30 jan

Aprendi através da experiência amarga a suprema lição: controlar minha ira e torná-la como o calor que é convertido em energia. Nossa ira controlada pode ser convertida numa força capaz de mover o mundo.”

Mahatma Gandhi

Depois do corpo de Gandhi ter sido cremado, as cinzas foram dadas a amigos, família e seguidores. Agora, 62 anos depois, algumas dessas cinzas foram devolvidas à família e serão espalhadas sobre o litoral da África do Sul, país onde o mahatma morou por 21 anos. Foi marcada uma cerimônia em Durban.

Tirando o Leonardo, única pessoa sabe ler devanágari, vai uma tradução livre para mahatma: a grande alma…

O que me impressiona em Gandhi é a força da não violência ou ahimsa (em sânscrito, अहीमर ahimsâ).
Ele criou uma espécie de escola, a Satyagraha (सत्याग्रह) = satya (verdade) + agraha (firmeza, constância). Força da verdade.

Gandhi empregou o satyagraha na campanha de independência da Índia e também durante os anos que passou na África do Sul. A teoria influenciou Martin Luther King na campanha pelos direitos civis nos Estados Unidos.

A não-agressão, uma forma não-violenta de protesto, não tem nada a ver com passividade e pode até implicar em desobediência civil.

Segundo o próprio Gandhi,

“Tenho também a chamado de força do amor ou força da alma. Eu descobri o satyagraha pela primeira vez no início da minha busca pela verdade que não admitia o uso da violência contra um adversário, pois o mesmo deve ser desarmado dos próprios erros com paciência e compaixão. E o que parece ser verdade para um pode ser um erro para o outro. E paciência significa auto-sofrimento. Assim, a doutrina passou a significar reivindicação de verdade, e não pela inflição de sofrimento sobre o adversário, mas sobre si mesmo.”

povaoGandhi propôs uma série de regras para satyagrahis em campanha de resistência (que é o nosso caso, pois estamos lutando para respirar…):

1 – Trabalhar sem ira
2 – Sofrer pela ira do adversário
3 – Nunca retaliar a agressões ou punições; mas não submeter-se, sem medo de punição ou agressão, a uma ordem dada com fúria
4 – Apresentar-se voluntariamente à prisão ou ao confisco de seus próprios bens
5 – Se você é responsável por uma propriedade, defenda-a (de forma não-violenta) com a sua vida
6 – Não amaldiçoar ou praguejar
7 – Não insultar o adversário
8 – Nem saudar, nem insultar a bandeira do seu oponente ou dos líderes do seu adversário.
9 – Se alguém tenta insultar ou agredir o seu adversário, defenda-o (sem violência) com a sua vida
10 – Enquanto prisioneiro, se comportar com cortesia e obedecer os regulamentos da prisão (exceto aqueles que são contrários ao auto-respeito)
11 – Como um prisioneiro, não peça tratamento especial ou mais favorável
12 – Como um prisioneiro, não seja rápido na tentativa de ganhar conveniências cuja privação não implicam qualquer prejuízo para a sua auto-estima
13 – Alegremente obedeça as ordens dos líderes da ação de desobediência civil
14 – Não selecionar ou escolher quais as ordens que deve obedecer. Se você achar que a ação tenha algo de impróprio ou imoral, corte sua ligação com a ação totalmente.
15 – Não fazer a sua participação condicionada à companheiros que cuidem dos seus dependentes enquanto você estiver participando da campanha
16 – Não se tornar sua causa, não virar um querelas de coisas banais
17 – Não tomar partido em disputas, mas só auxiliar aquele partido que está comprovadamente certo
18 – Evitar ações que podem dar origem a conflitos banais
19 – Não tomar parte nas procissões que a firam a sensibilidades religiosas de qualquer comunidade

Eu não cumpro nenhuma completamente (!), pelo contrário, descumpro várias… Fiz o cálculo, só 6 salvam (e mais ou menos) no meu currículo…
Para ajudar a gente como eu, ele criou um programa de 5 pontos ou atitudes:

1 – igualdade;
2 – nenhum uso de álcool ou droga;
3 – unidade hindu-muçulmano;
4 – amizade;
5 – igualdade para as mulheres.

Nesse daí, eu tenho que dar uma garibada no 1 e adotar o 2 (aliás, check up nota dez – nem o álcool me derruba!).

Igualdade, amizade – parece tão fácil…
Quem sabe? Você topa tentar?

Escrito por anapessoa

4 comentários para “62 anos da morte de Gandhi”

  1. gonçalves disse:

    Ana, acho a igualdade um ideal ambíguo e não sei em que termos Gandhi a defendia. Considerando que infinitas combinações podem levar à diversidade e apenas uma à igualdade, penso que aquela é muito mais natural e humana do que esta. Igualdade, obrigatoriamente, é restrição de liberdade. Portanto, cuidado com o remédio…

    Abs.,

    Gonçalves

  2. anapessoa disse:

    Gandhi te responde…

    “A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.”
    “A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.”
    “De nada adianta a liberdade se não temos liberdade de errar.”

    Happiness is when what you think, what you say, and what you do are in harmony.
    Hate the sin, love the sinner.
    Honest differences are often a healthy sign of progress.
    I object to violence because when it appears to do good, the good is only temporary; the evil it does is permanent.
    I want freedom for the full expression of my personality.
    Mahatma Gandhi

    Sinceramente, Gonçalves, não é uma igualdade com todos recebendo a mesma coisa… Igualdade também não é em detrimento do outro.
    Acho que vai além do “material”.
    Se eu fui a escola, se eu tive oportunidade, eu posso ser o que quiser.
    Se eu não tenho nada, eu tenho raiva.

  3. gonçalves disse:

    Aí é que está: tolerância só faz sentido se a diferença for a constante!
    Temo muito o uso indiscriminado desta palavra, igualdade; por isso fiz a provocação…rs

  4. Leo disse:

    Mais um post bacana!

    Creio que a idéia de igualdade tenha saído do Bhagavad Gita, já que era um dos livros de cabeceira do Gandhi. É o seguinte: é igualdade em lidar com o mundo e as pessoas, é uma espécie de eqüanimidade. No Gita esta idéia vem de um verso que diz para você ver um feixe de ouro e um feixe de pedra da mesma maneira; não é que você não saiba a diferença, você sabe, mas sabe que tem algo para além destes feixes que os unem. Acho que é por aí, até porque o Gandhi nunca propôs uma “fusão” hindu-muçulmano, então respeitava as diferenças, e sabia como são naturais e essenciais.

    Ana, “grande alma” é a tradução exata para mahatma.

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