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29 ago

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Geraldo Flávio Dutra Mayrink. Porque nós, mineiros, temos nomes de reis de Espanha e Portugal. Eu, por exemplo, sou Ana Luiza Pessoa de Mendonça e Alvarenga.

Pois Geraldo, recebeu-me em São Paulo quando eu tinha 21.
Passaram-se 13 anos (!).

Eu não sabia dirigir, mas fiquei com o carro que minha mãe trouxe de Minas e, para fugir das horas de ônibus, várias vezes me aventurei na Marginal Tietê. Para os amantes da estatística, em dias normais, a Marginal registra uma média de 7,7 km de congestionamento.
Pois bem: sem nunca ter dirigido, sem habilitação e sem juízo, eu partia para a editora Abril, um caixote velho e feio, na beira da Marginal.
Quase sempre me esquecia do pedal do freio e parava o carro desligando a chave.

Como era praxe na revista Veja, ninguém dava bom dia para os novatos.
E eu sempre tive o azar (ou a sorte) de subir o elevador com o editor-chefe, o Mario Sergio Conti, um cara super esquisito, como 99% daquela redação.
Imagine o impacto diário: você acaba de estacionar o carro (e esqueceu onde fica o freio), o coração a mil por hora, e dá de cara com o BIG BOSS no elevador. Você, mineira, bem educada, 21 anos, fala bom dia. O cara, não te olha, vira de lado, aperta o botão. Silêncio. Vocês sobem até o penúltimo andar. Caminham pelo mesmo corredor. Você vai para a sua mesa num corredor de baias. E ele para um aquário em frente ao seu corredor de baias.
Quase todos os dias.
Sem dizer bom dia.

E surge Gegê.
Gegê, assim mesmo.
Com toda essa intimidade.
Gegê que escreveu essas palavras sobre o primeiro homem.

O exemplar da espécie original foi chamado de homem e chegou primeiro a um mundo que ainda nem podia ser chamado assim. Isso o traumatizou (como se diria no futuro, pois o ser não tinha vocabulário nem imaginava o que a vida lhe reservava).

(…)

Depois, num enredo confuso, Eva corneou o marido — com quem não era casada e mesmo sem a presença de outros homens assediando-a, para caracterizar um ato de traição. Foi quando ela comeu um fruto proibido. Teria sido uma maçã, mas não há provas, como não há de que Adão, convencido por ela, teria provado do mesmo fruto proibido. Aí Eva foi por Deus expulsa do Paraíso onde vivia com o companheiro, e o desfecho da intrigante trama ainda não aconteceu.

Fica claro o fato de Gegê estar entre o mísero 1% que me faz até hoje ter ótimas lembranças da Veja. Aquelas escadas de fábrica. A sopa de não-sei-quê com cebola servida no bandejão. As inúmeras madrugadas perdidas enquanto seu texto não voltava da entidade chamada editor. Aquele ser que ficava a 3 metros de você e que não te dava bom dia.

Ao ser contratado pela Veja nos anos 90, o foca tinha algumas obrigações. Entre elas, a primeira era de ler, reler e passar adiante o mico histórico da matéria do Boimate (explico: é costume entre os cientistas e jornalistas especializados publicar matérias-piadas no primeiro de abril. Pois a inglesa New Science inventou que cientistas de Hamburgo haviam criado um híbrido de filé com tomate. A Veja, na maior barrigada da história, acreditou e publicou a história como sendo verdade). Detalhe: o texto, de 27 de abril de 1983 foi assinado por ninguém menos do que o atual editor-chefe da revista, Eurípedes Alcântara (outro mineiro, mas esse de uma estirpe menos ilustre, a dos que fazem caca em público).

A outra obrigação era ler um dos maravilhosos textos de Geraldo Mayrink.

Detalhe, quando pisei meu saltinho 37 na redação da Veja, ainda trabalhavam em carne, osso e pescoço Roberto Pompeu de Toledo e Okky de Souza, entre outros incríveis. Eu não entedia – e ainda não entendo – o culto ao editor-chefe e sua entourage (Paulo Moreira Leite, Eurípedes Alcântara – na época, em NY – Mainardi, que ficava na Itália, etc), e um certo desprezo justamente por esses caras que eu amava. E eu não só amava como babava, babava como bezerra nova (que era) por essa velha guarda.
E mais: eles me davam bom dia, boa tarde e boa noite. TODOS OS DIAS.
E vejam a sorte. Não raras as vezes, aos domingos quem eu encontrava no La Villette da Vilaboim? Geraldo Mayrink!

Eu comia batata-frita, sorvete, e pagava para ele um copão de vodka. Era um orgulho para mim pagar a vodka do Geraldo.
E falávamos de Sartre.
De ping-pong.
Da China e de Cuba.
Falávamos de cinema.
De política.
E de como era chato ter que trabalhar na Veja.
Ele me chamava de Narizinho Existencialista torta.

Outro foca mais velho que eu e que já não estava lá quando eu cheguei, o Luis Nassif, também fez seu tributo ao Gegê. Lembrou ele:

Geraldo era o mais admirado. Crítico de cinema, conseguia produzir análises saborosíssimas, recheadas de ironia, no espaço exíguo de uma revista semanal. Suas imagens, como por exemplo do ator “expressivo como um helicóptero”, e outras do gênero, eram motivo de diversão e de admiração geral.
E ele sempre com aquele jeito pacatão, nenhum deslumbramento, sabendo rir de si próprio, quando dizíamos que ele era clone de Dolores Del Rio, atriz de faroeste meio queixuda, que nem ele.

Geraldo Mayrink, que pena que você partiu.
Já sinto falta de você. Um abraço, amigo querido.

Escrito por anapessoa

Um comentário para “Geraldo Mayrink, o amigo que me recebeu em São Paulo”

  1. Lilian disse:

    Ana Pessoa, faz tempo hein?
    Como não falar de Geraldo, esta figura, culta, calma, irônica, e de uma simpatia tão grande!!!
    Conheci o Mayrink desde que entrei na Revista. Tinha receio de falar com ele, pois como você disse, não dava para cumprimentar a todos sem saber se você receberia uma resposta. Mas um dia, ele teve que vir na minha mesa para assuntos de trabalho. Depois deste dia, eu realmente vi quem era Geraldo. Foi um amigo e tanto durante minha estadia. Falávamos de tudo, nos encontrávamos em algumas peças de teatro, íamos a algumas festas e se não tinha vodka, ele trazia, ou dava um jeitinho de arrumar. Conversar com ele dava uma sensação de alívio nos dias corridos de fechamento. E eu pensava, trabalhar aqui vale a pena por conhecer pessoas assim. Espero que ele tenha se lembrado de mim com tanto carinho que sempre me lembrarei dele. Vá feliz velho amigo…

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