Arquivo de abril de 2012

Capítulo sei lá

domingo, 29 de abril de 2012

Gelada.
Acordei com os pés molhados.
Esse suor indicava tempo de fazer a mala.
Olhei para a casa.
Portas e paredes brancas.
Algumas marcas do tempo.
Tudo muito bonitinho para o casal de namorados que queria começar vida nova.
Pagando bem…Nem pensei.
Pés sujos, unhas grandes.
Vermelhas cor de boca da Gal Costa.
Não dava mais para esperar.
Fiz a mochila.
Liguei para uma conhecida.
Gatos, cachorro – um pacote de dinheiro.
Prometa que dará muito carinho.
Táxi. Aeroporto.
Como é cara uma passagem comprada no balcão.
Fica quase impossível o preço de um tíquete só de ida.
Vamos.
Vamos mudar meu mundo mais uma vez

Tá frio

Capítulo 12 – O bode

quinta-feira, 26 de abril de 2012
humble is my buzz

humble is my buzz

A vaca sagrada no meio da sala.
O bode profano no quintal.

Nessa vida independente, sem garotos chatos no pé, sem viagens ao redor do mundo na classe econômica e sem trabalho insano e inútil no fim de semana, tudo é muito tentador.
Você pode fazer absolutamente o que quiser e a toda hora.
E, não raramente, você quer mesmo é ficar quieto.
Porém, é preciso ter fé.

Esta semana, as estruturas da minha Igreja foram novamente abaladas por multinacionais com propostas polpudas e a velha história de geração Y, viagens low cost e pilhas de trabalho.
Ok, é a marca mais cara, adorada, tecnológica do mundo.
Certamente “você” vai parar na Califórnia.

Tive que atualizar o Linkedin.
Falar mil vezes em inglês. Até em espanhol e francês.
Pensei, repensei.
Liguei para os universitários.
Fiquei com gás. No pique.
A torcida toda mandando seguir em frente.

Entrei numas.
Chamei o bode e vaca.
Tomamos um dry martini.
Fizemos bebê dormir.
Terminamos a noitada num pacto.

Recusei.
Minha vida agora é essa: sem gente chata, sem viagem de pobre, sem fim de semana de trabalho desperdiçado.
Release? Videozinho?
Fofoca de corredor!?
Sacou tudo, Batman.

Sorry, periferia gringa.
Money is all I get.

Capítulo 11 – Vista meu terno

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Generalista seria mesmo alguém que não sabe nada?
Carregava seu tablet para todos os lados – a nova muleta.
Jornais, mensagens, filmes, músicas – uma forma “portátil” de alimentar seu autismo social.

Como passar o tempo sendo ninguém?
Pensava que era uma forma de libertação.
Mas, ao fugir do labirinto, via-se só.
Refugiava-se naquela tela de computador.
E recusava-se a ficar em casa.

Ia a parques, ao café, muitas vezes caminhava sem rumo.
Andava a pé na cidade dos carros.
O estado das calçadas estava cada vez pior.
Era interessante ir ao banco quando não havia clientes.
Supermercados vazios.
Fazer exame de sangue às 16h e ser adulada por um sem número de funcionários ociosos.

Ser rico é outra coisa.
Ser rico é furar filas.
Não encontrar vazios em horários alternativos.

Naquela manhã percebeu um movimento estranho em seu mundo virtual.
Fanstasmas do passado pesquisando sua vida.
Sentiu um certo incômodo.
Talvez esta fosse sua única conexão com o mundo dos vivos.
Descobrir que ainda despertava curiosidade e inveja.
Não gostou.

Resolveu passar o dia em casa sem consultar os oráculos da internet.

casa

 

Capítulo 10

terça-feira, 24 de abril de 2012

Agenda social cheia.
Casamento em Florianópolis.
Batizado em Belo Horizonte.
Cerimônia budista em Ribeirão Preto.

Qual seria seu repertório?
Iria encontrar com o cara que o dispensou do trabalho.
Com ex-colegas da ribalta.
Com celebridades.
Praia. Montanha. Estrada. Avião.

