Ela era cheia de idéias – como todos são.
E fez tudo o que se esperava.
Nem muito feia e nem muito bonita.
Nem muito inteligente.
O primeiro trabalho valia um cartão de visitas.
Achou um moço.
Nem muito feio, um pouco bonito.
Conheceu as pessoas certas.
E erradas.
Comprou apartamento.
Começou uma dieta.
Formou família, afundou-se no financiamento, trocou de carro.

Tudo ia muito bem quando, um dia, teve uma dúvida.
Cinto preto ou marrom?
Sem saber o que vestir, caminhou de um lado para outro.
Que dia é hoje?

Era tarde, os meninos tinham prova na escola.

Enquanto fazia tudo o que se esperava dela, as perguntas iam se acumulando num quartinho de despejo na garagem do prédio.
Este trabalho ou outra coisa?
Marido, filhos, família ou tudo novo?
Olhar para o lado ou concentrar no foco?
Como todo mundo, um dia.

Um dia, o quarto de despejo ficou lotado.
Ela liberou o armário embaixo da pia da cozinha.
Dúvidas, perguntas sem resposta iam sendo guardadas, escondidas, empilhadas.

Logo gavetas do escritório, prateleiras da sala, debaixo da cama, atrás das portas…
Não havia mais espaço.

E quando achava uma resposta, não havia onde guardá-la…
Como sempre, com todos.

Um dia, num desses hotéis muito bonitos, feitos para quem não tem tempo para aproveitar o spa, a academia de ginástica, os serviços personalizados.
Ela nunca tomava café no salão, mas.
Uvas vermelhas maduras.
Na decoração das mesas, frutas.

E notou que muitos não comiam.
E, entre os que comiam, alguns jogavam casca e ou sementes fora.
Lembrou das propagandas americanas.
Vitaminas, nutrientes, comece o dia com energia.

E entendeu que sempre faria parte do grupo dos que comem uvas com caroço.
Na pequena caixa de jóias escondida no fundo da gaveta de meias, uma dúvida desapareceu.

Escrito por anapessoa

3 comentários para “Uvas”

  1. T. Rodrigues disse:

    Mas o que não escondem esses signos…

  2. anapessoa disse:

    Escondem?

  3. T. R. disse:

    Sim, você não seria tão tola a ponto de mostrar tudo. Ninguém seria.

Deixe um comentário