Além os comentários bacanas, nem sempre favoráveis, surgem alguns sui generis.
Dois recentes, merecem resposta pública. Um em inglês diz que estou mal na foto x. O problema é que quem mandou é conhecido – embora tenha usado pseudônimo.
Outro, em português, sugere que eu seja uma desempregada – vergonha das vergonhas nacionais.

O blog é público e aberto, portanto não censura comentários – ofensivos ou não.
Mas o blog não é minha casa.
O que faço, se tenho filhos, meu estado civil, religião – não é este o objetivo.

Mas, obviamente, se coloco a cara, coloco também os ouvidos.
Então vamos oferecer um martelo à moda.

Cliford Geertz em “A interpretação das Culturas” adverte com razão que

“a noção de que a essência do que significa ser humano é revelada mais claramente nesses aspectos da cultura humana que são universais do que naqueles que são típicos deste ou daquele povo, é um preconceito que não somos obrigados a partilhar”.

Cromwell que, segundo Geertz, foi “o inglês mais típico do seu tempo, precisamente por ser o mais esquisito” fez um comentário interessante:

“pode ser que nas particularidades culturais dos povos – nas suas esquisitices – sejam encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é ser genericamente humano”.

Numa sociedade capitalista com pitadas neo-liberais adaptadas para a tropicália, costumam ser universais os deveres:
– trabalho;
– nacionalidade;
– estado civil.
Sem os três, não somos pessoas.
Sem trabalho, não compramos, não comemos, não existimos.
Sem origem, não nos posicionamos no começo da guerra pela sobrevivência.
Sem estado civil, não somos aceitos ou, ao contrário, somos marginalizados.

E, por isso mesmo, esse blog não se interessa por essas questões.
Nem em publicar nem em saber.

Em nossas vidas fora das redes binárias, digitais, temos o sobrenome corporativo, temos ou não alguém, nascemos em algum canto.
Aqui, não.
Aqui, podemos mostrar tudo o que não somos, o que não vestimos.
Aqui, quero sua poesia, quero a tradução sem revisão, quero a discussão sobre a alegria de ser pai no Natal.
Aqui, Portugal não é feita de gente que reclama do que tem e que olha demais para os lados.
Aqui, Tóquio não é um terremoto.
Aqui, você pode se indignar com meu radicalismo e me cortar do seu mapa.
Aqui, você até me fazer mudar de opinião.

Aqui, não aceitamos ameaças e não deixamos o bom debate de lado.
Aqui, tem lugar a discussão sobre os limites do preconceito.
Afinal, ele existe – mas uns insistem em se esconder atrás da página em branco que não é a sua vida e o seu pensamento.

Minha mãe foi daquelas pioneiras com carreira brilhante, livros publicados, etc e tal.
Hoje, estudante de filosofia, descobriu que não quer ser professora, não quer escrever outro livro, não quer aplicar o conhecimento ou oferecer uma resposta à sociedade.
Ela quer estudar. E só.
Foram anos de caminhada para descobrir que nem tudo o que você faz tem que vir junto com uma resposta pública ou uma entrega social.

Adoro “A Casa & A Rua”, de Roberto DaMatta:

“Se no universo da casa sou um supercidadão, pois ali só tenho direitos e nenhum dever, no mundo da rua sou um subcidadão, já que as regras universais da cidadania sempre me definem por minhas determinações negativas: pelos meus deveres e obrigações, pela lógica do “não pode” e do “não deve”.”
(…)
“…no Brasil, vivemos sempre oscilando. Uma mesma pessoa pode expressar opiniões aparentemente diferentes, divergentes e até mesmo contraditórias, caso se posicione em casa, na rua ou no outro mundo”.

Pois é: eu tenho a mesma opinião não importa onde.
E é isto que te incomoda.

Escrito por anapessoa

2 comentários para “A minha casa não é a sua rua”

  1. Marcela disse:

    “Pois é: eu tenho a mesma opinião não importa onde.
    E é isto que te incomoda.”

    Errado, o que incomoda é você ser falsa.

  2. anapessoa disse:

    Falsa como seu pseudônimo?
    Ou como seu endereço de email (infantil)?…
    Se eu te incomodo, sorry, periferia!

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