quando tudo começou

Comecei hoje um daqueles MBAs cheios de nome e sobrenome, meio brazuca, meio gringo.
O critério de seleção foi ter grana para bancar – como é doce o capitalismo.
E como é inconsequente o “banco” que me financia.

Eu tenho esse defeito ferrado: invento umas coisas, arrumo argumentos, convenço e faço.
Mas nem sempre acredito no que andei dizendo.
Esse MBA é meu anti-eu.
Processos, análise de risco, múltiplos-projetos, matemática financeira, viabilidade…
Tudo para quem quer planejar e ter certeza de não repetir erros e, ainda, insistir nos acertos.

Puts!

Minha vida de uma década para cá foi só de sorvete na testa.
Saí da Globo, mudei/voltei para Belo Horizonte, troquei um excelente salário por uma vida do avesso.
Fui estudar Direto, virei estagiária da minha mãe ganhando 500 reais – isso depois de estrelar uma matéria de importante revista feminina em que contava como fiz sucesso antes dos trinta.
Minha empregada ganhava mais do que eu – vale transporte e INSS, nego, estagiário não ganha.
Fiquei magra feito um pau: resultado de muito choque na barriga (estimulação russa, querida) e massagens + remédios duvidosos.
Voltei para Sao Paulo, arrumei emprego no Rio.
Despedi-me da Globo em alto estilo (e ganhando menos do que eu ganhava quando saí pela primeira vez).
Peguei dinheiro emprestado com minha mãe (coitada, coitada) e fiz um outplacement.

Quase famosa

Esse negócio é basicamente um purgatório para executivos demitidos.
Para mim foi um playground da reinvenção.
Eles desesperados atrás de uma vaga, e eu, alucinada, criando a executiva do mundo corporativo.
Fui trabalhar numa construtora.
Inventei os caras.
Emplaquei Folha, Veja, Globo, o escambau.
Paguei minha mãe. Virei editora de revista como hobby.
Ganhei dinheiro para caramba.
Minha cama custou 27 mil reais em 2008! Auping – recomendo!!!

Descobri que construtor opera Caixa 2 (eu nunca tinha visto isso de perto).
Limpei a área do marketing – tirei todos os fornecedores, abri concorrência, deixei as contas limpinhas.
Quando a coisa começava a andar, apareceu uma nota fria em meu nome com dinheiro que teria sido depositado em minha conta.
Ferrada e revoltada, bufei três dias, enchi meu peito de ar e meti um processo.
Ex-estagiária de direito, fiz questão de entrar pessoalmente com a papelada.

Me mandei para Nova York com dólar a 2,40.
Voltei e arrumei um emprego muito louco.
No lugar de bandidos, nerds bagunçados.
Não gostei do trabalho, amei o ambiente.
Como é legal trabalhar com gente que não é tão apegado a processos, que não é mainstream. Como é legal trabalhar com o verdadeiro glamour do marketing.

A força de Sansão

Um ano depois, venci o processo.
Dei certo na empresa.
Fui chamada por Deus e o Mundo para trabalhar com eles.
Cai em tentação e caí no chão.

Fui seduzida pela marca de energéticos mais genial do mercado – uma empresa completamente oposta ao espírito Ana Pessoa.
Talentosos em manipulação e branding, adeptos do trabalho escravo.
Cara, o que eu estou fazendo aqui?
Cercada por uma ninhada de tubarões que nunca vão entender que grana não é nada?
Depois de uma volta o mundo, pedi o boné.

O casamento faliu, meu pai morrera meses antes, fiquei me sentindo corajosa e perdida.
Fui para Paris juntar os cacos.
Sem um puto no bolso. De novo.

Quase 3 meses e voltei.
Larguei 18 anos de vegetarianismo, engordei 4 kg.
Cortei o cabelo, fiquei morena depois de anos de Vênus platinada.
Pronta para arrasar.

Faltava virar um lixo emocional de verdade para completar a jornada.
Levantar da cama era minha vitória.
Bebi todas todos os dias.
Os caras nunca deixaram de pintar, mas eles não têm graça.
Homem, desculpe a franqueza, é jogo para amador.

