2 jan

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.DSC_0108

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difí cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.

João Guimarães Rosa


Pois meus planos chegaram até Goiás, fizeram uma curva e sumiram. As malas eu fui abrindo, arrumando a coisas e guardando tudo de novo. Para depois abrir mais uma vez. Eu fui saindo da civilização para parar em Minas. De Minas, Brasília. De Brasília, Goiás. Chapada e chuva.

Antes que o ano fosse embora, eu vi que o destino é mais forte. E em veia de cigana corre estrada. É sina.
No meio de um pasto, com boi de todas as cores, voaram duas araras azuis. E não é que também toca celular?

E tome estrada de volta, aeroporto… Eu que já tinha despedido de avião em 2009.
Brasília, chuva.
Belo Horizonte, chuva.
Dormi suada e com a roupa de um dia inteiro.
Cinco horas da manhã, estrada.
Café com leite, maquiagem no banheiro. Biscoito de queijo e pastel de angu.
Tudo para chegar numa cidade tão pequena e tão cheia de terra.
Barão de Cocais. Antes foi São João do Morro Grande.
Fui enterrar meu pai.

DSC_0002Fiquei pensando se escrevia. Se passava essa.
Mas me deu tanta vontade que esse texto tem vindo e voltado desde o dia 29 de dezembro do ano passado.
Um velório de interior num piso com tacos gastos.
Num clube que já não existe mais.
Durante a noite toda, choradeira, bolo, café, pão de queijo.
Água lá fora e aqui dentro.
Tinha gente que entrava para ver corpo.
Tinha doido que encontrava pedaço de bolo e calor.
Eu só cheguei de manhã.
Muita moça velha rezando.
Muito encontro de gente antiga.

Ele estava lá, com a pele amarela, de terno e coberto de flores de plástico.
Contei 13 coroas, depois chegaram mais.
Todas flores de plástico porque lá não nasce delicadeza.

Vi tanta gente de quem não lembro o nome.
Dizem que ele falava de ano novo e rezava uma oitena.
Deu três suspiros e acabou.
No bolso, a foto de um filho e um dinheiro “da sorte”.
A caçula incluiu um desenho.

A matriz ficou lotada.
Teve discurso de vereadora. Do padre que foi colega de seminário. Do primo. Do irmão mais velho.
Três dias de luto oficial.
Era estranho ser olhada, apalpada, e vestir a personagem.
Quando a procissão partiu, caiu uma chuva forte.
Jogaram logo a caixa e cobriram de terra vermelha.
Orgulho de ser “pé-de-pomba”.
Seco e sob chuva.

E o ano novo entrou com mais chuva e com muito tio, primo, galinha, peru, cidra e salpicão.
Foram horas de causos – sem censura.
Muita risada, muita piada. Briga para colocar a mesa.
Gente amontoada em quartos com muito bordado, renda, bibelô, louça antiga, boneca de pano e toalha cheirosa. Broa, biscoito de nata, pão, queijo da roça.

Se eu pudesse mudar tudo e escolher um outro reveillon, eu não mudaria nada.
E confesso sem modéstia o meu orgulho de ser de uma família louca, esbaforida, complicada, faladeira e que tem um talento danado para rir da própria desgraça e fazer de tudo isso uma grande experiência.

Feliz 2010.

Futebol

Escrito por anapessoa

14 comentários para “Grande Sertão, Veredas”

  1. FCaldas disse:

    Num grau evolutivo determinado ocorrem modificações profundas que nos fazem estranhar coisas que inesperadamente acontecem.

    E assim, inesperadamente seu Pai sei foi…

    Que legal saber que experimentou a satisfação plena de uma família feliz e com a consciência tranquila.

    Gostei também quando disse que não mudaria nada.

    Agora só te resta seguir com bastante fé, coragem e otimismo. Enfrentar os compromissos assumidos perante a própria evolução e experimentando desde já, a alegria de viver!!!

    Ainda bem que escreveu,

  2. Jåµë§ disse:

    :: Às vezes, tenho inveja de quem pode se despedir e dizer coisas tão legais sobre seus pais, mesmo no final do caminho. Não tive essa sorte mas quase sempre falta não faz. Quase sempre.

  3. sara ezequiel disse:

    Oi Ana
    Devido a mudanças no meu escritório andei sem internet quase um mês, só o essencial no computador do Rui e depois as noticias das inundações no Brasil, das desgraças que doem mais nesta altura, fiquei com mau pressentimento, à espera de noticias, resposta ao meu mail…
    Hoje que finalmente a vida recomeçou deste lado (pelo menos a internet) a primeira coisa que fui ver foi seu site e chorei… por si, como se fosse meu pai.
    Para quem voou para longe (como eu tambem) cada raiz que se perde é uma dor muito forte.
    Um beijo grande de sua amiga de portugal.
    sara ezequiel
    tomatorosato

  4. Leo disse:

    Tempos tristes. Meus pêsames.

  5. h. disse:

    Se ao menos ombros + silêncios distantes e virtuais servissem…

  6. ju saad disse:

    Dê notícias!

  7. Camila Junqueira disse:

    Sou uma leitora assídua e de longa data.
    Sua intimidade com as palavras me cativou.

    Achei que nesse momento pelo menos um Feliz 2010 cabia.
    Espero que vc continue encarando a vida com a mesma leveza e ousadia das suas palavras.

  8. Pedrinho disse:

    Oi Aninha, fiquei sabendo do seu pai com atraso, mas queria deixar nosso abraço aqui de Londres.
    Irei sempre guardar na memória os cafés da manhã na sua casa (Aveninda do Contorno) cheios de mortadela e as inúmeras tentativas do Tio João de me converter pro Galo. Mande um abraço pro Augusto e pros outros irmãos também.

  9. anapessoa disse:

    Imagina o que ele nao comeu de mortadela sem poder… E soube que converteu dois primos dos meus irmaos do ultimo casamento… So ele mesmo para fazer as criancas trocarem de time…
    Risos e obrigada.

  10. anapessoa disse:

    Camila, super obrigada.
    O caminho natural é o pai ir na frente. E o meu, sinceramente, aproveitou bem a vida.
    Obrigada. 2010 está começando hoje para mim.

  11. anapessoa disse:

    Sarah, muito obrigada. De verdade.
    Estou bem.
    Perder pai faz parte.
    E pude aproveitar os tios, os irmaos de outro casamento.
    A cidade dele.
    Obrigada demais.

  12. Ale disse:

    Como sempre, bonito seu texto.

    Feliz 2010.

    Meus Pêsames, AP.

  13. mariana disse:

    Que bom que vc escreveu. Lindo o seu texto e linda a foto do João Batista. bj

  14. Cocaiense disse:

    Como são as coisas…de repente apareceu seu texto….do nada….curiosamente li….
    Comentando sobre os trejeitos ( que é normal….rss) das famílias interioranas mineiras e da minha querida terra (onde moro, inclusive).

    Felicidades

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