31 out

(vazio de rabo abanando)

Meu gato Leleco nasceu num telhado em Fortaleza.
Abandonado à própria sorte, não se afogou na caixa d’água como o irmão.
Nem foi abatido por pura maldade.
Apareceu em casa pelas mãos do porteiro.
Um menino simpático, tímido, de chinelos.
Josenor achou melhor subir no telhado e salvá-lo.
Apareceu lá em casa sem jeito e mo deu.
Leleco era levado, ousado, arriscado.
No Rio se descobriu.
Toda noite era festa na casa amarela.
Deixou filhos em Niterói.
Em Minas.
Conselheiro Lafaiete.
Leleco anda muito mal.
Dos sete quilos e tanto, só quatro.
Dos pulos à noite para dormir nas minhas pernas, um suspiro.
Ele tem AIDs.
Imunideficiência.
A doença e o tratamento são idênticos aos dos humanos.
O problema é conseguir medicação para uso veterinário.
Conseguimos.
Antes disso, pancreatite, transfusão.
Leleco magro e guerreiro.
Anemia.
Agora tenho a dolorosa sensação de que meu fiapo de gato está aqui só de teimosia.
Leleco, meu gato cearense de alma carioca, é uma pena ter que te deixar partir em São Paulo.

Escrito por anapessoa

2 comentários para “Leleco”

  1. gonçalves disse:

    Belo texto, Ana. Inspirou-se em Nelson Rodrigues, para concluí-lo?

  2. anapessoa disse:

    Na vida mesmo… Inspiração às avessas.

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