Arquivo de junho de 2012

Fora do ar

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Por algumas horas. Alguns dias? 
Mudando a casa toda.
Trocando tudo e todos.
Voltando de uma viagem pelo túnel do tempo.
Esperando tudo dar certo.
Vendo muito Vila Sésamo.
Brincando com o sentimento dos outros só para fingir que domino alguma situação.
Tomando o estoque de Guinnes do Mambo.
E umas branquinhas (água que passarinho bebe inclusive)

Voltaremos aos nossos serviços assim que a vontade de escrever pintar.
Semana que vem nos encontraremos aqui. Anote a data: 02 de julho (se voltar antes, não aviso)

Ana busca babá e empregada

São Paulo vista de dentro

quinta-feira, 21 de junho de 2012

também chove

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.



Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte.

Fernando Pessoa

Não

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Eu não

Definitivamente não tinha medo.
Quanto mais alto o andar, mais tinha vontade de pular.
E coração sempre batia acelerado.
Algumas vezes, ficava tonta.
Por não ter medo vivia cheia de hematomas.
Cicatrizes.
Pontos.
As pernas, tão bonitas, tinham marcas de alto a baixo.
E falava alto.
Sempre.
Para ser ouvida.

Achava estranho não ter morrido como os mártires, aos 27.
A velhice ia chegando e ela estava de pé.
O medo, talvez, fosse a própria morte.

Capítulo 29 – A ruiva

terça-feira, 19 de junho de 2012

pow!

Escandalosa, falava alto e tinha uma risada meio boçal.
Chegou atrasada.
Entrou na piscina com os olhos carregados de maquiagem.
A filha, fantasiada de Carmen Miranda dos alpes de Higienópolis.

Ela, que voava longe em seus pensamentos, levou água.
Cara lavada, maiô preto, touca de silicone preta.
Ficou olhando o rebento: calmo, observador.

A pequena não era bem acabada.
Agitada, feliz, soltava gritinhos.
Crianças costumam ser todas iguais (menos os filhos de Woody Allen).

Ela, tentando não deixar o Concorde pousar, pensava em vinho, Spinoza, ia longe e toda a gritaria era comprimida em um grande silêncio de templo budista.
Ela ali, germânica, com cadeiras de índia paraguaia, pensando em filosofia e em tudo o que não entendia.

O mundo girando como a Lusitana.
Até que acabou.

Ao sair, chovia.
Decidiu voltar a pé para casa.
No meio do caminho, tirou os sapatos.

Asfalto e mais nada.

Capítulo 28 – Fé

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Isso aqui não é Hollywood

Sexta-feira, 20h30.
Praguejava contra as ruas estreitas daquele bairro outrora operário, hoje de classe média alta metida a artista e boêmia.
Cansada de procurar, parou o carro sobre a calçada.
Chegou em cima da hora.
Resignada, sentou-se.

O japonês gago e sem graça falava sobre o livro que acabara de ler.
Era o livro que deu origem ao filme.
O Voto.
“Que linda a história de um homem que conta dia após dia à mulher desmemoriada que eles se amam”.
Pensou na pobre mulher de olhos vazios a olhar para um estranho que insistia em dizer que eles eram um casal.
O japonês gago explicando coisas sobre Deus e a filosofia.

Depois, a moça boazinha.
Aquela lenga-lenga de amor, amor sem limites, amor que cura, amor.
E o desconhecido, o iluminado, o onipresente? E a culpa?

A velha de peruca mais uma vez perguntou:
– Documentos? Sem eles, sem certificado.
E começou a dizer que lindo era o passado, quando se estudava anos para receber Deus.

Chega, ela estourou.
Praguejou contra a burocracia, as barreiras desnecessárias.
Reclamou dos templos de luxo e dos papas conspiradores.
Cuspiu no certificado.
Disse que Deus era profano.

Ainda tentaram botar panos quentes.
Possuída, não foi polida.
E voltou para casa nervosa; teve que tomar uma garrafa de vinho antes de dormir.
E leu Spinoza furiosamente.

Be not astonished at new ideas;
for it is well known to you that
a thing does not therefore cease to be true
because it is not accepted by many.
Spinoza

Capítulo 27: alô

quinta-feira, 14 de junho de 2012

holla, que tal

E ela atendeu o telefone.
Seguiu as instruções, não discutiu a proposta, fez o que seu mestre mandou.

