que leve também as lembranças.
Pois isto é tortura.

Futurologia furada

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ontem à noite, liguei para uma astróloga para saber o que vem por aí.

Urano ainda bagunça meu coreto: vira tudo de pernas para o ar, manda eu fazer coisas que jamais faria e tal e coisa.
Junho do ano que vem é período fértil para projetos e outros quetais – a astróloga, empolgadíssima e eu já pensando em jogar sal na Terra.

Talvez seja hora de virar uma menina boa, uma mãe exemplar, uma funcionária de carreira ou virar do avesso mesmo.
E ligar para minha gerente do banco e pedir para ela cravar uma previsão para 2012.

(Risos)

Para quem está no Brasil, dia de muito sol e uma chuva falsa.
Pouco tempo, muita coisa, e uma semana que voa.
Os passarinhos, não vi.
Eles também não me procuraram.

Fechada por um gigantesco caminhão de mudança, pensei: isso é um sinal.
O caminhão me fez perder dez minutos do dia – e a cuca foi longe: afinal, quem não está “de mudança”?
Por isso, muletinhas simpáticas: smartphones, tablets, pagers, cigarros, unas copas e óculos de sol bem grandes para ficarmos escondidinhos do real.
Tudo misturado e para ontem para não pensarmos no hoje.
E embolar o meio de campo para fugir do que interessa.

Decidida a não perder os tais dez minutos, acenei para o motorista do caminhão, fechei os olhos, liguei na rádio USP e o que tocava?
Bach, A Arte da Fuga

E você vem com essa de me chamar de lugar comum…

Acaso

domingo, 23 de outubro de 2011

leitura de mão

Aquele que não existe.
Que não passou por aqui.

Duas criaturas separadas por um dia, quatro estórias, um encontro e alguns adeus.
Uma fronteira.

Era uma vez uma história de desbravadores.
A vida que se abriu como trilha a facão
Andanças
Praias
Sertões
Finalmente, paulicéia cheia de pontas
Novamente, montanhas – a separar e a reunir

Eram fotos de peixes, de paradas de ônibus
Inocências e descobertas
Eram certezas verdes
Antagônicas
Suaves como coisas de Cecília

Foi-se a mãe de um
O pai da outra
Ficou a pequena história
E uma pá de cal num veio profundo
Coisas mínimas
Croniquetas de folhetim de bairro

E eis que 0,1,1,0,0 – poema binário do acaso inexistente
O maior caminho entre os pontos
e novas fotos
ao acaso?

Um dia apenas, 15 anos, tanta coisa a contar.
Duas criaturinhas lindas
e novas histórias

Catavento

domingo, 23 de outubro de 2011

pêlos

As flores de lá duram menos.
Aqui, voam idéias.
Se não fosse Santos Dumont, seria outra esta história?

Haveria cartas como as de 1999?
Menos dores de estrada, mais chás, cafés, mais sono, rede, maisena?
As luzes, quem as acenderia?
Os passarinhos encontrariam a janela?

Descontrolo tudo através da pequena tela.
Reencontro as cores, telefone.
Futuro?

Avião.
Tão incerto.
Quase sempre acerto.
Perto.

Fim de domingo.
Sempre que não penso,
(In)tenso.

Umbigo enterrado

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fazenda do Pará

Ao lado de onde estamos na velha fotografia havia uma enorme castanheira.
Dela, delícias pequeninas do Pará.
Horas incansáveis de buscas entre folhas, terra e gravetos.
Tec, tac, tec.
Pedras para quebrar a casca.

O curral.
Ainda ouço bezerros aos berros.
Mães que enchiam tinas respondem com caaaaaalma.
Tomar o leite ainda quente e misturar um pouco de açúcar cristal na espuma densa.
Conhaque, espuma e leite gordo.

Suco de folha colorida.
Borboleta 89.
Contar bichos de pé.
Raspar casca de canela.

Meu avô tem hoje 90 anos.
Falo com ele todas as semanas.
Para eu voltar a vê-lo em carne, osso, pescoço e poesia faltam alguns aeroportos e quase dois meses.
Enquanto isso, matamos saudades em telefonemas aos domingos.

