Arquivo de março de 2012

Povo da madrugada

sábado, 31 de março de 2012

Vôo cego


Sim.
Cá estamos.
Aqui, frio.
Aí, não sei.
Aqui, testes com a sua ingenuidade.
Aí, busca do impossível.
Sim, madrugamos.
Eu, você, e, quem sabe, alguns bilhões.
Giramundo e todos nadando em cabos de fibra ótica.
Para você me ver aí, vou e volto por três américas.
Na areia do oceano.
Quase sem atraso.
Sem sair daqui.
Sim.
Estamos separados por um fio de cabelo.
Nossas idéias não batem.
Mas tudo bem.

Isto é só um teste.
Um.
Dois.
Três.

Testando.

Tanto riso, ó…

quinta-feira, 29 de março de 2012

Direto da Delegacia

Começo o dia sendo acordada pelas notícias.
Velório do dramaturgo, artista, chargista e grande frasista.
Tinha lá algumas namoradas, Cora Ronái incluída, mas manteve-se casado por 64 anos.
O tumor do ex-presidente desapareceu e ele diz que sentiu-se como recebendo a bomba de Hiroshima.
Encontraram ossos de hominídio que tinha pés de macaco.
O técnico da seleção quase perde a direção.
Estudantes de direito da UFPR fazem cartilha explicando como “pegar” uma mulher usando as leis.
Tudo tão ambíguo e sugestivo.
Mas não, nem pense nisso.
Humor hoje em dia é para a polícia ou magistrado decidirem o que fazer.

Não pode fazer piada com tumor. Espezinhar o doente?
Não pode ser incorreto.
Nem falar das escapulidas bizarras do ex-jogador de futebol.
Os pobres meninos, bem bobos, fazem graça com a interpretação das leis e as feministas, a imprensa e até o Oscar Maroni saem com paus, pedras e verve.

Onde anda a graça?
Não está com a macaca – disso eu sei.
Pois tem pés de pato, sapato de palhaço.
Onde anda o savoir fair?
Onde anda o riso?

Hoje tudo é ferro e fogo.
Tudo é preto no branco.
Pedra.
Não tem no meio do caminho.

Meninos do Paraná, eu, que fui aprovada nesta mesma faculdade para estudar Direito mas fiz tudo errado, morri de rir da cartilha e teria adorado estar entre vocês.
Presidente, que comparação disparatada.
Nem exumando o corpo do Tim, a coisa muda de figura.
Vamos tentar com a sexta-feira…

Campanha pela alopração geral

quarta-feira, 28 de março de 2012
blues

Meu dia.

Acordo e controlo minha pequena empresa de fundo de quintal com 3 empregados diretos e 4 indiretos.
Tomo café depois de todos eles.
Vejo números voando, subtração, números grudados na parede.
Nem assim a conta fecha.
Penso em distribuir meu CV pela internet.
Quem sabe pedir a ajuda do leitor.
PR Latam com MBA internacional procura.
Lavo, passo, cozinho e viajo só um pouquinho.
Fuga de las galinas.
Millôr morreu.
Fico vendo mil charges, frases inteligentíssimas, desenhos, esboços.
Viva Millôr, que seria Milton, que perdeu a mãe quando bebê e o pai aos 10 anos de idade.
No Facebook, campanha pela volta do Funchicórea.
Sugar blues desde pirralhinho.
Saio, pego metrô.
Saudade de usar salto alto e de ter contracheque no fim do mês.
Saudade de minhas festas around the globe.
Penso no Millôr.
Em Funchicórea.
Não tenho nem chocolate em casa.

Vou para cozinha e como uma colher de açúcar mascavo.

Perdida no asfalto

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ultimamente estou com idéia fixa.
Mão de obra.
Num país que está na moda, como pode haver tanta disparidade?
De um lado, essa que vos escreve só circula com ou encontra poliglota com MBA em Harvard e todas essas figurinhas de álbum da Copa.
E, do outro, gente simples com todo tipo de história.
Raladores, perdidos na noite, valorosos, esforçados, malucos, irrecuperáveis.
Como?
Numa estatística sem instituto aferidor, nesse patamar sem – pelo menos – duas línguas e colégio particular, conta muito o caráter da pessoa, seus valores.
Menos de onde veio.
E eu não entendo muito como pudemos ter um presidente iletrado e ainda não temos espaço para seus iguais.
Enfim, a conversa vai longe e você não está com tempo para isso.
Vou ficar aqui pensando em como transformar esse fosso em notícia.

Inquieto

segunda-feira, 26 de março de 2012

Um filme que passou meio batido – a não ser por uns e outros que anunciaram a estréia do filho do Dennis Hopper, Henry.
Não ganhou festivais, foi até meio mal falado.
Mas é que falar de gente jovem que morre não é algo tão pop – a não ser que haja campanha para arrecadar fundos (se ele estiver doente) ou se o morto não for anônimo.

Restless é daquelas coisas que passam e te deixam virado.
Das coisas subentendidas.
Do tempo inexorável.
De todas as batalhas sempre perdidas.
Da falta.

Das coisas mínimas.
E todas muito imaginadas.

 

Tudo

domingo, 25 de março de 2012

O que não posso mais ser.
Tudo o que fatalmente adiei.
Não poder.
Simplesmente jogar para o alto.
Decidir hoje, transformar tudo amanhã.
Mudar e nem piscar.
Ah…
Acordar num domingo e ficar esticando as pernas na cama.
Affogato de 8h as 18h.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.

Não, não quero seu conselho, seu sentimento, sua experiência.
Não quero status quo.
Não quero ser boa ou má.
Nem quero a vida que eu tinha antes.
Não quero que me mandem.
Não quero papo para o ar.
Não quero ir com o vento.