Depois de dois anos enjaulado, seu corpo não era o mesmo.
Os lindos cabelos haviam sido cortados.
Não tinha cartão de visita.
Não trabalhava.

Via espartanamente.
Tentava escrever para se libertar dos fantasmas.

Voltar ao mundo dos vivos.
Escolher uma personagem.
Vestí-la de corpo inteiro.
Sorrir sem motivo.

Pensou numa saída: chegar tarde.
Sair cedo porque só conseguiu um vôo que partia em pouco tempo.
Falar pouco.
Ouvir tudo.
Beber.

Capítulo 9 – Passagem do tempo

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Extraído da Folha de S.Paulo de 23/04/2012 Caderno Ilustrada

No sábado, malabarismos para sair de casa à noite e dirigir até o outro lado da cidade.
Mr.D.
Ao chegar, faltava meia hora.
Tempo para espantar a virose (que derrubou a onça) com um desidratador profissional: álcool etílico.
E algo mais trash – pecado novo -: um cachorro quente.

O assento era na lateral esquerda do palco.
Não muito longe, nem tão perto de Mr.D.
E as 22h em ponto – ele também acredita em compromisso marcado – Mr. apareceu com um chapelão daqueles.
Deve ter algo a ver com blues.

A voz parecia um trovão. Mais áspera que nunca.
Tão rouca e rasgada que era difícil entender o que ele cantava.
Os arranjos de clássicos foram todos renovados, alterados, transformados.
O povo, que não entendia nada, gritava, aplaudia, urrava.
Pensou que também não entendia nada.
Não fotografou, filmou, não registrou nada.
Decidiu: nada de ficar guardando o presente em imagens.

Zushe ben Avraham nasceu no hospital St. Mary de Duluth, em Minnesota, no dia 24 de maio de 1941.
Tem, portanto, 70 anos.
Desde o começo da carreira, foi um bicho arredio.
No auge do rock, quis folk.
“A coisa sobre o rock’n’roll é que, para mim, de qualquer jeito ele não era suficiente… Havia bons bordões e ritmo pulsante… mas as canções não eram sérias ou não refletiam a vida de um modo realista. Eu sabia que quando eu entrei na música folk, era um tipo de coisa mais sério. As canções eram enchidas com mais desespero, mais tristeza, mais triunfo, mais fé no sobrenatural, sentimentos mais profundos.”

Pensou, enquanto a banda arrepiava aquele ambiente escuro, que seria melhor se isso fosse um pequeno café numa cidade gelada.
Para quê tanta gente no mundo?
Nas cadeiras de trás, garotos empolgados, repetiam “-Nossa velho, essa é famosa…” sem fazer a mínima idéia do que estava sendo tocado.

“Você nasce, sabe, com nomes errados, pais errados. Digo, isso acontece. Você se chama do que quiser se chamar. Este é o país da liberdade”
Mr.D, talvez em seu país – de quem era crítica ferrenha – seja mesmo o da liberdade.
Este país é apenas mais um da desigualdade.

O judeu que converteu-se ao cristianismo e, depois, resolveu dar meio passo atrás.
Que foi bem honesto em seu trabalho e não fez nada para agradar, nem tão pouco para desagradar.
Fez o que tinha que fazer.
Algumas vezes certo, muitas outras, errado.

Envelhecer.
Processo lento e que nem todo mundo entende.
Poucos chegam lá.
Pobres dos que ficam para trás – caricaturas da espécie.

Capítulo 8

sexta-feira, 20 de abril de 2012

vento

Saiu da caixa, olhou em volta.
Neve, asfalto sujo.
Mas não fazia frio.
Tentou caminhar.
Impossível – os pés escorregavam.
Com muito custo apoiou-se na parede.
Cada passo demorava incontáveis minutos.
Ela lutava para ficar em pé.
E não fazia a mínima idéia de onde estava.
As pessoas passavam rápido.
Todas encapotadas, com botas de borracha, luvas, gorros.
Ela, com sapatos de salto, um vestido de festa, “a maquiagem deve estar borrada” – pensou.

