31 jan

Deus nos dá pessoas e coisas,vidaroda
para aprendermos a alegria…
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos…”

João Guimarães Rosa

João criou Riobaldo e colocou as palavras na boca dele. Riobaldo falou e as palavras ganharam vida, vida que Riobaldo não teve.

Eu não acredito em coincidências, só em brujas. Mas o fato é que gostei de ver a frase usada por mais gentes que encerraram hoje seu 2009. Muitas vezes a religião não consegue trazer conforto. E daí que a literatura é tiro e queda. É que nem pedir um copinho lagoinha com uma branquinha. Ninguém tem nada a ver com isso… E você sai zerado do bar*.

Guimarães para mim tem três passagens (entre várias, porque Diadorim, o burrinho pedrês, o vau da sarapalha e tantos outros vêm e vão o tempo todo, enchem a casa de mato). A primeira foi Buriti. O livro de 1961 foi meu predileto do vestibular. Não teve para Machado nem Ana Cristina César. Muito menos para o próprio Guimarães em obras passadas. E ver recentemente o Palácio do Buriti em Brasília, com o Buriti solitário no espelho d’água… Isso sim é arte… A segunda é dupla. A descoberta de Grande Sertão, Veredas. Ler devagar, de trás para frente, frente para trás. Acelerar quando o sono aperta. Voltar a ler para pegar tudo de novo. Ler com dificuldade, passar o que não entende como quando estudo francês.

E aí, cara dura que sou, ao conversar com uma colega da Veja que tinha acabado de fechar uma página sobre Poty, pedi o telefone do artista. Liguei para ele em Curitiba. Expliquei que meu avô era fazendeiro de Minas. E que admirava muito o trabalho dele. Perguntei se uma gravura saía muito caro. Ele cobrou 240 reais (uma passagem SP-BH). Mandei (por malote) o cheque. Ele devolveu um envelopão. Não era gravura, era um desenho feito com caneta hidrocor em papel cartão neutro. Desenho mesmo. Era o cavaleiro tocando os bois que Poty fez para ilustrar Sagarana. Fiquei até com dó de dar de Natal para meu avô… Mas dei. Hoje é um quadro emoldurado na fazenda predileta dele. Toda vez que penso no futuro, disputo esse quadro com os herdeiros. Esse quadro é dele, mas volta para mim – nem que eu mate quem tentar levar.

A terceira passagem foi agora com a perda do meu João. Ai, esses Joões. Mineiros, interioranos e cardíacos.

Como não piso mais lá, Drummond me acode:

“Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?”

Agora vamos às coincidências.
Trabalhei com a neta de João. Neta bastarda (diziam em voz baixa e maliciosa – só porque o avô era famoso e ela, chata). O fato de ela ser neta da amante não a deixava muito relaxada para falar do avô… Ah se fosse MEU avô…

Mas a vida é assim. As pessoas criam casa de caramujo e de lá não saem. São cheias de certo e errado, cheias de não-me-toques.

Precisam de mais literatura e de um jogo completo de copos lagoinha. E do telefone do Poty no céu.

“Se você escolheu o caminho, não pode recusar a travessia.”

* Sobre o bar, o post é outro

Escrito por anapessoa

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