Arquivo de agosto de 2015

Maior o que está em mim

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Delícia voltar às origens e ver seu passado te tragando feito areia movediça e cuspindo os ossinhos com um cabelo de Debbie Harry.
O rock voltou.
A bike rolou.
A força está me deixando com braços de menino.
A loucura está rondando a praça.
A gentileza acontece.
A paranóia do escritório sumiu.
A faca e a bota foram para o armário.
Amor para todos os lados.
Na rua, na net, ao telefone, em tudo.
E só não dá tempo de trabalhar.

Trabalho enobrece?
Trabalho é andar dez casinhas para trás, no meu caso.
O tal julgamento de Brodsky.

Trabalho?
Tô ralando, minha nega.
Yoga.
Meditação.
Nos intervalos, faço algum dindim.

E estou considerando seriamente me teletransportar para o Japão.
Era uma vez uma Ana.
Durante anos Ana foi feliz.
Mas ela descobriu que, de ponta cabeça, seria ainda mais do que quis.

Segunda-feira, pode me arrancar cada pedaço de carne.
As unhas vermelhas.
O pêlo.
Me arranha inteira.

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Eu sou verbo

sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Chō

Chō

Eu sempre fui uma fera.
Tem gente que me acompanha aqui há 6 anos e que já viu.
O lado B.
A saída as 3h da matina para um lugar estranho.
A casa de shows mais iconoclasta de NYc com senha para entrar.
E eu entro.
E eu sou convidada para o segundo andar – onde as coisas estranhas acontecem.
O moço amarrado no banheiro da festa no apartamento gigante em Copacabana, quando duvidou que eu faria bondage. (e eu nunca fiz – mas dei uns nós bem dados – risos. Não fiquei para ver quem soltou o bobo).

Mas o terreno aqui é borderliner.
Tem realidade e mentira.
Ficção.

Na cabeça e no texto, muito mais do que no sexo e no trabalho, vale tudo.
A questão de ser acelerada é o preço.
Então estou descendo a ladeira com mais cuidado.
E muito mais perigosa. Mas doce como nunca.

Meu lado B está virando A.
Finalmente. Que venha a pessoa de verdade.

蝶は私の体に侵入しました。

Indomável

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A wild being from birth
My spirit spurns control
Wondering the wide earth searching for my soul

(Lou Reed)

Comecei este post em 2013.
E ele ficou aqui adormecido.
Hora de terminar porque não gosto de nada pela metade.

Ser ou ter, eis a grande e verdadeira questão.
Ter é maravilhoso – cada vez que recebo a conta meu condomínio penso em consultar um cardiologista…
Mas o ser tem sido a minha grande descoberta dos últimos tempos.
Ser tudo e com intensidade.
Sem vergonha.
Faladeira.
Começando o caminho da espiritualidade – justo a mais cética. Ou uma das mais.

Não jogar.
Não brincar com o outro.
A não ser que o jogo seja aberto, com regras sobre a mesa.

Deixar-se ir com o rio.
Com a água salgada do mar.
Simplesmente pegar o carro e dirigir duas horas para passar mais duas horas com os pés na areia molhada.
E voltar atrasada.

O ser que te faz objeto.
O que te devora.
O que te venera.
O que te pede calma.
O que chega sem licença.

Este lado de quem beijou o túmulo de Oscar Wilde segurando em uma das mãos uma taça de puro Absyntho.
Este lado que te quer inteiro.
Sem performance.
Sem sucesso.
Sem capa protetora de super-herói.

A Ana artista, cantora, malabarista.
A Ana, antes raivosa, agora cheia de mantras e mandingas.
A Ana que ainda estende a mão para quem morde.

Ser mordida.
Com força.
Ficar roxa por dias e dias.

Voltar a erguer o corpo inteiro em um só braço.
Pernas para o lado.
Respiração e força no períneo.

Este ser indomável.
Que se afunda nos bares da Praça Roosevelt.
Que te dá tudo até tesão.
Que carrega o anel de 75 anos de um pedido.
Que se despe sem vergonha e sem preconceito.

