Sempre fui boa de guardar coisas, organizar gavetas, montar caixas.
Malas.
Tudo começou quando saí de casa.
Fazer a mala para virar gente.

O que você levaria?
Quantas roupas, quantas recordações, um retrato? Uma panela?

Pois eu levei um armário (que me acompanha até hoje)…
Um edredom, um vidro de cachaça de Salinas, Sagarana de Guimarães Rosa.

Depois dessa primeira grande viagem, outras e tão diversas.
Por anos mantive uma mala pronta para viagens inesperadas.
Foram sertões, Piauí, Maranhão, Pará – meu amado Ceará.
Na Bahia, viagens curtas, praias, paraísos.

Essa mala de emergência tinha roupa de calor, roupa de frio, bota, bikini, protetor solar, repelente, baterias, lanterna, comida de astronauta, máquina fotográfica russa – totalmente manual e resistente a tudo (inclusive a essa que vos escreve).
Como era delicioso prepará-la: viesse o que viesse (e eu previa furacões, tiroteios, balões), eu estaria pronta.
A amiga guerreira foi sendo costurada e re-costurada ao longo do caminho.
Hoje ela repousa, aposentada e nobre, dentro de uma caixa em meu closet.

A primeira vez que pisei em solo argentino, desbundei.
E, para carregar Buenos Aires pelos próximos meses em São Paulo, comprei uma malinha.
Pequenina, com bordas arredondadas, rodinhas, ideal para levar na cabine do avião.
Em sua primeira jornada, ela veio farta: garrafas de vinho, doces de leite, um par de luvas de pelica.
Ficamos inseparáveis.
Ouro Preto? Rio? Nova York? Tiradentes? Dubai? Parati?
Eu e ela e todos os aeroportos, estações, asfaltos, pedras e ruelas.

Com o tempo, as estadas foram se alongando, os destinos ficando mais e mais distantes.
Não pense em consumismo vão: virei colecionadora de malas – são 13!
Todas com seu lugar reservado, algumas são verdadeiras matrioshkas.
Cada uma com centenas, milhares de quilômetros e muita história guardada num compartimento secreto.

Por que desse texto?
É que hoje fiz malas… E não coube tudo.
Sampa, arriverdeci.
Não volto antes de 2012.

Escrito por anapessoa

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