(ser inconstante)

Não quero nada hoje, amanhã, segunda a sexta.
Quero tudo.

Ladrão

quinta-feira, 22 de março de 2012

Meu gato vagabundo descobriu uma nova diversão.

k, l, n, m, seta, seta, seta

Com as unhas arranha o teclado e, pacientemente, aguarda.
Faz pressão dali, ajuda com os caninos e plec!
Uma por uma, arranca as teclas.
Na assistência avisaram: de 1 a 2 meses para chegar e não sai por menos de 300 reais.
Não aceitam pedido de uma tecla – ou trocam tudo ou nada feito.
Hoje começou pela seta.
Depois de olhar no aspirador, levantar cama e sofás, foi descoberta presa nos pés da minha banheira vitoriana.
Agora, chego em casa.
M, N, K, L e três setas.
Um rastro de gato afobado pego com a boca no alfabeto.
Segurei o peludo em um braço, o chinelo no outro e tentei arrumar a bagunça.
Minha aula de datilografia não se perdeu nos anos 80.
Do lado do N, M.MM MMMMMM.
Opa, é que estou tentando consertar.

O M de pé quebrado.
Porque o gato, nem com o pandeiro carimbado, tem reparo.
M M M M M M

Maya

quarta-feira, 21 de março de 2012

Maya

De uns tempos para cá me encantei com uma deusa de hindus e budistas.
Maya, o “Universo Material”, a “Mãe da Criação”, “A que costura a Teia da Vida”.
Seus atributos especiais são inteligência, criatividade, água e magia.
Ela é sempre representada erguendo os véus da forma terrena para revelar a verdadeira natureza do Universo.

De acordo com os Vedas, Shakti vem a ser Maya ou uma ilusão que lança um véu sobre Brahman, a última realidade.
O mundo em que vivemos é feito de maya (ilusão), e embora possamos ter a impressão de que o mundo é real, a única verdade é Brahma, a divindade suprema.

Gosto de Maya porque ela mostra que nada é o que pensamos ser.
Não existe corpo, não existe mundo, não existe matéria.
Tudo é uma grande ilusão para aquietar nossas mentes pequenas.

Não, Maya não é Brasília e suas promessas vãs de crescimento e civilidade.
Maya não é o menino rico que mata o ciclista ao trafegar pelo acostamento.
Maya não é nem vale dinheiro.
Maya é mais ou menos como se, um dia, distraídos, tirássemos a calça e, junto com ela, as pernas. A camisa e os braços.
Aos poucos, tiraríamos tudo – corpo e membros.
Por último, a cabeça.
Ao tirá-la, não existiria mais um eu.
Maya desconstrói tudo e deixa nada no lugar.

Não é fascinante ao mesmo tempo que traz uma angústia danada?
Maya era a mãe de Buddha.

Faltam 3

segunda-feira, 19 de março de 2012

…para esse blog ter que tomar uma atitude.
ou MUDA de nome ou ACABA.
Afinal são muitos, mas muitos mais do que 30.

Hoje foi dia de festa.
Acordei cedo, passei na feirinha de orgânicos – comprei uma coisa e outra, muitos temperos: erva doce, manjericão, hortelã, açafrão (a raiz verdadeira).
A cachorra me acompanhou. Ela conhece os caminhos melhor do que eu.
Passei na venda de secos e molhados – “seu Manuel, dois adaptadores de tomada”.
“- Tem que ser de 20 amperes”.
Passei na lojinha de brinquedos: piso de EVA para servir de carpete do banheiro dos gatos.
Dei um olá para o japonês que tão bem costura minhas roupas.
Um abraço na dona Maria e no baixinho da padaria.
Recebi 200 votos de muito bem, vá mais longe.

Moro em São Paulo, mais de 10 milhões de habitantes.
Caminho a pé pelas ruas.
Conheço o padeiro, o lixeiro, o guardador de carros.
Não ando de bicicleta.
Selvagem demais para um mundo que levanta poeira.

Vejo sabiá todo dia na minha praça preferida.
Dou bom dia aos sanhaços que disputam água doce na janela.
Abrigada aqui desde 1997.
São Paulo insana me aquece.

Já a traí com Fortalezas, Rios, Havanas, Paris.
Dei voltas por Nova York.
Desdenhei da pequena maçã.

Ultimamente…
Ando vendo tanta coisa bela na selva de pedra.

Não me fale de trânsito, assalto, explosão de caixa eletrônico, desemprego.
São Paulo é dura, é como pedra mineira.
Uma vez lapidada…
Turmalina, safira, ametista.

São Paulo, receba hoje essa ode.

Foto extraída do http://conexoesvisuais.wordpress.com/ Parece coisa do saudoso Klaus Mitteldorf

Daqui de cima

sexta-feira, 16 de março de 2012

Debussy e Satie (Foto: Igor Stravinsky)

Daqui do alto vejo o guitarrista no telhado.
Amplificador ligado no último volume, standards de jazz entremeados por rock clássico.
A franja bate nos olhos fechados e os dedos correm pelas cordas de metal.

Quem passa na rua neste fim de tarde assustado por redemoinhos de vento não sabe bem de onde vem o som.
As árvores se curvam e a música sobe até o sétimo andar.

Eu, que passei a tarde naquela casa bacana, sendo servida por um garçom de roupa de seda preta, estou meio altinha de champagne.
Brincar de moça bem nascida até que não foi má idéia.
Pulei a sobremesa para não estragar o paladar.

Cheguei em casa com passinhos tontos, cumpri todas as minhas obrigações.
Agora estou com as pernas (bambas) do lado de fora da janela ouvindo o guitarrista no telhado.

A noite cai e ele para.
É um menino, com franja que escorre pelos olhos.
Mamãe chamou para tomar sopa.

Satie, a culpa é toda sua.