Depois de muita corrida e passeio vagabundo sem rumo, o vira-lata reencontrou o portão de casa.
Não é que ele tenha fugido, mas um dia…
Um dia ele saiu e encontrou a porta de casa fechada.
Para passar o tempo, resolveu andar.
Primeiro um quarteirão.
Uma rua.
Dois quarteirões.
Quase atropelado.
Aprendeu o que os donos nunca conseguiram ensinar.
Atravessou ruas.
Cheiro de pastel de feira.
Fome.
Água de vala.
Volta para casa.
Onde?
Chute. Pedra.
Foi amarrado.
Passou duas noites preso a um portão.
Roeu a corda. E nem abanou o rabo.
Com o fiapo de força que não sabia que tinha, correu.
E deitou exausto no meio de uma praça suja do Centro de São Paulo.
Fraco, faminto, foi mordido por outros cães.
Virou latas.
Coxinha, misto quente, arroz com chuchu.
Salsicha.
Azedo.
Doce.
Com a barriga cheia, quarteirões.
Portão.
Casa.
4 dias.
E seu latido mudou.

(para sempre)

Escrito por anapessoa

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