Arquivo de maio de 2012

Capítulo 25 – Táxi

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cada mergulho, um flash

Uma americana a serviço de empresas da Nova Zelândia.
Um encontro informal – marcado.
E um passado – quem diria? – em comum.
Enfrentaram a mesma empresa.
A garotada nervosa e sem talento.
Aquele CEO alemão conhecido pela grosseria.

As duas se olharam – disseram pouca coisa sobre o assunto.
Estava tudo muito claro.
Uma experiência e tanto.
Uma nos EUA, outra no Brasil.

Elas se cansaram de tanta gritaria.
Hoje ganham mais e vivem melhor.
Ainda viajam pelo mundo.
A americana recruta profissionais de ponta e que sejam preocupados com a sustentabilidade corporativa.
Gente do bem para crescer sem puxadas de tapete e ataques de ego.

Pegou o táxi pensando…
Mundo pequeno.

(prelúdio)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Se sangue de criança fosse petróleo, a França, UK, Estados Unidos, Alemanha já teriam invadido a Síria.

Água em marte

terça-feira, 29 de maio de 2012

Procura-se abrigo

Encontraram água em Marte?
Se eu usar um escafandro moderno posso respirar?

Essa sensação que me voltou hoje surgiu pela primeira vez em 2001.
Depois de um período vivendo em Cuba, cheguei em São Paulo e fiquei catatônica em frente a uma prateleira de supermercado.
Juro que pensei em consultar um psiquiatra.
Era pós-Torres de Nova York, era pós-Cuba dos anos 50 corrompida até os ossos, era um momento em São Paulo frenética, desorientada, era necessidade de pagar aluguel.

Hoje fiquei com vontade de escrever para sir Richard Branson criar logo uma rota TERRA-MARTE.
Eu venderia a alma para me exilar em outro planeta.
Levaria umas mudas de roupa, o filho, umas fotos em papel.

Hoje, estupidamente, abri um vídeo enviado por ativistas sírios.
O vídeo não tem nem 10 segundos.
E mostra as crianças mortas, com tiros enormes, do tamanho de uma nação.
Os adultos sacudindo aqueles trapos sem vida, gritando por não ter pátria, por não ter fé.
Todos, eu e meus problemas tão pequenos e tão duros incluídos, precisando fugir da Terra.

Um governo que manda matar velhos, mulheres, crianças.
Gente escolhida ao acaso.
Efeito colateral de um líder covarde e violento, de um mundo perdido, de um desesperançado século XXI.

Por aqui, ex-presidente tão bandido quando qualquer anterior.
Um corrompido cheio de soberba – como aquele de lá, por que não?
Ex-ministro defensor de bicheiro assassino em troca de 15 milhões de reais que ninguém sabe (mas todo mundo desconfia) de onde saíram.
Repórter que recebia benesses de bicheiro
Ministro encontrando com ex-presidente lobista querendo atrasar julgamento dos ladrões da pátria.
Por aqui, vizinho que quer dar golpe em condomínio.
Gente que mente na sua carta.

Por aqui, tudo reduzido a um salve-se quem puder.

Ontem brinquei em rede social: “Meu pirão primeiro! É muita marmelada…”
Brincadeira de péssimo gosto.
Quero ir embora.
Para muito muito muito longe.

Capítulo 24 – Esmorecendo

terça-feira, 29 de maio de 2012

Rainha de Copas

Cansada, exausta.
O tal papel centralizador, diretor, executor.
Este perfil pesado.
Acordar cedo e cansada.
Repassar ordens aos empregados.
Trabalho.
Repassar ordens à equipe.
Cuidar do condomínio.
Ouvir as baboseiras de homens que ainda não entenderam que gênero não é questão.
Ser o centro.
Ser decisão.
Aguentar o fardo.

Achou estranho quando aquela empresa de hunting usou a velha desculpa da superqualificação.
Ela, sentindo que já perdera a guerra, desabafou:
“- Sim, superqualificada. E cansada de ser o centro.
Paguem o preço de um analista cheio de ambições, levem uma veterana desiludida.
Eu não sairei de sua empresa – a não ser que me demitam – e serei a melhor funcionária que vocês já tiveram.
Porque farei muito sabendo que faria mais e melhor – mas entregarei somente o que vocês esperam”
Educada, não pediu desculpas pelo que disse.