Deve ser grande saber-se pequeno com tanta estrada.

ins(piração)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Fofoca

Em cinco minutos, fico sabendo que :

  • A tal modelo brasileira mudou da casa onde, vejam só, deu a luz;
  • A atriz sem expressão vai processar o jogador que não faz gols e, agora, quem diria, ela namora um estelionatário;
  • Estelionatário que é empresário daquele cantor que compra carro importado com desconto polpudo para “ajudar” – quase sem saber – a máfia israelense a lavar dinheiro;
  • A primeira-dama, modelo, cantora e atriz teve bebê;
  • E o feto da cantora bissexta nacional é o autor do tal processo contra o humorista que não faz ninguém rir.

Nosso cérebro é uma caixa preta.
Como pode tanta informação desimportante ser processada por um músculo tão incrível?

E eu aqui, além de ler besteiras, inventando uma maneira de ganhar um minuto de puro silêncio e meia hora de sono.
Boa noite, cocada.

Fio de luz e as vespas

terça-feira, 18 de outubro de 2011

tosco e limpo

Dormindo pouco – como me sinto melhor.
Viciada em comprar algodão em rolo.
Fazendo bolinhas com as mãos.
E o mundo gira, gira, gira, gira.
Aqui dentro, músicas de todos os tempos.
Manhattans, Áfricas e Casablanca. Ad Dār al Bayḍā.
Um ritual sufi na Via Láctea.

Deus é amoroso.
Mas faltou trazer meu negroni.
Quero aquele gole que o velho uruguaio me ofereceu em Punta.
Desci da bicicleta motorizada. Olhei para a cor de laranja e ele, elegante e desafiador, ofereceu.
Bebi sob o sol de 21h.
O bar aplaudiu e a bicicletinha me levou longe e rápido.

fina e sujinha

Sem saber se venta ou faz calor.
Sem querer saber.

E eis que um fiapinho de luz entrou.
Revelou os dedos do pé direito.

Sumiu o frio, pensei em Havanas, Jardins Botânicos, janeiros em São Paulo.
Comecei a contar.
Um, dois, três, quatro, cinco.
Cinco dedos, cindo dias, cinco noites, cinco semanas, cinco – tantas coisas.
Cantar – eu sou multicoisas.

Saí de mim e fui viajar.
Deu vontade de nadar.
E as árvores balançavam forte – eu vi.
Como um furação no Caribe.
Cabe uma árvore dentro do apartamento?
Só a de 30 milhões de anos, Pinus succinites.

Calorzinho bom.
Musiquinha caipira.
Drink dos anos 20.
Cheiro de limão capeta.

Uma tarde de âmbar.

Banzo brasileiro

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Por que escrevo?
Não sei.
Pois não tenho ganas de ser lida, mas o faço em público.
Não quero livros, não quero apoio, reconhecimento, nada.
Não sei “me” explicar. Contente-se.

Desde minha pausa forçada, os (poucos) leitores minguaram.
Na rede é assim, sem constância, sem ninguém.
O mais interessante é que, sem alegria, mais ninguém.
Desde que o mundo é mundo, ganham os alegres, os belos, perdem os tímidos, os tristes.
Com alguns anos de atraso, talvez ganhem – postumamente – os melancólicos.

E o que fazer?
Ter mais de 30 e quase 40.
Minha empolgação de sair dos 20 se refletiu em tantas questões.
Não ser mais uma metralhadora sem mira.
Ser apenas mais alguém – e satisfeita e em ter apenas isto como meta.
Agora, com quase 40, reviravoltas com atraso.
E uma contagem das perdas.
Do viço, dos parentes, dos trabalhos com sobrenome, da vontade de parecer que tudo está sempre bem.

Não diria “êxtase”.
Mas contentamento.
Saber o que se é.
Esperar mais e contentar-se com muito menos.
Ser o que se é.

E acordar nesta segunda-feira com banzo.
Banzo de quem deu uma volta maluca para descobrir que não queria ter saido do lugar.