12 abr

Obstruct

Chegando de mais uma viagem. Fugindo de um vulcão, correndo em sentido anti-horário para mais uma reunião de trabalho em dia de feriado nacional.
Gerúndios em looping, sem tempo para descansar.
Custa caro manter um cartão de visitas lustroso.

Exausta depois de 28 horas no ar, preparou a apresentação madrugada adentro.
O CEO da turma infantil batia ponto de Geração Y.
O diretor falido e colecionador de fracassos na vida pessoal.
Despidos, acovardados. No bolso dos paletós, estoques de máscaras para as mais diferentes ocasiões.

Olhou em volta.
Um gaúcho calvo, medíocre e cujo segredo para tanto fel era ter sido rejeitado pelo Itamaraty.
Dois cariocas bobos-alegres e sem nenhum brilho.
A marca era realmente boa no quesito manipulação de curto prazo.
Palmas.

Olhando em dois celulares, emails que chegavam com pedidos, exigências, discussões, acusações, trabalhos-extras, perguntas, questionários, relatórios, pedidos de assinatura, reembolsos que não foram depositados.
As reuniões iam se acumulando.
Números.
Imagens com edição rápida e música pesada.
Como dominar o mercado.
Como cooptar os jovens.
Felizes, um a um, funcionários mostravam suas habilidades.

Teve saudade da caixa de papelão.
Aquele sequestro mudara tudo.
As conversas sem rodeio com seus captores.
Um entendimento do que é ser marginal.
Eles, pobres diabos, querendo um salário-bandido.
Ela, pensando, que sua sina era pior que a deles.

Levantou-se.
Sua vez.
Botou tudo a perder.

Enquanto olhavam incrédulos para ela, mais um email apitou em seu blackberry.
E-ticket para Paris confirmado.

Escrito por anapessoa

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