Voltando para casa minutos atrás, ele me aparece do além.
Entra no meu carro, abre a janela e coloca o Cristo reformado na paisagem da pequena metrópole.
Coloca fundo musical na minha escuridão.

Toda vez que ouço essa música, a sensação é de que Cazuza continua aí.
Porque tudo o que ele descreve é hoje e não, ontem.

“São 7 horas da manhã
Vejo Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
(…)
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem
Num trem para as estrelas
(…)
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois”

Fico pensando nesses artistas mortos.
Tanta clarividência…
Por isso ficam de longe rindo na nossa miséria.

O tal trem para as estrelas…
Tão óbvio e ainda tem gente fazendo fila na estação.

Hoje no francês, uma história que se repete.
Uma colega trabalha para um banco estrangeiro.
Problemas com a cultura.
Trabalho em excesso.
Ela vai puxar o carro e se mandar para Bordeaux. 6 meses de dolce far niente.
Todo mundo tem um caso parecido para contar.
Ninguém venha dizer aqui que estou usando de metáforas.
Não estou. Essa não é a minha história travestida de vida dos outros.

Na verdade o que me toca é essa sensação universal de estar fora da ordem.
Da nova ordem.
A questão do tempo.
Do pouco tempo.
Do trato.
Do prazer.
Do não ver a tal luz no fim do túnel.
E de sempre sentir que se está perdendo algo.
A grama do vizinho.
Juventude que se esvai.
Espaço que fica apertado.
A bilheteria que não tem mais passagens para Marte.

Na segunda-feira, um senhor me fez três perguntas.
Eu totalmente exposta, como carne seca no varal.

– O que é ser bonito?
– Do que você gosta?
– Você quer saber?

Isso virou uma mandala mística que abriu caixas, esconderijos, tirou pó, franziu testa.
Aquelas perguntas martelando na minha cabeça e abrindo mais e mais perguntas.
Eu querendo entender tudo.
Ou seria esconder?
Foi muito diferente.
Em outro momento, talvez eu não estivesse pronta.

Escrito por anapessoa

Um comentário para “Alumia”

  1. ju saad disse:

    Bravo!

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