Arquivo de agosto de 2012

Pressões e descompressões

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sexta-feira sempre tem um quê de alegria, de fim de dia, de chopp gelado – mesmo que tudo dê errado.
Sexta-feira, prato feito e frio porque estou sempre atrasada.
Ainda não vi a cor do álcool nem senti o vapor subir.
Mas é sexta e tudo pode – mesmo que não dê em nada.
Sexta, dia em que tudo é palusível, aceitável, razoável, dia mais distante da segunda do que a própria terça-feira.
Sexta.
Porque tudo pode acabar amanhã.

coelho branco

Interrupção

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Planejamento

INTERRUPÇÃO

A obra dos Deuses, nós a interrompemos – entes
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.

(Kaváfis)
trad. de José Paulo Paes

Ontem reencontrei a diaba.
Passado obtuso de vestido longo na beira do rio.
Molha, molha até que encharca e te leva para o fundo.

Mitomania e agressividade.
Maldade em estado bruto e no jardim de infância.

4 anos.
Todos os meus planos, valentes, perdidos.
Murro escorrido, entornado.
Manti o prumo.
E foi o possível.

Consola é saber-se duro e corajoso.
E sem nada a dever e a ninguém.
Amiga da verdade e, por isso mesmo, sempre em guarda.

Pobre diaba, feia, desajeitada, pernóstica e verborrágica.
Pobre diaba.

 

 

Frescor

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ana, Ana, Ana, Ana, Ana

Saio de casa (apressada).
A cadelinha vidente se recusa a comer.
Regras e rotinas grudadas na geladeira.
Corretores correi.
Corri.

10h30, CEO.
12, sócias (novas).
14h30, uma conversa.
Táxi adorável este que me trouxe.

Amanhã, demissões.
Sindicato.
Tudo tão centro de São Paulo que dá vontade de ficar.

Volto com o coração aos pulos.
Barrancos.
Não tiro a maquiagem.
Ando na praça.
Falo, falo sem parar.

Era tudo isto mesmo que eu queria de volta
(…)

nuvem cigana

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Meu bodinho resolveu procurar pasto novo.
Deixou minha sala, meu canto.
Saiu e nem deixou recado.
Meu bode velho que passava horas no sofá assistindo TV.

A geladeira ficou cheia de sorvetes.
A moça da padaria ganhou presente.
Tomei sol sem protetor.
Bati perna sem roteiro.
Sem rodeio.

Com caju.
Com sal.
Batida tai em pleno inverno.

Sexta me ilumina.

Sabonete glicerinado

terça-feira, 21 de agosto de 2012
Onde?

Onde?

 

Olhando para o decote, vista de cima para baixo, uma fenda.
Fico horas ali.
Vou ao longe.

Não sinto mais os cheiros.
A luz que não há não me falta.

Fujo o dia todo e pá!
Volto para o mesmo lugar.
Aqui, do jeito que está.

E só.
É só.

É menos da metade do que me resta.
Fico ali, meditando, procurando-me.

Terça-feira ordinária.
Para mim, inatravessável.

Raro Efeito

quinta-feira, 16 de agosto de 2012
versão americana

no mesmo barco

A poluição me faz confundir tudo.
Não respiro como antes.
Não rio igual.
Aqui, São Paulo que nos acuda.

Debaixo da porta, cartas, cobranças, raivas e nadas.
Eu tenho, sim, ataques de cólera.
Pura sujeira nos ares.

Ah…
Ahhnndo zonza.
Com a vista embaçada.
Sentindo o peito carregado.
Apertado.

Ah.
Ha.
A.
Talvez seja o inverno na cidade que não sossega.
Dorme um pouco,
descansa.

Queimadura

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Segunda, terça, quarta...

Acordou cedo e foi trabalhar.
No caminho para a empresa, parou no bar.
Segunda-feira, começou animada – com a cabeça queimando.
138 emails para responder.
Assistente com virose – a doença do momento.
Secretária atrasada.
De casa ligaram, greve geral.
Na hora do café, de novo no bar.
Pagou com VR.
Reunião às 15h20 – orçamento retalhado, pinguins fardados falando que não, nada é possível.
Levantou a saia. Colocou um pé, o outro – subiu na mesa.
Começou a cantar.
Jogou o celular num copo d’água.
Ah…
“Sexta-feira, amor, é carnaval”

Ginástica

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Pulo corda.
Administro edifício.
Nado com crianças.
Contrato, treino e acompanho staff.
Algumas vezes, demito.
Acompanho sua mãe que quer ver vitrines.
Faço compras – das mais variadas – para que nunca falte nada.
Corro segunda – mato terça, quarta, quinta.
Volto sexta.
Compro e vendo apartamento.
Estudo online.
Tomo café no belga metido.
Indico a menina para a nova empresa moderna.
Pulo corda.
Ando sempre muito atarefada.

(Rotina puxada
esta de quem não faz nada)

En garde

Ventania de almíscar

terça-feira, 7 de agosto de 2012

(vento...)

Púrpura escuro, seco, suave.
Não se importa com o que dizem.
Ri quase o tempo todo.
Pensa anil.
Expira amarelo ouro.

Viajante noturno.
Venta forte.
Rodopios por ruas, avenidas.

Puro ou artificial.
Agitado.
Cheio de histórias.
Corre o cervo tibetano.
O mais forte, o mais rápido.
Imune a tudo e a você.

Idéias a mil.
Dia pegando fogo.
Corre, roda.

Milhões de metros cúbicos de ar.

Sobre a(s) derrota (s)

sábado, 4 de agosto de 2012

Pow

Aqui nos trópicos a moçada enche a cara de bolinha, é punida, volta para casa e não sabe o porquê.
Atleta campeã de tudo não passa da primeira fase e coloca a culpa no vento.
Nadador de ponta perde e diz que a gritaria da torcida teve a ver com a história…

Ganhar, ganhar, ganhar.
Somos tão pequenos assim?
O resolvemos virar adeptos da filosofia do Tio Sam?

Sou mesmo fã das disputas, das batalhas, da pegada de quimono.

Gosto do gosto de sangue na boca.
Da unha quebrada.
Do salto todo marcado de calçada portuguesa.
(perdoem-me os puritanos)
Mas a transa inesperada… é melhor.

Gosto de me endividar e sofrer com o prazer enorme de algumas horas em detrimento da tormenta de anos com um boleto que vence no dia 10 do mês.
Gosto de ficar feliz por ter que viajar a trabalho.
De subir na balança e ver o ponteiro subindo. Fazer o quê?
De ficar bêbada com qualquer coisa que cheire a álcool.
De gastar uma fortuna na manicure (que cobra 40 reais).

Ah…
Os lindos de olhos azuis e a medalha de ouro que me perdoem.
Mas eu gosto mesmo é de pé rapado que me leva para copo sujo.
Vira-lata.
Rasteira.
Que fala palavrão.

Eu perco muito. Repetidas vezes.
Fazer o quê?