Arquivo de novembro de 2012

Brilho de aluvião

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

para você, minha querida

O bobo teve origem no Império Bizantino.
No fim das Cruzadas, tornou-se figura comum nas cortes européias.
Acreditava-se que ele espantava mau-olhado e trazia sorte ao castelo.
Na maioria das vezes, os bobos eram loucos, deficientes físicos, anões e corcundas, que tinham a missão de entreter os monarcas com palhaçadas e, principalmente, com suas deformidades.
Alguns bobos tinham suas colunas quebradas para que tivessem um aspecto mais “interessante” aos nobres.

Os bobos da corte hoje não andam vestidos de forma espalhafatosa, não se deixam notar.
Eles preferem plásticas de seio, viagens à Disney, preferem bolos de notas escondidas em cuecas.
Os bobos muitas vezes eram as únicas pessoas que podiam criticar o rei sem correr riscos.
Hoje, perderam o medo e a malícia.
Usam o nome do rei em email para ganhar viagem em cruzeiro, carro novo e até casa em frente ao clube da cidade.

Bobos modernos.
Saem por aí torrando tudo, vivendo como se a matéria não fosse finita.
Compram carro, celulares de última geração.
Abusam de dinheiro que não lhes pertence.

Bobos.
Dinheiro é um pedaço de papel.
Celulose fotográfica que te revela.

“Há apenas uma classe na comunidade que pensa mais em dinheiro do que os ricos; os pobres.”
Oscar Wilde

The wall

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ando repensando os caminhos passados e os futuros.
E nesta crise (ou iluminação) dos quase 40 fico pensando em fugas novas.
Argentina?
EUA?
Começar – não continuar..
Brasil.
Seguir a linha torta e retomar caminhos perdidos.
Criar novas respostas.
Deixar que me deseduquem.
Desaprender tudo o que me disseram que era certo, fácil, reto.
Questionar o básico.
Deixar de ver as sombras.
Soltar laços.
E – como sempre – nadar contra a maré.
Com gosto de álcool na boca.
A vontade de não dormir para não perder nem um segundo.
E perder tudo.
Obstinada.

Este filme me caiu no colo.
Devorei.

Curriculum do B

sábado, 24 de novembro de 2012

Quero vender bala no sinal (farol, meu!) depois da meia noite.
Ou ser negociadora de lagostas na feira da Vila Madalena.
Quero virar corretora de imóveis de menos de um R$1 milhão.
Ou abrir uma pet shop especializada em jabutis.
Quero, quem sabe, ser modelo de pés descalços, tatuados e com unhas vermelhas em fim de tarde.

Moro na Pequena Maçã (e adoro).
Sou obrigada a ter segunda residência na cidade maravilhosa (e adoro mais ainda).
Trabalho para o povo do Tio Sam.
Tenho serviçais, sou mucama também.

Adoto idéias mirabolantes.
Invento mil coisas impossíveis.
E torno todas as coisas bem mais difíceis.

 

Você se lembra dos meus cabelos negros?

Idas e vindas

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Pedras

Quanto mais me ausento, mais escrevo – e não publico.
Minhas viagens, antes longas, loucas, alucinadas, hoje parcas, curtas, densas.
Tensas.
Lentas.
Hoje tenho muito pouco tempo.
Faço tanto.
Corro com ritmo.
Minhas rugas, meus pouquíssimos fios brancos – vão chegando e eu, gostando.

Subi a escada de azulejos portugueses (espanhóis?) no Cosme Velho.
Vi os micos.
Sabiás.
Entrei numa paisagem que começou no século passado.
Aspirei os ares de nova vida.
Senti-me muito bem ali, em meio ao caos do que ainda não foi parido.
E que tanto promete.

Promessas.
Gosto de tudo o que não é.
Ainda.
Gosto dos causos.
Da areia que arranha meus pés e me afunda.
Gosto de ser carregada com a maré.
Água gelada.

Mesmo quando não termina bem.
O que me move é a história.
E se termina bem?
Vou com a maré…
Navego.

O peixe morre pela boca

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Tempos modernos.
Você que lê aqui o que acontece numa vidinha comum, discuta o caso: bandido tira foto coberto por nota de 100 reais e é preso acusado de participar de roubo a carro forte.
Pai esquece filha dentro do carro e publica no Facebook carta dizendo-se culpado pela morte da criança.
Jogador (?) Adriano diz a jornalista que não está acabado e que só na (favela) Vila Cruzeiro sente-se “gente”.
Garota brasileira é estrela (?) do programa australiano ‘Virgins Wanted’, responsável pelo leilão da virgindade dela.

Hoje em dia, tudo é público.
Tudo é gritado, arremessado contra a multidão.
Não importa quão bizarro, quão íntimo ou estritamente privado.
O negócio é ser publicado.
Jogado ao povo e escancarado.

O que me estranha é a politicagem que nunca vê nada.
Nem as penas do povo do mensalão…
Nem isto nem aquilo.

Uns querendo vender a alma ao diabo da internet e outros concorrendo ao Oscar…

Éramos quantos e outras estórias

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Uma festa em um dezembro que não existe mais

Éramos dois.
Eu na estrada.
Feito balão de gás hélio, solta, subindo, subindo, subindo.
Viramos três. Eu na estrada, eles em casa.
Viramos quatro.
Durante um curto período de tempo, fomos cinco.
Dois viajantes sem rumo, três caseiros encantandos entre si.
Voltamos a quatro.
Rio e suas aventuras.
Eu virando outra pessoa.
Eles aprendendo a fugir.
Adicionamos um carioca à conta.
E deixamos um rastro de baixo Gávea, Cine Íris, Largo de São Francisco.
Algo de Santa Teresa.
Cinco e um destino.
Viramos seis.
Aos poucos o tempo foi se esgotando.
De seis voltamos a quatro.
Cinco.
Seis.
Cinco de novo.

Somos cinco.
Flanando, partindo e chegando.
Somos assim.
Sem rumo – com múltiplos objetivos.
Casa cubana – ora gritam, ora cantam. Dançam.
Ora choram.
Ora berram.

Somos cinco e, agora, ponto.
Pronto.