copos
20 dez

O domingo começa conforme combinado.
Fui dormir e acordei quando quis.
No café, a preguiça reinou. Chá com biscoitos amanteigados (que vieram numa cesta de Natal).
Banho e penhoir (!).
Cabelos não viram um pente.
Faz sol lá fora. Quase três horas da tarde e nem abri o jornal. Pulei o almoço.

Foto criada em 2009-12-19 às 16.28Foto criada em 2009-12-19 às 16.28 #2

La Promenade

Domingo. Um dia de ócio e meditação. Comprei a Biografia de Marc Chagall. Um homem que nasceu num assentamento. Viveu clandestino em São Petersburgo. Fugiu para Paris. Anos depois, fugiu para Nova York. Teve três amores: Thea, Bella e Vava.

Pintou quadros tão lindos.

Eu quando vi La Promenade fiquei com raiva.
Era muito cedo para ver algo tão definitivo.
Imaginem Chagall, que estava com trinta anos…
promenade

Alma que é pequena embora a família seja do poeta

Na minha janela, primeiro foram as cambacicas. Quíííííííííí.
Agora, sanhaços que imagino azuis disputam água cor-de-rosa. Ouço as patinhas, a briga pelo melhor lugar – mas não me mexo para que eles não voem e me deixem sozinha aqui.
Na internet, banalidades.
Penso no filho do ladrão do cinema lutando pela vida e confirmo que tenho uma alma bem pequena.
E velha.
Com vinte anos, o moço, ousado, perguntou se eu tinha 30. Eu tinha a mesma idade que ele.
Com vinte, não são rugas que te fazem parecer mais velho.
Mas quando se é cigano, a casa vai nas costas.
E preciso armar a tenda onde seja possível.
Fazer café. Conta de água.
Carro novo. Jardim com flores.
Depois de um tempo, a idade só aumenta.
Não tem creme, injeção ou terapia.
E o jeito é ser assim mesmo.

A culpa é da palavra

Hoje as coisas são esquisitas.
As exposições continuam públicas.
Mas a gente faz confissões para gente que não conhece.
Quer dizer, até conhece, mas nunca viu.
Um texto de Guimarães, uma conversa sobre Paris, Berlim, Rio, São Paulo e filosofia.
Eu continuo achando que o melhor lugar do mundo é a Serra de São José, em Tiradentes.
E ela fica muito melhor quando eu não estou lá.

Falando de Minas, uma coisa levou a outra e encontrei a solução:

Quanto você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60, são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!

(Carta de Hélio Pellegrino a Fernando Sabino, revista pelo autor ao fazer 60 anos).

Escrito por anapessoa

2 comentários para “copos

  1. Leo disse:

    Se conhece o mundo conhecendo a si mesmo – pensei agora. Dá pé? Haja saco! :-)

  2. Jåµë§ disse:

    :: Engraçado a internet. Do seu Blip.FM para o Twitter, do Twitter para o blog. Do blog para a caixa de comentários. Estarei aqui vez em quando. De quando em vez…

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