Eu precisava me reinventar de verdade.

Não fui trabalhar na nova empresa de compras coletivas mais quente do mercado.
Não fui trabalhar na nova empreitada do Ronalducho.
Fiz uma limpa na minha rede social – tirei os chatos, os interesseiros, as bichas loucas mimadas. Xô baixo astral mal resolvido!

E, agora, tô buchuda.

O dia em que comecei a nascer

Justo eu – independente, moderna, contra a maternidade.
O casamento voltou pelo golpe da barriga involuntário.
Quase 40. Cássia Eller me protege.

Faço hidroginástica, yoga, massagem ayurvédica, como brigadeiro, chocolate, doce de leite, nhá benta.
Contratei uma doula.
O amor voltou.
Quero agora ter 3 filhos.
Achei todo mundo do MBA amador (não dá para mudar tanto assim: continuo sendo do contra).
Ele, Recife.
Eu, Sampa.
No líquido aminiótico, muito chute ao som de Led Zeppelin. Eclético, treinamento de cobrança de falta quando Beth Carvalho solta o gogó.

Tenho pensado seriamente em escrever um livro.
Não vai ser best-seller. Isso não é Ana Pessoa.

(Mas o blog “Com mais de 40” promete!)

Escrito por anapessoa

15 comentários para “Sem pensar”

  1. Ge Fujii disse:

    …PARABENS!!!…por TUDO!!!…omedetoooooooooooooooo!!!…bjs

  2. anapessoa disse:

    😉

  3. Camila disse:

    Parabéns pela maternidade e por sua capacidade de se reinventar.
    Aproveite a inspiração desse período e escreva o livro… pelo menos uma leitora vc já tem. rsrs

    Beijo

  4. anapessoa disse:

    Olha Camila, obrigada por ler e contar. As vezes acho que esse é um diário do caos sozinho. Risos.

  5. Fernanda M disse:

    Ana Pex, sua forca eh impressionante! A vida eh mesmo surpreendente – e o mais bacana eh que voce “danca” bonito com ela. Nao faz bico, nao – vira “chapa”. Sensacional. Beijoca

  6. anapessoa disse:

    Fernandita,
    você ainda vai me contratar no Google…

  7. Leo disse:

    Esse negócio de renascer sempre dá certo para as mulheres…

    … vocês ficam lindas depois… 😉

  8. anapessoa disse:

    Olha, mas uma recauchutada pode ser necessária. Minha yoga está sendo uma “plástica preventiva”. Nem te conto.

  9. Ana Pessoa disse:

    muitos muitos parabens, e quando vier a Lisboa, pisque o olho à AP do lado de cá do altlântico, não se esqueça!

  10. anapessoa disse:

    Pode deixar. 😉

  11. Juliana disse:

    Acho que foi um dos melhores de seus posts que já li por aqui!
    Agora…. essa da maternidade, é de verdade mesmo?! hihihi… Se positivo, parabéns e que você seja (e esteja) muito feliz. Já dizia aquela propaganda: “quando uma criança nasce, nasce também uma mãe”. E uma mãe porreta dessa vai ser do barulho!! Um beijo, um abraço e um sorriso! :)

  12. anapessoa disse:

    Eh verdade – apesar de eu ver o Papai Noel na frente do espelho todos os dias, algo me diz que essa barriga tem algo mais…

  13. Marcela Soares disse:

    Conheço essa diva loira morena com feroz orgulho desde meus tempos de Doc Martens roxa. Será que ela virou minha amiga para sempre desde uma inebriante corrida pela chuva?? Já pensei nela nas chuvas de tantos ceps…Já tive medo da tanta tantice dela, e nos tempos mais distantes, matava as saudades nas entrelinhas dos textos que ela me apresentou. Vai Aninha, venta , inventa e se re-inventa…. Andarilha de si mesma…. E eu vou aqui assistindo embevecida dançando em sua homenagem…
    … amanha conheço Joao Max…. Estou emocionada.

  14. Marcela Soares disse:

    rindo e sorrindo…

  15. anapessoa disse:

    Linda!

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