Que resolve passar uma quinta-feira inteira na cama.
Que te dissolve.
Que te resolve.

E que, no fim, volta sozinha de táxi.
Sim, sou eu.
Eu não tenho medo – nunca tive.
Mas já caí no abismo – não foi culpa minha, foi um acidente de carro.
E, talvez, por isto mesmo, eu não tenha medo.
Minha hora não era aquela.
E quando for, será.

Eu quero apenas o abraço sincero.
O eu te amo de quem verdadeiramente abre a alma.
Não quero seu dinheiro.
Seu sucesso.
Seu desprezo.
Sua inveja.

Quero o sapo.
Aquele que, depois do beijo, continua sapo.
E eu te beijo sem parar.

Mas continuo indomável.
E te assusto.

 

Academia

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Ontem voltei a malhar.
Peguei leve: duas aulinhas de mocinha.
Alongamento com as vovós e localizada com aquelas que um dia juram que vão ter bumbum empinado.
Fui na hora do almoço.
Fui de bike.
Já saí pronta, de malha, para não perder muito tempo.
Olhei para o meu corpo no espelho.
Há dois meses, parei de correr e de fazer toda e qualquer atividade física.

O corpo é algo espetacular.
Olhei para minhas colegas – malhadoras de plantão.
E eu lá: a anti-academia em Pessoa Ana.
Eu com minha malha de dez anos atrás.
Body de yoga de algodão com elastano. Pochete de neoprene velha.
Elas todas uniformizadas – o que é legal. Olhei os tênis da moda: coloridos.
Os tons de turquesa.
Os tecidos tecnológicos que vestem bem e secam rápido.

E eu.
Meu pernão de Romário campeão de 1994.
Meu tríceps saltadão de ashtanga.
Minha saboneteira que carrega um sabonete Granado de um lado e flûte à champagne no outro.
Minha barriga – que é uma barriga. Nem inha nem ão. Ela não faz feio.
Pensei nas estrias: minhas listras que amo e que adquiri num estirão de crescimento, muito antes de ser mãe.
Lembrei da colega maldosa em Cuba me perguntando o que eram estas cicatrizes e eu, com um bikini minúsculo, explicando que são fruto da destruição de fibras elásticas e colágenas na pele.
Fruto do crescimento. É o corpo dizendo que quem manda é ele.
E eu tinha um corpo sarado quando a maldosa tentou achar um defeito na piscina olímpica do Fidel.
Eu me diverti – este tipo de jogo feminino nunca me pega na curva.

As minhas estrias são alinhadas e grandes, 4 ao todo – duas de cada lado.
As do meu irmão são iguais.
Olhei minhas ancas largas, ossudas, e minha bunda inexistente.
Tem gente que tem barriga chapada, eu tenho bumbum reto.

E minha força de Bruce Lee.
As colegas levantando 2,5kg, pegando anilha de 5kg para colocar na barra.
E eu testando 2,5; 5, 7, 10kg.
Eu sou forte para caramba.
Sempre fui.

Não vou me esquecer daquele reveillon na pós-adolescência em que o cara pegou 3 vezes no meu braço para conferir o músculo.
Na época eu fazia karatê.
Olhei para ele e fiz: “-Bu!”.
Ele se apaixonou e começou o ano novo segurando nos meus dois braços.
Não largou do meu tríceps nem um segundo.

Olhei para o espelho e gostei do que vi.
Este corpo tem história.
Não é feio.
Não é capa de revista de malhação.
Mas ele é meu e está lá, inteiro, apesar do meu descuido.

Vi meus braços fortes.
Olhei minha canela mais fina do que o normal – mas as coxas grandes.
Dei um sorriso para mim mesma.
Eu sorrio com todos os dentes.
Em volta da minha boca, nas laterais, surgem umas dobras bonitas.

Pensei comigo: como é bom ter 40 anos.

