3 mai

Com os pés presos, uma carreira semi-acabada por ter ido nu ao escritório, resolveu soltar a última corda que prendia a alma.
Meio dia, frio de 9°C no país tropical.
Ameaça de chuva.
Parou num bar.

Começou com um chopp garoto.
Mas o corpo, gelado, pedia por algo mais forte.
Um uísque.
O garçon sugeriu um negroni.
Tomou também.
Trocou o almoço por mais um drinque colorido.
E voltou para o escritório com as idéias embaralhadas.

Conseguia andar em linha reta, mas sentia a cabeça pesada.
Respondeu emails com humor.
Decidiu deletar os provocativos – que eram tantos e sobre questões banais.

Pediu uma jarra de água para a secretária.
Chocolates.

Passou a tarde com a mente variando, rindo das bobagens que viravam grandes dramas corporativos discutidos com agressividade por email. Alguém, hoje, enfrentava problema cara a cara?
Comeu chocolates sem parar.
Lambuzou os dedos. Sujou o terno.
Encheu-se de água para curar o fogo.

Decidiu se levar menos a sério.

Escrito por anapessoa

4 comentários para “Capítulo 14 – Ócio oculto”

  1. TASNeves disse:

    Contra minha vontade tenho andado ausente deste sítio, mas hoje, até por isso mesmo, lendo e relendo o que v. escreve, fiquei intrigado sobre o personagem e tomo a liberdade de rogar por uma (breve) análise do eu lírico desses capítulos todos.

    É pedir demais?

  2. anapessoa disse:

    É, mas te atendo.
    Não, não sou eu.
    Sim, é paulista.
    Gênero: indefinido.
    É alguém nos 40, repensando o cotidiano. Teve um choque, saiu do prumo. Virou a personagem.

  3. TASNeves disse:

    Ana,

    Excelente.

    Muito obrigado por realizar este meu desejo antigo: fazer o poeta explicar o próprio texto.

    Mudando um pouco de assunto, por acaso você conhece alguém que escreva livros institucionais para empresas?

  4. anapessoa disse:

    Sim, o Humberto Werneck.

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