Arquivo de julho de 2012

Espírito olímpico

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Instalei câmeras por todos os lados.

Vejo quando ela entra.
Ele ao sair.
A moça da limpeza.
Carteiro.
Entregador.
Faxina.
Vejo todos.

O rabo do gato, o cachorro que dorme.
Se uma porta abre, recebo por sms a foto do que acaba de acontecer.

Vejo tudo o que se passa.

O problema?
Não creio em nada.
Há realidades que a câmera não vê.
Momentos cuja foto não diz muito.
Há também um tal de atuar quando se sabe que alguém o observa.

Mundo.
Hoje decidir ficar trancada e de boca fechada.
Sem imagens.

(Descabelada)

Exaustão

quinta-feira, 26 de julho de 2012

É quando seu dia voa e nada do que você fez interessa.
É quando a cabeça não consegue flanar.
É quando tudo junto perde o nexo.

E um bom espumante te coloca no lugar.

(pommery)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

e ainda é quarta-feira…

Uniforme

terça-feira, 24 de julho de 2012

procura-se

Meu uniformizinho de aspirante a general.
Calça preta justa de alfaiataria.
Camisa preta e blaser preto – tudo muito bem cortadinho e com uma gracinha moderna.
Meu cabelo aloirado bem escovadinho.
Meu anelão que denota personalidade forte.
Meu sapatinho de cobra asiática assassinada – coitada.
Meu carrão importado (tenho até dó de pensar).

E o carão.

Vamos lá, de novo, ser gauche na vida.
Carregar a pastinha, vender a si mesmo por um preço tão baratinho, pagar as contas da casa nova.
Esquecer as fofocas toscas das babás nas milhares de pracinhas.
Deixar os rebentos sentirem falta da mammamamamaãe.

As unhas vermelhinhas, a maquiagem, caretinha.
Um tal de ter que ser gente para sair desse quadrado.
Conta do pão.
Roupinha nova.
Viagem.
Veterinário.
Empregada.
Gasolina.

Não é que a gente perde o foco rapidinho?

Raiz forte

segunda-feira, 23 de julho de 2012

o mesmo sorriso, a mesma cara dura, a fé inabalável

Ontem, deitada no piso, ouvindo canções de forma aleatória, fui ferida por um Milton.
E levei um caminhão de minério de ferro no peito.
Quase sem conseguir respirar, vieram pores de sol amarelos e não avermelhados.
Um brilho de chão duro e muito gasto.
Meus cabelos longos, meu macacão.
Minhas blusas pretas coladas ao corpo.
Minhas andanças de bota do exército e mini-saia.
Minha(meu) Afonso Pena.
Bahia.
Minha montanha sem fim.

De repente, percebi tudo o que já não é.
“Galpão” em tarde chuvosa.
Sexta corrida e sem luxo em acampamentos e fotos e banho terrivelmente gelado em algum rio que hoje virou terra.
Sonhos pequenininhos.
Uma festa.
Uns causos.
Um olhar para dentro tão profundo e medroso que parecia gás paralizante.

Hoje com um sotaque misturado, um cabelo curto para contrariar, um pouco mais de peito, a blusa solta…
Seria São Paulo, a idade? Cidade?
Mas como se ainda creio em tudo o que não fiz?

E eis que hoje recebo de surpresa um texto bobo sobre as mineiras, sexo versus sacanagem e algo com doce de leite.

Ah… Pobre de quem não nos conhece.
Feliz de quem tem medo.