Quando sou Joan e Debbie ao mesmo tempo

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Autorretrato em branco e preto

Digamos que passei uns 6 anos adormecida numa cápsula de Propofol.
Nego, o soninho era bom demais.
Eu era uma dona de casa meio gordinha, que fazia o café nespresso, a torrada integral e o queijo da Canastra.
Bolo de carne, bobó de camarão, muffins recheados e pão de banana com amêndoas.
Mas Michael exagerou na dose e achei melhor dar um tempo no agente anestésico intravenoso de curta ação.

Quando acordei, eu era eu de novo.
Que loucura!

Com os cabelos pintados, mais curtos.
Com a mesma piração randômica na cabeça.
O mesmo peso dos 23 anos.
A fada da dor me deixou assim.
Mas com 17 anos de experiência nas costas.
Eu era praticamente a mulher maravilha de patins.

O toque do meu celular ainda é “I Love Rock ‘n Roll”
E “I’m a natural ma’am
Doin’ all I can”
Você sabe.

Mas você não sabe que Debbie tem Ana no nome, gato.
Eu e ela temos uma história em comum.
“Once I had a love and it was gas
Soon turned out, it was a pain in the ass
Seemed like the real thing, only to find
Mucho mistrust, love’s gone behind”

Em meio a passeatas e muito cartão de visita, eu continuo tocando minha batera.
E tingindo o cabelo de branco, cada vez mais branco.
Com meu batom vermelho.
E minha cara de pau infernal.
Fingindo que eu não sei o problema que eu vou te causar.

Eu ainda falo: “cuidado comigo”.
Ah, mas vocês são mesmo todos iguais.
E eu acordei.
Fazer o que?

Propofol nunca mais.

Manual de sobrevivência

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Jazz, guayabera e um silêncio

Meia vida se encerra em nove folhas de papel.
Quem paga o jornal?
O banho da cachorra?
IPTU, Condomínio?
A vida, o dinheiro, os bens, as coisas?

Quem fica com o espremedor de laranja?
O toca-discos?
A máquina de waffle. A panela.

Dois meses de jogo duro.
De viradas dignas de Nina Simone.
Do ceticismo se fez luz.
Das certezas se fez a solidão.
Das dúvidas se fez de tudo e mais um pouco.
E eu comecei a recitar vários mantras.

Um dia na estrada, um banho de mar.
Discussões, como sempre, sal no carro.
Um impresso.
Rubricas em 8 páginas.

E assim começa a nova vida.
Passando em branco todas as coisas.
Mas deveria conter coisas este papel?

Aqui jaz Parati numa noite de amor vendo os telhados.
A varanda com rede do Jardim Botânico.
Os exus no jardim.
O carro novo amassado em uma escada de qualquer ladeira em Santa Tereza.

Aqui jaz Cuba.
O carnaval de Olinda.
Jamaica de red or white wine, champagne?
Aqui jaz o prédio da Bela Vista com bela vista para Masp.
Aqui jaz o fantasma de dona Bibiana.
Jaz o apartamento da João Lira.
Bibi, Leleco, Mafalda, Marmelo, Bo Ba (de Lina).
A praia do Leblon.
O posto 9.
A banda de Ipanema e as Carmelitas.

Um ou outro forró mal-dançado.
Uma festa de arromba no Humaitá.
Alguns festivais de cinema.
Um carro novo, importado.
Nova York.
Punta Del Leste.
Um reveillon em Itatiaia.

Aqui termina a festa de arromba para 400 pessoas.
Com muito espumante brasileiro e uísque estrangeiro.
Os amigos de todas as partes.
Aqui jaz meu vegetarianismo.
Meus quilos a mais – contados e recontados e perdidos como que para mostrar que a vida pode nascer das cinzas.
E eu estou de novo como eu era quando tinha 23 anos.
E nao me pareço em nada com aquela menina.

Aqui jazz.
Ali samba.
Aqui fidelidade eterna.
Ali confusão que custou caro.

Algumas raves.
Gafieiras.
Mochilões.
E, que engraçado, nunca fomos juntos para a Europa.
Paris, Praga, Amsterdã.
Cada um a seu tempo.
E por sua conta.

Em nove páginas, não existe nem um capítulo de histórias.
Só coisas.
E coisas são mudas.
Inanimadas.