(fez o jogo e se calou)

Sua vida então mudou.
Não voltou mais ao velho apartamento.
Hoje vive num vão livre brutalista.
Tem 4 escudeiras fiéis e bem pagas.
Na decoração, poucos objetos.
Usa roupas simples.
Viaja menos e com mais emoção.

Sorri – com e sem motivo.

O tal telefonema?
Ah… Pergunte para o Snoopy.

Capítulo 26 – Resgate

terça-feira, 12 de junho de 2012

Par

A correspondência foi sendo jogada por debaixo da porta até que um bolo de papéis travou a entrada.
O porteiro, então, começou a fazer pilhas de cartas ao lado da porta de entrada.
O vizinho da frente não gostou, mas não teve ânimo para reclamar da nova “decoração” do hall.
Ele passava dias e noites acordado.
Quase não comia.
Olhava para a foto da musa tão viva que nem parecia que, hoje, é morta.
Engraçado é que, improdutivo, sentia menos angústia.
Não tinha vontade de consumir.
As compras de supermercado – pensadas para durar uma semana – já duravam 8 semanas.
2 meses trancado dentro de casa.
A porta da área, aberta desde que Rita surtou e foi embora.
Rita, a diarista.
Não pagou a luz e não precisava mesmo de luz.
Tomava um banho frio quando sentia vontade.
A conta do condomínio.
Seria débito automático?
Não se lembrava e nem sabia quando ainda teria no banco.
A estante estava repleta de livros com belas capas, autores consagrados, coisa ou outra pop para combinar com a decoração…
Livros mortos.
Ele então escolhia 15, 20.
Lia todos de uma vez.
Um parágrafo de cada um.
E ia construindo novas estórias.
Costurando narrativas.
Via o sol nascer da janela.
Ouvia o barulho dos ônibus lá fora.
E lia, lia, lia.
Quando se entediava, passava horas olhando para aquele par de seios perfeitos.
Seios de diva morta.

Semana 1

segunda-feira, 11 de junho de 2012

segunda com chuva?

E a semana começa com um belo pé d’água.
Para derreter o gelo, limpar a alma e te lembrar que um escritório pode ser um bom lugar.
Imagine ficar em casa de pijama e meia grossa, enquanto a turma da faxina conjetura sobre seus hábitos e obrigações.
No escritório, um bom café de máquina pode ser a salvação.
Uma conversa de corredor, um resolver tudo de uma vez porque hoje não tem sol lá fora (mesmo que você fique numa baia distante da janela).

E aí me lembro de correr na chuva com calor.
No início, você e alguns incautos.
Depois, você e você.
Ninguém.

O tênis, encharcado, fazendo barulhos estranhos.
A roupa, antes fria, agora ensopada com um líquido meio morno: chuva, suor e seu corpo trabalhando duro para manter a temperatura.
Alguns passarinhos escondidos nos galhos das árvores.
As avenidas engarrafadas.

Os pés mantém um ritmo bom para que o corpo não entre em choque.
A semana começa com um único objetivo: ducha quente.
Depois os carros, o caminho, o trabalho, o café de máquina.

Bom (re)começo.

Fome de quê?

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Aceita?

Meu dia se resumiu a duas cervejas e um pedaço de pizza.
Minha dieta se resumiu a fazer tudo às avessas.
Minhas idéias são resignadas: resistir de pé.
Meus pés não se cansam de caminhar sem rumo.
Meu mundo é bem mais ou menos.
Perdido.
Meu feriado ainda não terminou.
E não me lembro de quando começou.
Você pensou que fosse ser bom assim.
Eu sempre tive minhas dúvidas.
Elas, hoje, são dívidas.
Meus pés.
A culpa é toda deles.

Chuva

terça-feira, 5 de junho de 2012

Trânsito com chuva.

A velha máxima que diz “eu preferia estar em casa” não pegou.
Táxi.
Carro.
Vila, Consolação, Bexiga.
Chuva.

Eu não quero casa.
Eu não escolho.
Eu ando devagar curtindo a chuva que cai na Paulista.
Meu trench coat novo, clássico e caro ficou no armário.
Luxo é sentir a chuva fria.

Chuva.
Vento.
Paro e peço um chai imaginário.
Chuva gelada.

Gostaria de estar com luvas.
Chai, água, calçada portuguesa.
Minha cabeça gira.
Lembro de cor de capítulos inteiros de Steinbeck.
Minhas mãos estão quentes.
São Paulo, mon amour.