Minha profissão, a de escrever histórias com imagens em um minuto e quarenta segundos, ensinou-me a respeitar os tempos.
Drama e comédia são gêneros difíceis justamente porque demandam altíssima sensibilidade para pausas.
Em épocas de muita pressa, a tendência geral é não respirar.
E concluir sem refletir.

A boa história pode ser óbvia.
Nem toda ruim tem mistério.
Mas é inegável que os clássicos te fazem perder o rumo em algum momento.
Os russos foram mestres em criar tempos.
Desviar de caminhos temporariamente.
Seguir um fluxo e interrompê-lo em momento de frenesi.
Os alemães, ah… Como não querer chegar ao fim de A Montanha Mágica depois de anos e páginas num sanatório?
A percepção distorcida de tempo de Castorp transforma os anos finais em dois capítulos.
Curioso é que a “locação” é Davos, templo de debates do que um dia foi a economia desenvolvida do mundo contemporâneo.

Pausa.
Em épocas de não perder a piada, respire.
Nada é o que parece ser.
E você pode não ter entendido nada.

Inspire.

Escrito por anapessoa

4 comentários para “Respire”

  1. gonçalves disse:

    Quer dizer que os russos inventaram a literatura tântrica?

  2. anapessoa disse:

    Eu não diria isso de A Morte de Ivan Ilitch… Se tudo começa num velório…

  3. anapessoa disse:

    Nice!

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