Que o juiz faça uma graça, cite Oscar Wilde.
Ou, ao menos, Vinícius.
Se ele nada fizer, prometo queimar todas as nove páginas ao som de John Coltrane.

Aí, sim, tudo o que jazz.
E segunda-feira eu sairei pela calçada, com cara e alma lavada.
Pronta para qualquer parada.
Ou andada.

Porque eu sou Pessoa.
E amo tudo o que já não é.

 

Sobre ser você mesmo

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

 

O dia mais triste de nossas vidas

Hoje é sexta-feira.

Dia internacional de um monte de coisas.
Entre elas de começar uma vida nova
E de ser você novamente.

Sexta-feira é dia em que os fracos saem por aí se achando fortes.
E dia em que os fortes se recolhem para enfrentar a segunda-feira sem máscara e sem armas.

I’m a real rebel with a cause.
Nina Simone

Palavras

sábado, 8 de agosto de 2015

Eu sou como eu sou porque eu vim de onde eu vim.

Ya esta en el aire

Do minério que gruda na pele e não sai.
Da crueza ferina.
Das feridas praticamente incuráveis porque a faca tem veneno.
Para esta raiz não volto mais, para este caule de flor de lótus solto na água.
Que se desfaz em fibras grossas e gosma sem cheiro.

Faz parte do desenvolvimento entender os porquês.
Faz parte se perdoar também.
E é sempre tempo de olhar para frente.

Meus olhos são verdes e castanhos.
Eles sempre enxergam mais do que deveriam.

Honestidade

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A diferença entre o que você pensa e o que você faz.
A diferença entre o que você faz e como você se responsabiliza por seus atos.
A diferença que gera buracos profundos e constrói muros intransponíveis.
Gaza, Berlim – nada tão “simples”, tudo cada vez mais distante.

Pessoa escreveu que “a maioria pensa com a sensibilidade”, e que ele “sentia com o pensamento”.
Eu entendo Pessoa.
Nos meus mundos de letras, idéias e elucubrações, eu vôo.
No mundo de terra, água, ar e fogo – eu me dou uma pausa.

Quando eu ajo, eu sou mais do que apenas humana.
Eu sou uma força capaz de mexer com a estrutura dos átomos.
E eles sempre se rearranjam.
Isto se chama “Teoria das colisões”

Porque a gota de água que cai do seu copo muda a estrutura do mundo.
E uma coisa leva a outra até que um tsunami nos leva a todos.
Mas somente uma certa fração do total de colisões tem a energia para conectar-se efetivamente e causar a transformaçao dos reagentes em produtos

O pensamento não é produto.
O pensamento flui em outros mundos.
A ação é fato.
Ela é escrita na pedra.
Assinada com sangue.
Ela não volta no tempo.

Só quem volta é o pensamento.

E eu, por aqui, me basto.

No legacy is so rich as honesty.
William Shakespeare

Eu sou exatamente o que você não vê

Minhas unhas vermelhas

domingo, 2 de agosto de 2015

Antes eu queria a festa, o momento.
Hoje eu quero o microscópico.
Em dois meses, eu voltei a ser a Ana com 20.
Mas com uma vida de 40.
Não foi a farra que veio, foi a carga pesada arrastada com com correntes que se foi.

De repente me vi montando um altar de flores.
De bons pensamentos.
Eu me lavei com sais, lavanda, acreditei na pedra energizada.

Eu tinha todas as certezas.
Minha bota do exército.
Minha roupa preta e um cabelão de medusa.
Um parceiro da vida inteira.
Um futuro.

Hoje eu tenho uma idéia.
Eu passo um batom, encho o peito de ar e vou.
Não levo nem a bolsa.
Eu simplesmente vou.

Eu ando muito leve, quase sendo levada com o vento.
E descobri que o caminho ainda nem começou direito.
Peguei um atalho enorme.
E cheguei em lugar nenhum.

Mas eu sou daquelas que caminha sem parar.
E, demorou, mas eu não tenho onde chegar.
E tudo bem.
Eu vou.