A caça, definitivamente, virara caçadora.

Capítulo 23 – A sexta

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vazia

Então ela sentiu algo forte na cabeça.
Nem teve tempo de pensar.
Simplesmente partiu.

Aqui, a novela continuou.
Cirurgias, velas, dia após dia.
O que ninguém tinha certeza – nem os médicos – é de sua existência.
É que, quando tudo acaba, as coisas se confundem.

Você não terminou de contar a história.
Não se despediu.
Não abraçou todos a quem queria bem.
E nós ficamos aqui, esperando sua voz forte chegar antes de você.
A porta da sala se abrir e tudo se resolver com sua entrada.
Então nós ficamos aqui, uns sofrendo, outros rendendo loas à glória de partir sem nenhuma programação e de deixar tudo tão arrumado.

Começou na segunda.
Terminou num sábado.
Domingo é dia de descanso.

Capítulo 22 – Mapa Astral

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A secretária – sempre tão discreta – entrou e fechou a porta.
Olhando para o chão:
“-…então tomei a liberdade. (…)
É difícil de encontrar horário, mas ele abriu um para o senhor…”
E deixou um post it com o endereço sobre a mesa.
Se ele não a conhecesse há tanto anos, teria ficado furioso.

O papel pregado sobre a mesma o irritou o dia todo.
Não sabia o que fazer com ele.
Pouco antes de sair, jogou-o no lixo.
Quando já estava na garagem do escritório, decidiu voltar.
Guardou o post-it na pasta.

Ligou o carro.
Nos últimos dias, entrava mudo, saía tarde para não ter que ver ninguém.
Não queria ouvir música nem chegar em casa.
Se já estava tudo perdido, por que não?

Reconsiderou a oferta esdrúxula da secretária.
Olhou o relógio do carro.
Abriu a pasta, viu o endereço.
Se acelerasse um pouco, chegaria cerca de vinte minutos atrasado.

A rua era estreita.
A casa pintada de amarelo claro e não tinha campainha.
Uma cadeira dessas de plástico estava entre as escadas – como se o segurança tivesse saído…
Segurança para quê?

Uma voz rouca gritou da janela.
“-Você está atrasado. Entre pela porta lateral”
Entrou correndo, com o coração disparado.
Agora era tarde para desistir.

Capítulo 21 – A doméstica

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Nunca imaginou algo parecido: uma pessoa, em casa, contratada para varrer, lavar, passar as roupas, cozinhar.
Nos livros de ficção científica nunca lera nada parecido.

Desde que chegara, numa manhã chuvosa de abril, eram ele e ela, a doméstica.
Ela chegava cedo e recolhia latas, garrafas, limpava cinzeiros.
Não poucas vezes encontrou roupas espalhadas pela sala.
Todas acabavam no varal com cheiro de lavanda.

Nos primeiros dias, como havia sido pedido, preparou o café.
Ele dormia até mais tarde e passava o dia trancado no quarto.
O café da manhã permanecia na mesa intocado até a volta dela no dia seguinte.
Ela desistiu.
Com medo de alguma reclamação, decidiu deixar algo pronto para que ele comesse quando sentisse fome.
Macarrão a bolonhesa.
Frango com quiabo.
Tudo permanecia como fora deixado.

Aos poucos, ela percebeu que não era preciso fazer muita coisa.
Um pano mal passado.
Uma roupa jogada no varal para que ele tirasse e vestisse como estava.
Nada de comida.

Aos poucos, decidiu só limpar os cinzeiros até que estivessem bem cheios.
As garrafas e latas eram deixadas no hall de serviço – não eram lavadas e nem separadas para reciclagem.
As janelas foram ganhando um ar empoeirado.

Ela então decidiu chegar mais tarde.
E sair mais cedo.
Ele nunca saía do quarto.
Não conhecia seu rosto.

