Lá vou eu para a forca.
Embarco às 13h.

Antes, arrumar a casa, mandar bicho para hotel, o outro para o veterinário. Leleco, veterano, fica sozinho sem dramas.
Aproveito a viagem para marcar o resto do meu check up anual – dentista e outros dois especialistas.
Além de arrumar “a casa”, vou aproveitar a semana para ser apertada, revirada, furada, besuntada, vou “aproveitar” para ouvir de especialistas que faço muita coisa errada.
No corpo, um trunfo.
Estou em fase para lá de abstêmia.
Não que beba muito, mas, no ano passado, virei copos e não gostei.
E, agora carnívora, comendo melhor – acredita doutor?

Marquei também meu psicanalista – engraçado esse homem.
Freudiano total, nas minhas sessões ele fala e eu ouço.
Vai ver comigo tem que ser assim.

Minha vida é esse avião.
Vou largando pedaços importantes para trás, recuperando outros no aeroporto de aterrissagem.
Quando vôo, penso com calma.
Acho que, das nuvens, sentimos a morte.
Homem não foi feito para voar.
E, por isso mesmo, fica emotivo, resolve tudo em uma hora e quinze de vôo.
Aí, terra firme.
E confunde tudo de novo.

Eu nunca quis ser garçonete dos ares.
Muito menos piloto – só fui oficialmente autorizada a conduzir veículos com quase 22 anos.

Quando era adolescente, voei com meu tio médico e piloto.
Subimos, subimos, subimos naquele teco-teco monomotor com uma banqueta no lugar de assento.
Lá no alto absurdo, ele me deu o comando.
– Vou desligar a chave e você vai virando o manche.
Descemos numa louca velocidade, eu comandando o mergulho estapafúrdio.
Quando estávamos a ponto de virar sucata, ele ligou a máquina.
Meu coração – disparado –  não teve medo.
O barulho altíssimo do motor. E a força que fez nossos ossos tremerem.
O avião subiu bonito e nosso pouso foi sem sobressaltos.

Freud tem mesmo o que falar.

Escrito por anapessoa

Um comentário para “Monomotor”

  1. Pedrinho disse:

    Oi prima, a rádio Levindo Lopes me informa que lá vem outro(a) bisneto(a) a caminho… então, como deixei seu e-mail no celular em casa, resolvi agir por intermédio desta mídia. Parabéns e muitas felicidades! Vou garantir que vai ser cruzeirense desde bebê, para o desconforto do Tio Augusto!
    Beijão,

    Pedrinho

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