Arquivo de outubro de 2012

Leleco

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

(vazio de rabo abanando)

Meu gato Leleco nasceu num telhado em Fortaleza.
Abandonado à própria sorte, não se afogou na caixa d’água como o irmão.
Nem foi abatido por pura maldade.
Apareceu em casa pelas mãos do porteiro.
Um menino simpático, tímido, de chinelos.
Josenor achou melhor subir no telhado e salvá-lo.
Apareceu lá em casa sem jeito e mo deu.
Leleco era levado, ousado, arriscado.
No Rio se descobriu.
Toda noite era festa na casa amarela.
Deixou filhos em Niterói.
Em Minas.
Conselheiro Lafaiete.
Leleco anda muito mal.
Dos sete quilos e tanto, só quatro.
Dos pulos à noite para dormir nas minhas pernas, um suspiro.
Ele tem AIDs.
Imunideficiência.
A doença e o tratamento são idênticos aos dos humanos.
O problema é conseguir medicação para uso veterinário.
Conseguimos.
Antes disso, pancreatite, transfusão.
Leleco magro e guerreiro.
Anemia.
Agora tenho a dolorosa sensação de que meu fiapo de gato está aqui só de teimosia.
Leleco, meu gato cearense de alma carioca, é uma pena ter que te deixar partir em São Paulo.

Caldo

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Almoço no Gero ao meio dia

Claro que não dá para sair por aí de tanga, não somos índios.
Nem estamos no shape de Nicole Melancia Moranguinho Tchá-tchá-tchá.
Colocar uma piscina de plástico cheia de gelo dentro do carro para me refrescar enquanto estou parada no trânsito…
Encher a piscina de uisque com energético colorido.
E falar ao celular enquanto o fiscal da CET me fotografa em meu melhor ângulo.
Sendo paulistana-paraguaia com pretensões novaiorquinas (e muito, muito cafonas), preto não cai bem nesta primavera com temperaturas de alto verão no Saara.
Flip Flops numa reunião com executivos do banco estrangeiro?
Claro que a vida de caixeiro viajante não tem glamour nem escritório com ar condicionado.
Almoce o que você quiser – a preços módicos ou não – nos melhores fornos da Vila Olímpia.
Ter que administrar empregada, gato, cachorro, bebê e garrafão de água não é nada comparado ao que faz Madonna durante uma turnê.
Ó, vida chata de gente grande com conta furada.
Queria tanto crescer e nada. Parei antes de 1,70m.
Por que tanta formalidade?
Se somos todos brasileiros…
Marquemos logo uma reunião na piscina do clube Pinheiros, com drinques tropicais servidos por garçons de terno branco.
Um make com sombra laranja.
Um biquini enroladinho de duas cores.
Brincos de raios.
Blitz e Titãs.
E 20 anos a menos.
É só isso que quero.
(com uma folhina de hortelã)

Branco

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ação?


Uma semana usual
não tem poesia
Tem almoço fora
(todo dia)
correria

conversa jogada fora
venda
compra
tempo curto
sem destino

Nova York
Londres
Paris

tempo
é tudo o que me falta.

Meu espaço fica em branco.
Minha falta.
Meu espanto.

Ok, fui vencida

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Plim-plim

Ok, o mundo gira e a Lusitana…
(piada interna)

Aqui em terras tupiniquins, nem mensalão, nem eleição.
Tudo e todo mundo só fala é da novela.
Na rede anti-social, Carminha, Tufão e Max.
No veterinário, sofre meu gato Leleco.
Eu não sei quem é quem, mas conheço pelo nome todos os ninguéns.

Por onde ando, ninguém é muito lindo.
Ninguém ganha todas.
Ninguém é constantemente agradável.

Ninguém acorda como em propaganda de TV.
Dorme de dentes escovados.
Ninguém vê flores em todos os lugares.
Ninguém é pudico, boa praça ou boa gente.

Na nação de ninguéns, todos somos assim, mais ou menos.
E vamos vivendo apesar do frisson que uma novela causa.
Causa?

Filipa

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

 

me acho (às vezes)

Minha santa, da família Pato, solte minhas asas.
Com novas taças finas, tão lindas.

Com meu novo trabalho
(algo de incrível).

Com meus problemas – todos – escondidos debaixo do tapete.

Com meu gás.
Meu álcool.

Meu torso de Sofia.
Nada de lábios ou mandíbula.
Peitos.
Não me queixo.

Ando meio devassa.
E nem chegou a sexta-feira.
Pobre de você.

Coitadinho.

Fato

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

(farpas)

Vagando pelas ruas cheias,
minha alma procura frestas.

Um ser antes rotundo, iluminado.
Hoje pálido, sem curvas, encurvado.
Sem tempo ou relógio.
Sem fé.
Pura farpa.

Com a voz rouca.
Cabelos cuidadosamente arrumados.
Vagando com a agenda cheia.
Pelas ruas escuras.

Minha alma é só.

AZT

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Não era agito?
Agito a praga que me afligia?
Pois eu aqui, equilibrada, tendo que me metamorfosear.
Equilibrista.
Passadeira.
Diarista.
Trabalho.
Viagem.
E casa.
Casa e contas.
Carro.
Gasolina.
Radiador.
Procuro AZT para o meu gato.
Fato.
Ontem a gatinha preta doou sangue.
Trabalhei, fiz reunião, passei no colégio, reclamei desta correria.
Aproveitei um fiapo de sol.
Comi bomba calórica da padaria.
E nada, nada mesmo
de AZT para o meu gato.
De noite, transfusão.
Na clínica, no hospital todos riem quando ouvem seu nome.
Leleco.
Eu fico indignada.
Confundirem personagem de novela com o um clássico de Nelson Rodrigues.
E não é que ele voltou quase bom?
Mas (ainda) falta o AZT.

Ansiedade

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Você quer o que não lhe cabe.

(...)

Não quer o que pode.
Ouva o zunzunzum a sua volta e…
Acredita em tudo.
Ira.
Você não quer seguir a maré.
Não quer descer as corredeiras.
E apenas deixar para lá
Essa mania de dizer não.
Você perde
tempo
tempo
tempo demais.
E isto nem é navegar contra a maré.
Você não entende nada.

Rouca

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

pastilha

Sorvidos com sofreguidão, mojitos e caipirinhas.

Fazendo uma força danada para não parecer mais louca.

Rindo atôa das mudanças quer surgem por aqui.
Marcando um café.
Olhando para o horizonte e sentindo a nova maré.

Ah…
Se eu soubesse onde isso tudo iria acabar.
Não teria perdido uma segunda-feira em especial.
Café.
Pastilha para garganta.
Mala.
E, por que não?, fé.

Serpentina

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dia desprogramado.

roda, roda, roda

Como cobra no cerrado.
Arrasta-se em diagonal.
Sai de lado.
Dorme sob pedras.
Quente e gelado.
Dia com tudo arrumado.
Nada feito.

Ouro de aluvião.

Arrasta.
Serpenteia e muda.

Um bote!

Assim mesmo, sem permissão.