A casa passou a ter um cheiro forte de nicotina.
Os panos, antes brancos e imaculados, foram se rasgando, ganhando marcas de cigarro.
Não havia mais comida na despensa.
Nada na geladeira.
Nem água.
Quando ela aparecia, fazia barulho para que ele ouvisse.
Reclamava da sujeira.
Perguntava alto se havia dado festas.

Nada.
O quarto, trancado.
Barulhinhos de dedos no teclado.

Um dia, ela recusou-se a recolher as roupas que haviam sido deixadas pelo chão.
Revoltou-se.
Abandonou a chave na porta, que ficou aberta.
Decidiu exigir seus direitos no sindicato.

Nunca mais voltou.

Capítulo 20

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fechou a porta apressada.
O vôo sairia em 3 horas e ela ainda teria que enfrentar o trânsito para chegar ao aeroporto.
Engraçado como a mala estava vazia.
Antes, sempre carregando um mundo feito caramujo, agora, sem muito o que arrastar.
Fazia calor por lá.
O inverno, quando chegasse, seria de escuridão.
No caminho, nervosa e cada vez mais atrasada, ia pensando em sua primeira viagem.
O aperto no peito quando, uma hora e meia depois de decolar, pensou que não conhecia a cidade.
Não conhecia as ruas, as comidas, as pessoas.
Onde chegaria?
Teria onde morar?
Mudaria seu jeito? Seu sotaque?
Como não pensara no perigo que é não ter amarras.

Desta vez, havia pesquisado tudo.
Sabia até o nome do café mais popular.
Levaria os bichos.
Poucas roupas, poucos objetos. Tudo muito programado.

No meio do caminho, falou alto: “- Estúpida.”
Era mais uma daquelas viagens que começam do ponto zero.
Construir todo um universo de novo.
Reinventar a personagem.
Tentar sobreviver.

Sentiu aquele velho aperto no peito.

O taxista ligou o rádio e um som alto de pagode inundou o carro.

Capítulo 19 – Então ele teve um dia normal

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Almoçou com os colegas e falou do chefe.
Olhou para as bundas carnudas das secretárias.
Encontrou-se com a analista na escada do escritório.
Como sempre acontece nesses casos, foram flagrados ao voltar para o hall do elevador.

(Negaram veementemente – como sempre acontece nesses casos)

Pegou o carro no quarto subsolo e foi para casa.

Banho, jantar, o filho que já dormia.
A mulher reclamava da empregada.
A Babá sussurava ao celular histórias de toucador dos patrões.

E ele percebeu, com graça, que havia saído de casa com meias de cores diferentes.
No pé direito, uma cinza.
No esquerdo, uma negra.

Capítulo 18 – Maioridade

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Acordou virada.
A empregada veio com as mesmas perguntas: cardápio do almoço, dinheiro para tal coisa.
Nem respondeu.
Beijou o filho, vestiu aquela roupa que teimava em não caber – e que, milagrosamente, coube – e saiu.
Sem direção…
Rodou pelos arredores.
Pompéia, Lapa, Vila Romana.
Olhava as caras sem face dos trabalhadores que saem todos os dias a caminho de um escritório com divisórias de PVC, paredes brancas, porteiro de terno azul marinho.
Viu os pontos de ônibus cheios.
Gente carregando sacolas aposentadas de supermercado.
Parou no farol de uma rua movimentada.
O carro chamou atenção de um grupo de bolivianos que tomava chá do lado de fora de um botequim.
Entrou.
Pediu um café e uma branquinha.
Misturou tudo, tomou sem fazer cara feia.
O sinal abriu.
Deixou dois reais sobre o balcão.
Nervosos, motoristas buzinavam.
Nem olhou para as caras sem nariz, sem olhos, sem boca.
Rodou mais um pouco.
Uma loja improvisada em uma casa velha, quintal com pomar.
Pediu pão de mel.
Comeu com calma.
Fechou os olhos.

Animada com a fuga, escolheu um caminho.
Correu no parque até que os pés ficaram cheios de bolhas de sangue.
Voltou para casa sem fome.