Arquivo de junho de 2013

Incêndio

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Full metal Jacket

Há alguns meses comecei a reclamar da vida.
Comecei a não entender a grosseria das pessoas, a falta de paciência, a violência cotidiana, o trânsito, a desconfiança, a falta de paciência.
Falei sobre isso com algumas pessoas conhecidas.
Tive a velha vontade de me mudar para Marte.

E, agora, sinto e sei que eu não estava sozinha.
De repente a última gota era a última gota mesmo.
Eu e metade da torcida do Flamengo estouramos.

E rio dos jornalistas que se revoltam com as redes sociais.
E me impressiono com os que se assustam com o fogo no Itamaraty.
Você, querido cidadão que é pebinha como eu, já precisou do Itamaraty na sua vida?
Se precisou, ficou na mão.
E vai defender a política internacional do Brasil?
O Barão do Rio Branco, queridos, não está entre nós.

Revoltosos, ocupantes das ruas, segui.
É chegada a hora da faxina.
Pouco vai sobrar.

E eu estou disposta a pagar o preço.

Gritos e sussurros na multidão

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dos meus (ainda) curtos 18 anos de carreira, 15 foram como jornalista, 11 dentro de uma redação.
Quando escolhi a profissão, tinha 17 anos e experiência zero de vida.

Meu primeiro dia numa redação foi uma tortura: escrever um texto curto enquanto pessoas falavam a minha volta, telefones tocavam, televisão ligada.
Sim, eu achei que iria derrotar o sistema estando dentro dele.
E peguei a onça pelo rabo.

Fui repórter da Veja, fui repórter da TV Globo.
Cresci e virei editora.
Não, nas empresas em que trabalhei, nunca recebi pedidos ou ordens para favorecer uma empresa em detrimento de outra.
Nunca me pediram para esconder os fatos.
Mas, com 17, 20 anos, é difícil entender as entrelinhas.

Em minha primeira e última entrevista com uma personalidade para as Páginas Amarelas, fui parabenizada pelos chefes: a edição ficou tão “boa” que eu chamava Demi Moore de imbecil sem talento, que eu tirava onda com o cérebro diminuto do Stallone entre outras sacanagens com as estrelas de Hollywood.
Choveram cartas – sim, naquela época as pessoas indignadas compravam papel, caneta, selos e despejavam seu ódio em uma carta – me chamando de idiota para baixo.
Uma, que me doeu com força, questionava se eu era formada e, se era, qual universidade eu pagara para obter um diploma.
Formada: colocada dentro da forma.

Veio uma outra matéria sobre o novo Código Civil e eu, depois de ralar duas semanas em cima do tema, decidi, ao ler a versão final, que não iria assinar a matéria.
A resposta veio a galope: ou assina ou rua.
Assinei.

Pouco tempo depois, bati à porta da Globo.
Foram quase dez anos dentro desta casa que me recebeu sem nem me conhecer direito.
Na Globo, jornalista é profissional que recebe um bom plano de saúde, que tem um computador bacana, que tem verba para fazer uma produção de qualidade.
A hierarquia é respeitada e os profissionais trabalham duro.
Falem o que queiram, como empresa e como patroa, a Globo foi o meu melhor empregador.

Fiz matérias com câmera escondida e tomei muito café com meu saudoso amigo Tim Lopes.
Subi morro, vi cabeça rolar – cabeça mesmo.

Um dia, fazendo a cobertura das eleições presidenciais para o JN em São Paulo, eu tive uma revelação.
Meu trabalho era pegar as imagens da agenda do dia de um candidato e montar uma matéria.
Checava a agenda do outro candidato e montava outra matéria que, obrigatoriamente, deveria ter o mesmo tempo de duração da do outro candidato.
Explico: 50 segundos de texto descrevendo o dia do candidato e 10 segundos de “sonora” / entrevista com o mesmo.
Se um candidato não fazia nada num dia e o outro se encontrava com o Elvis Presley… A-ha!
As duas matérias viravam uma nota – um texto na boca do apresentador, sem imagens.
Mas, veja bem: um encontrou o Elvis Presley que, claro, não morreu.
E o outro ficou em casa.
Para manter a “imparcialidade”, para não favorecer ninguém e nem correr o risco de ser acusado disto, o “certo” era dar a tal nota seca, sem imagens.

