Arquivo de janeiro de 2012

Oportunidade, o velho dilema

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

(!)

Pois é – a vida continua.

E não é que me cai do céu uma história linda para quem é leve e solto?
E eu, com espírito livrérrimo, corpo enraizado, não comprei logo de cara.

(É que mudei.)

E o lado de lá tem que estar ciente da minha mudança.
Eu topo, mas preciso de um tempinho para o meu pequeno.

(Eu sempre soube que isso iria acontecer e, agora, de prima, fiquei espantada com minha firmeza.)
O pacote mudou, mas sou eu ainda de fato.

(Creia. Aposte.)

E com mais pique, mais gana, menos dispersa.
Livre (pero no mucho), leve (de mentirinha) e soltinha na marola para fazer coisas bacanas.

Eu voltei.

Sol

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

calor

Verão no Brasil.
Chove, chove, chove.
Lama, escuro, frio
Restos do que já foi.

De repente, o sol.

Para dar conta de roupas úmidas em varais improvisados em cercas,
arames farpados,
barbantes,
para secar restos de tudo o que se perdeu (inclusive gente),
ele chega forte.
Ilumina os pontos cegos.
Clareia.

Eu entro na banheira de maiô e fecho os olhos.
Estico pernas e braços.
Adormeço.

Sol de novo esta tarde.

Nylon

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Começo o ano sem doméstica.
A fofa passou mês e meio na flauta – eu estava em Recife – e, na volta, depois de uma semana, resolveu partir.

bandida

Levou com ela alguns pertences (meus) – certamente porque terá muitas, muitas saudades de mim.
Um jogo de pratos, um apito, uma corrente de prata, uma máscara de Veneza, um soutien de renda, uma xícara feia de Paris.

Eu, um pouco exaltada, corri para a estante da sala.
Balzac, Rimbaud, Machado, Rosa, Drummond – todos intocados.
E bastante empoeirados sem a minha ferina presença de patroa.

Aliviada, desejei que, em pleno reveillon da Paulista, o soutien arrebentasse, que a corrente se partisse e, no ápice da chuva, ela tivesse que se ajoelhar no chão para procurá-la.
Ali, com os peitos escorrendo e a prata perdida para sempre na enxurrada, ela talvez se desse conta de que deixou ouro para trás.

Mal fechei o conto da ladra, cometi um ato freudiano.
Mandei instalar redes de proteção nas janelas.
E estou aqui, como bicho de zoológico, vendo a vida vazando por quadradinhos de nylon.
Certamente o mundo, agora, anda mais protegido dessa que vos escreve.