Que idéia estúpida a de entrar nesse jogo.
Onde estaria?
O frio…
Porque não sentia nada?

Um senhor de chapéu, casaco e com um daqueles copos descartáveis na mão parou.
Ela pediu ajuda.
Ele, sem falar uma palavra ou perguntar qualquer coisa, estendeu a mão.
Deu a ela o copo e algum dinheiro.
Fez sinal para o táxi.
Falou com o motorista em uma língua estranha.
Parecia ser do leste europeu.

Ela não agradeceu, simplesmente entrou no carro.
Olhava para os prédios enquanto tomava o café já meio gelado e muito doce.

rotavírus

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Outro autor – capítulo s/n

quarta-feira, 18 de abril de 2012
espaço vazio

vazio

Meus nervos estão explodindo e meu corpo está tenso
Eu sinto que o mundo inteiro me prensou contra a cerca
Ok, eu acho que seguro o tranco.

Quantas vezes você já ouviu alguém dizer:
“Se eu tivesse o dinheiro, eu faria as coisas do meu jeito.”
Hoje e amanhã sempre haverá um tolo como eu

De qualquer forma, tempo é tudo o que tenho para dar
Se você quiser…

As sombras estão caindo e eu fiquei aqui o dia todo
Está muito quente para dormir e o tempo está escapando
Eu ainda tenho as cicatrizes que o sol não cura

Bem, meu senso de humanidade tem ido pelo ralo
Por trás de cada coisa bonita existe algum tipo de dor.

Não ficou escuro ainda, mas está quase…

(por Mr.D)

Capítulo 7

terça-feira, 17 de abril de 2012

Terça-feira.

Minha pequena

Quase não cabia em seu velho vestido.
Mais uma vez, o casaco de couro resolveria as coisas.

Não avisou.
Pegou as chaves e saiu.

Ainda era cedo.
Rodou pelas ruas, olhou portas de bar.
Estacionou.

Foi direto para o balcão.
Ficou ali, observando pessoas, ouvindo conversas.
Não era daquelas que, de tempos em tempos, olhava para o celular, fingia que mandava mensagens.
Bebida devagar para passar o tempo.

Quase ninguém percebia sua figura pálida, distante.
Pequena e frágil – quem diria.
Tinha olhos tão negros que não era possível ver as pupilas.
Um ou outro, com sorte, desviava o olhar.

Ali, todos falavam alto.

Ela gostava assim.
Mais fácil.

Enquanto buscava, bebia.
Pediu mais um. E mais um.

De repente, um frio na espinha.
Finalmente.
Dentes muito brancos.
Roupas discretas.
Bebia cerveja.

– Esse não sabe que não volta mais para casa.

Capítulo 6

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A foto que logo circulou no Facebook

Começou quando ele deixou o cabelo crescer.
Sabia que, no escritório, faziam piadas a respeito.
Mas, por ser o chefe, eram veladas, covardes como têm que ser.

No dia em que apareceu nu, o silêncio foi total.
Mesmo não querendo provocar.
Vácuo.
Todos parados.
A luz branca parecia efeito de cena.Com um crachá na mão e nada mais.

Passou pela catraca principal.
Esperou pelo elevador.
Subiu.
A voz eletrônica feminina do elevador avisando que você estavano 36 andar.
Telefones tocavam.

Recepção.
Deu bom dia – como sempre fazia.
Dirigiu-se a  sala de reunião.
Enorme, com janelas do chão ao teto.
A secretária, uma senhora magra, com sorriso largo, nada falou.
Um instante sem emails, sem barulho, sem agitação.

Em alguns minutos, a segurança apareceu.
Discussão na porta.
A equipe da CIPA.
Emergência?
Médicos então?

Pela escada de emergência.

Na delegacia, mistério.
O homem não falava e, no boletim de ocorrência, foi registrado como caucasiano, olhos negros, estatura média, sem documentos, recusou-se a responder as perguntas.
Atentado violento ao pudor.
Deram-lhe um cobertor.
E avisaram:
“- É para se cobrir ou vai ficar roxo”.

Deitou-se sobre o pano e dormiu.