Arquivo de fevereiro de 2013

Para Lelê

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sobre a falta que você me faz.
Nunca fomos amigas.
Nem trocamos confidências.

Certo: uma vez fomos juntas ao salão.
Levei a vira-lata junto.
Eu fiquei com pés e mãos brancos e vermelhos – como a rainha de Copas.
A cachorra levou um pisão de salto 15.

Viajamos para a praia.
Eu te produzindo com uma havaiana meio índia, meio sertaneja… Linda.
Com cabelos lisos e marrons escorridos.
Grande e forte e decidida.

Falava tudo e sem economia.
Coração de urso panda.
Sempre ali, ao lado dos velhos.
Eu ficava tranquila por eles porque você estava lá.

Não sei por que, mas ando sentindo um aperto no peito.
Saudades finas de você.

Ressaca

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quando chove na metrópole, o mundo para.
Árvores desistem.
Faróis de carros parados criam uma atmosfera de filme noir.
Meia-luz e céu sem estrelas.

Eu? “Elucubrista”.
E o pau que a Yoani anda tomando?
Como se o governo da Ilha merecesse mesmo qualquer defesa.
Enquanto isso, a Venezuela reedita seus fantoches.
Se fossem checos, talvez tivessem graça.
No outro continente, heróis da perna de pau enjaulados.
Chinês que paga por cirurgia plástica em cachorro.
E moças que se autodenominam “rycas”.

Os dedos coçam para ler toda poesia de Leminski.
Fazendo as contas, tenho 6 anos para beber mais do que ele.
Por que poesia…
Tmbém posso começar a fazer judô.
Por que não?

No Rio, faz 40oC à noite.
Como filhos fiéis, todos de cervejas a postos e pés na areia.
Rio.
Pouquinho.

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
(p.l.)

Sobre cordas e amarras. Sobre nós.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sempre tive horror.
Horror a pressão.
Horror dos que querem para ontem e do jeito deles, sem consultar meu gosto, meu tempo, o prazo de validade.
Sem deixar espaço para que meus pulmões trabalhem.
Curiosamente, convivo bem em ambientes de pressão.
Não caio diante do grito.
Da conversa paralela.
Do por trás.
Do para ontem.
Mas prefiro o porvir.

Não gosto de férias com data marcada.
De consulta médica com meses de antecedência.
Não gosto de elevador.
Cabine de submarino.
Helicóptero.

Gosto (apenas) do que chega sem avisar.
Do que se intromete porque não reconhece regras.
Gosto da quebradeira.
Do que atropela.
Do que cai.
E cai de novo.

Ambígua.
Sim, aprecio sair do limite.
Colocar o pé para fora da marca.
Gosto de me esfolar toda na queda.
De sentir a dureza de ser do contra.

Não me diga não – eu torço a corda.
Não me diga apenas sim – eu solto o laço.

Diga que sim de sopetão, sem planejar nem pestanejar.
Vamos.
Arriscando.
Deixando cabelos em pé.

Desatando.
(nós)

Inquebrantável

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O blog não é mais garoto.
Não tem tanta política – embora quisesse reservar algumas para Renans e outros ratos.
Não se liga tanto em trabalho.
Ele é do tempo do onça.
Da assinatura em pedra.

Sou daquelas neuróticas.
Quebrou, se tem conserto, mando logo arrumar.
Garrafa de cafeteira, salto de sapato, vidro, espelho, botão de osso.
E os armários?
Caixas, sacolas identificadas, separação por cores.

Gosto do certo.
Do reto.
Gosto do simples.
E um pouco do louco.

Daí que água mole em pedra dura deu confusão.
Curva.
Retorno.
Rebento.
E tudo de volta ao fim.

Cá estou, estropiada, machucada, ferida.
E de pé.
Trocando tudo o que é possível de arrumar.
E jogando fora o que não tem jeito.

O ano mal começou e já me encontrei.
Seria suave se fosse novela.
Ano novo.
E eu caminhando cheia de pedras presas aos pés.

Caminhando a passos rápidos.