“O candidato carequinha passou o dia em casa, reunido com sua equipe de campanha.
O candidato barbudinho esteve com Elvis Presley e, juntos, dançaram um iê-iê-iê.
Amanhã, ambos devem participar de uma carreata na periferia da cidade.”
Ponto final, boa noite.

Confesso: demorou muito a cair a ficha.
Afinal, ganhar direitinho, conhecer todos os famosos do plim-plim e ter ótimos companheiros de trabalho desequilibram a balança.
Mas a gente não veio a passeio e peguei meu banquinho.
Fui enlouquecer com a internet, tomar na cabeça com a construção civil, fui aprender que um blog é público e que você deve ter todo cuidado com o que escreve. Hoje, vivo no mundo louco das artes.
Não sei se me encontrei, porque sou assim de virada, mas fui procurar meu espaço, meu lugar – aquele que não existe.
Fui gritar para quatro ou cinco malucos que querem me escutar.

Pois este texto é para vocês, meus cinco leitores.
Amigos, hoje, acordei com ressaca de passeata.
Hoje li que uns vândalos (provavelmente pagos) atacaram a prefeitura.
Incendiaram um carro de reportagem.
Roubaram Banco.
Apedrejaram lanchonete.

Meus ex-colegas, muito queridos e estimados, não entendem por que alguns membros da turba ensandecida que tomou São Paulo, por que parte da turba se virou contra a imprensa.
Estes colegas bradam, indignados, contra a violência que jornalistas estão sofrendo.
Uns lembram que só foram “calados” na época da ditadura.

Meus amigos, é com respeito que escrevo porque comi muito e me lambuzei neste prato.
Eu sei por que a turba grita e bate.
Eu sei.
Você, mesmo revoltado, deveria suspeitar.
Ou então, realmente, você não entendeu nada.
E o resultado está publicado.

Letras, apenas letras

S.P./S.A.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Polícia que deixa arrastão correr solto em prédios e restaurantes, polícia que me deixou ser sequestrada e que me disse que não há muito o que fazer, polícia de São Paulo que agora resolveu descer o sarrafo. Manifestante que só anda de carro e resolveu linchar a polícia. Motorista que resolveu passar por cima de pedestre. Pedestre que resolveu quebrar tudo e depois fotografar com iPhone. O prefeito que prometeu em campanha “Adoção de Bilhete Único diário, semanal e mensal (…) que permitirá que o usuário realize tantas viagens quantas deseje nesse período de tempo, e ainda tenha descontos maiores”. O governador que fala grosso de Paris. Imposto que me faz trabalhar 5 meses só para pagá-lo. Escola que não é pública. Bicicleta que passo por cima. Poucas foram as vezes que quis pegar o meu banquinho. Hoje é assim que me sinto.

Peggy oh!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

óculos de autor para ela

A história quis que Peggy ganhasse um sobrenome e tanto: Guggenheim.
E mais: que ela ficasse milionária ainda adolescente.
É que o pai de Peggy – junto com vários bacanas – afundou no mar junto com o Titanic.
Imagine se fosse hoje: Silvio Santos, Eike, Jorge Paulo Lemann, Carlos Slim, Bill Gates e outros sobem num barco e viram isca de peixe.
Penso o que Thor, He-man ou diabo que o valha…
Se ele já não sabe o que fazer com uma Mercedes-Benz SLR McLaren, o que faria com o império de vapor do pai? Mistério para outras gerações.
Voltando ao caso, rica, jovem e com um senhor nariz de batata que foi ainda mais estragado por uma plástica que deu errado… Peggy foi à luta.
Ela viveu uma vida de sexo, privilégios e dinheiro -, mas – dizem – tudo o que ela queria era credibilidade dentro do mundo da arte dominada por homens.
Irônica, esperta e danada, Peggy dava festas de arromba e sempre servia, entre outros quitutes, whiskey e batata-frita.
American rich crazy girrrrrrrrl.
Aos 21 anos, depois de viver no aperto – mas não necessariamente na pior – , ela finalmente herdou 450 mil dólares do espólio de seu pai. Isso, mais a herança 500,000 dólares que ela recebeu com a morte de sua mãe, em 1937, permitiu-lhe reunir uma extraordinária coleção antes que Paris caisse para os alemães.
Klees, Gris, Léger, Kandinsky, Braque, assim como pinturas de Miró, Picasso, De Chirico e Magritte.
Peggy teve tudo.
E, sinceramente, não há do que reclamar…

Tanto riso

domingo, 9 de junho de 2013

un goût bizarre

Sou acordada às 5h30 e não há muito o que fazer.
Visto a roupa de ontem, do show que não fui, e saio.
Passa por mim um carro – anda devagar e tem som alto.
De repente, correndo e tropeçando no asfalto, um rapaz.
Tutu verde no pescoço, maquiagem que brilha no escuro.
Nariz verde limão, olheiras brancas, terceiro olho vemelho
Corre e tropeça sem perder a graça de palhaço amador.
Sabe-se lá de onde veio, mas sei para onde vai: para o colo da mamãe.