O pão impossível de cada dia

terça-feira, 17 de julho de 2012

prato vazio

E abriram a Le Pain Quotidien do lado de casa.
Saudosa de meus tempos sem lenço e com muitos dólares em NYC, fui logo matar as saudades.
Preparada para umas adaptações brazucas, fui surpreendida pelo cardápio: é o mesmo da rede lá fora.
O MESMO!
E, claro, sem demora, pedi o de SEMPRE…
Meus cereais matinais, a tigela de frutas, uma cestinha de pães, um bowl pequeno de café com leite.
A cachorra, pobrezinha, ficou do lado de fora – eu sentada e quentinha, ela na rua, olhando para mim com cara de abandonada.
Eu vendo a cara peluda e pensando nas inúmeras vezes em que quis levá-la comigo para dar umas voltas no Central Park mas fui impedida pela burocracia dos dois países.
Escolhi um assento na animada mesa coletiva.
Adoro ouvir as conversas dos outros, compartilhar a geléia, assuntar qualquer bobagem com um desconhecido.
Enquanto esperava pelo atendimento, encontrei a dona de uma cachorra que brinca com a minha; acenei para dois vizinhos queridos.
Fazia frio. As bochechas estavam rosadas.
Minha fome ultrapassava o que uma cesta de pães pretendia saciar.

E o garçom não veio.
Esperançosa, fui até ele.
Fiz o pedido.
Incluí ovos cozidos no meu pacotaço de desjejum.
Meia hora…
Vieram os ovos.
Mas não os talheres, o guardanapo, o sal.
Vinte minutos, a cesta de pães… Itens em falta: justo o pain au chocolat…
O suco de laranja, esquecido.
Mais meia hora.
Uma hora.
Abordei outro garçom, fiz sinal para o gerente.
Chegaram os talheres.
O ovo esfriou.
E com ele minha graça amarela de achar que, em casa, sentiria gosto de mundo afora.
Pensei no meu nouveau-richismo…
Nessa mania de achar que o que vem de fora é melhor do que há aqui.
Aos poucos, meus pratinhos foram chegando.
Todos muito parecidos com os da loja franqueada de Nova York.
Mas desencontrados.

Tudo embaralhado, desconjuntado, tudo sem a graça despojada de ser mais um na Grande Maçã.
Pedi a conta, paguei mesmo sem ter recebido a limonada com hortelã.
Observei os vários clientes desapontados com os serviços.
Os alegres que fotografavam rolinhos de canela.

De barriga cheia e com uma fome danada, voltei para casa.

Céu de São Paulo

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Faz frio de gelar ossos.
E eu lutando contra meu tempo perdido.
Contra não poder fazer o que quero e como quero.
Essa coisa de não ser dona de nada, nem do meu nariz – tão pequeno e arrogante.

Ah…
Querer fugir da rotina, das obrigações e de tudo o que nos desagrada.
Voltar a ser gato preto miando em muro alheio.

Não, não há tristeza. Não há melancolia.
Só não há tempo.
E eu não sei como lidar com isso.

Poeira.

Tempo

quarta-feira, 11 de julho de 2012

deserto

Disseram mesmo que isso poderia acontecer.
Efeito colateral.
Sentir falta dele – do tempo.

Para fugir, muitas coisas de uma só vez.
Todas vãs e sempre incompletas.

Ontem perdi os segundos que me restavam.
Hoje comecei com saldo devedor.

Há cura para a falta de tempo?
Talvez…

 

paciência.

Pão, pão

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Onde anda meu circo?
A minha graça perdida, a migalha dormida?

Quem encontrar, favor avisar.

Já é segunda-feira

O sol em São Paulo

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Sim, meu querido, alguém tem que trabalhar.
Eu e minha dupla dinâmica saímos amarrados pela vila ensolarada.
Perdemos um pé de meia.
Demos olá ao padeiro e um beijo no costureiro.
As vovós e mulheres de idade sempre nos olham com aqueles olhos muito doces de quem ficou para trás.
Sem rumo e cheios de hiatos, andamos com muita firmeza.
Cantamos canções com vogais.
Levamos sustos com caminhões.
As ruas estavam sujas – resquícios do futebol.
Vitrine.
Compramos uma para nós e outra para um africano.
São ambas negras e idênticas.
Simples e sem amortecedor.
Queremos sentir as pedras.
Engolir vento.
E não, não usaremos jamais um capacete – de queda não morreremos (sabemos).
Alice deve ir atrás.
Pirulito na cesta.

…para ler e ouvir: À bicyclette

Kona Africa Bike Three