17 mai

Acordou virada.
A empregada veio com as mesmas perguntas: cardápio do almoço, dinheiro para tal coisa.
Nem respondeu.
Beijou o filho, vestiu aquela roupa que teimava em não caber – e que, milagrosamente, coube – e saiu.
Sem direção…
Rodou pelos arredores.
Pompéia, Lapa, Vila Romana.
Olhava as caras sem face dos trabalhadores que saem todos os dias a caminho de um escritório com divisórias de PVC, paredes brancas, porteiro de terno azul marinho.
Viu os pontos de ônibus cheios.
Gente carregando sacolas aposentadas de supermercado.
Parou no farol de uma rua movimentada.
O carro chamou atenção de um grupo de bolivianos que tomava chá do lado de fora de um botequim.
Entrou.
Pediu um café e uma branquinha.
Misturou tudo, tomou sem fazer cara feia.
O sinal abriu.
Deixou dois reais sobre o balcão.
Nervosos, motoristas buzinavam.
Nem olhou para as caras sem nariz, sem olhos, sem boca.
Rodou mais um pouco.
Uma loja improvisada em uma casa velha, quintal com pomar.
Pediu pão de mel.
Comeu com calma.
Fechou os olhos.

Animada com a fuga, escolheu um caminho.
Correu no parque até que os pés ficaram cheios de bolhas de sangue.
Voltou para casa sem fome.

Escrito por anapessoa

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