Depois de um café bem amargo, saio de carro por uma São Paulo ensolarada e (sempre fria).
As ruas – vazias – adaptadas para receber bicicletas de gente que acorda bem tarde no domingo.

Vejo a capa das revistas.
A violência tomou conta.
A crise.
A falta de graça.

Voltando para casa, um bando de adolescentes faz algazarra.
Virar a noite tem gosto de picolé de uva sabor cabo de guarda-chuva.

Eu tenho inveja de palhaço.

Bolsa, que bolsa?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sou brasileira.
Vivo na terra do Nunca, na Ilha da Fantasia, num universo paralelo.
Hoje, enquanto eu queimava minhas ricas calorias na academia da Vila Madalena, um homem foi assassinado na rua de cima.
Sacou dinheiro e virou presunto.
Às 6h30 da manhã.
Em pleno estacionamento do maior fast-food do mundo.
Alô galera do Faroeste Caboclo, o bang-bang é aqui.

Por onde ando – e ando muito – vejo de tudo um pouco.
E hoje minha tara é bolsa.
Sim, bolsa.
Eu só penso em bolsa!

Aqui na Terra do Nunca, no reino da imaginação, uma bolsa a tiracolo de respeito e usada sai por cerca de dez mil reais.
Isto mesmo: as moças de família fazem fila para comprar bolsa usada.
E pagam por esta utilidade imprescindível dez, onze, doze mil reais.
Duvidou? Confira aqui: tem de dois mil e tem de vinte. Você escolhe qual e para que ocasião!

Talvez por isso e por outras bobagens, o bandido, este ser hoje tão popular, banalizado, encontrado em qualquer esquina e em qualquer lugar, talvez o bandido pequeno, aquele que não foi ao Congresso, o que não passou pelo Senado, talvez ele faça as contas (se é que frequentou escola na Suíça, destas que ensinam tabuada) e pense que vale mesmo a pena matar um semelhante por qualquer trocado.
Seja de manhã, como hoje, às 6h30, à tarde, como na semana passada, ou de noite.
Não tem polícia, não tem lei, moral ou medo que segure.
Não tem nada.
E confiram a profunda matemática da coisa: para comprar uma Chanel usada, são, pelo menos, 4 mortos na saidinha do caixa eletrônico.

Anote no caderno: 4 cidadãos assassinados = 1 Chanel usada

Em tempos de vaca profana, penso muito na Venezuela. Em Cuba.
Na Bolívia.
Por que não?

A previsão do PIB de 2013 despencou mais uma vez – e estamos em começo de junho.
Nos 12 últimos meses, virou realidade salgada o saldo negativo da balança comercial.
Os índios, coitadinhos, resolveram invadir Brasília.
Quem conhece a região sabe o sem número de formigueiros que habitam os gramados de lá.
Penso nos pobres dos índios pelados, com formigas carnívoras nas canelas e enfrentando ar-condicionado e carpete feitos para resistir a ratos.
Índio nunca bateu muito bem da cabeça.

O dólar, graças a Deus, cada dia sobe um pouco.
A inflação veio e deitou-se no sofá da sala.
O Banco Central, em ata, avisou: os juros vão subir.
E a Standard&Poor’s quer nos dar um downgrade.

Então penso na bolsa, na maldita.
Está mesmo na hora da presidentA fazer alguma coisa.
Fica aqui minha dica: crie logo, dona Dilma, a bolsa “Salve-se quem puder“.
Serão votos e mais votos agradecidos.
Se a bolsa-família causou tanta correria e não serve nem para comprar uma calça jeans para adolescente, talvez a nova Bolsa Salve-se Quem Puder sirva para comprar uma bolsa usada ou, para os mais conservadores, sirva para dar uns trocados para o bandido e nos deixar apenas aleijados na saidinha do caixa eletrônico.

Eu vi vantagem.E não pensei no apocalipse.

A piada e a saideira, ou melhor: a saidinha da tarde.